Tchecos e eslovacos se encontram: seu antigo país parece pronto para voltar à Euro

Dentre as divisões nacionais ocorridas a partir da queda do comunismo no Leste Europeu, nenhuma aconteceu de maneira mais tranquila do que na Tchecoslováquia. Surgido a partir da fragmentação do Império Austro-Húngaro, o país uniu duas regiões de traços culturais distintos, mas de aspirações políticas parecidas na época. Uma união que permaneceu até 1992, quando o nacionalismo dos partidos no congresso acelerou uma dissolução pacífica. Tanto que, 23 anos depois do fim da antiga nação, as relações diplomáticas entre tchecos e eslovacos são ótimas. Fraternidade que se estende ao futebol, como bem representa o amistoso em Zilina nesta terça, com as duas seleções sendo fortes candidatas à Euro 2016.
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Desde a separação, a notoriedade da República Tcheca é consideravelmente maior. Ainda que as duas seleções só tenham se classificado para uma Copa do Mundo cada, os tchecos se classificaram a todas as edições da Eurocopa desde 1996, terminando duas vezes entre os três primeiros colocados. Além disso, a lista de craques da seleção tcheca é mais extensa. Enquanto Nedved, Cech, Poborsky, Smicer, Baros e Rosicky apareceram de um lado da fronteira, Hamsik e Skrtel são os mais talentosos entre os eslovacos. Qualidade que se reflete nos números do confronto direto: em nove jogos, são cinco vitórias dos tchecos e apenas duas derrotas.
Craques tchecos, mas títulos com a marca dos eslovacos
Historicamente, enquanto os dois países estavam unidos, a balança também sempre pendeu para a República Tcheca. Posses do Império Austríaco, as regiões da Boêmia, da Morávia e da Silésia eram mais desenvolvidas do que a Eslováquia, área ruralizada do Império Húngaro. E o desenvolvimento urbano se refletia nos gramados. Quando o Campeonato Tchecoslovaco surgiu em 1925, unindo as antigas competições regionais, era praticamente exclusivo dos tchecos – sobretudo, os de Praga. O primeiro time eslovaco a disputar a primeira divisão só alcançou o feito em 1936: o Rusj Uzhorod, que caiu na mesma temporada.
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O mesmo se refletia na seleção da Tchecoslováquia, vice-campeã na Copa de 1934. Dos 11 titulares na final contra a Itália, somente o meio-campista Stefan Cambal era eslovaco. Nasceu em Bratislava e começou a carreira na cidade, ainda que tenha sido convocado pela primeira vez quando já estava no Slavia Praga, potência nacional ao lado do Sparta.
A partir da reorganização da Tchecoslováquia como um país comunista, em 1945, os clubes eslovacos passaram a ter relevância. O Slovan Bratislava teve apoio político regional e foi tricampeão nacional entre 1949 e 1951. Ainda assim, o momento vitorioso era exceção, especialmente depois que o exército impulsionou o Dukla Praga. Em 1962, o clube serviu de base para a seleção novamente finalista do Mundial. Quatro dos titulares contra o Brasil na decisão jogavam lá, incluindo o craque Josef Masopust. Em compensação, quatro também atuavam em times eslovacos, enquanto três haviam nascido na região.
De 47 edições do Campeonato Tchecoslovaco disputados entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a separação do país, apenas 14 ficaram nas mãos de clubes eslovacos. Porém, o período de maior domínio aconteceu às vésperas da maior conquista da história da seleção tchecoslovaca, a Eurocopa de 1976. A partir do declínio do Dukla, na segunda metade dos anos 1960, Spartak Trnava e Slovan Bratislava monopolizaram a taça – cinco e três títulos, respectivamente, entre 1968 e 1975.
Ainda que os dois protagonistas (Panenka e Ivo Viktor) viessem de Praga, 14 dos 22 campeões da Eurocopa atuavam na Eslováquia, sendo sete do Slovan – entre eles, o capitão Anton Ondrus. Durante a hegemonia dos eslovacos no campeonato nacional, o Slovan Bratislava ainda conquistou o único título continental de um clube do país. Venceu a Recopa Europeia de 1968/69, derrotando na final o Barcelona por 3 a 2.
O esboço de uma seleção como no passado
Da medalha de ouro olímpica em Moscou ao declínio do futebol local na década de 1980, a última grande aparição da Tchecoslováquia em torneios internacionais ocorreu na Copa de 1990. Da equipe que só caiu para a Alemanha Ocidental nas quartas de final, nove jogadores serviram depois a seleção tcheca, enquanto quatro fizeram parte da eslovaca. Kadlec, Nemec, Nemecek e Kubík perderam outra vez para os alemães na final da Euro de 1996. Já Vladimír Weiss teve a honra de treinar a Eslováquia na Copa de 2010, após superar os antigos compatriotas nas Eliminatórias.
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E se a seleção da Tchecoslováquia voltasse a existir, como ficaria no papel? Por mais que a República Tcheca não conte com sua geração mais exuberante, poderia abocanhar sete vagas no 11 ideal: Cech, Selassie, Skrtel, Hubocan, Michal Kadlec; Darida, Plasil; Hamsik, Rosicky, Stoch; Lafata. Independente disso, os dois países apresentam chances reais de avançarem à Euro 2016, ambos liderando grupos difíceis – os tchecos aparecem à frente de Holanda, Turquia e Islândia, enquanto os eslovacos encabeçando a chave de Espanha e Ucrânia. Motivo a mais para uma partida grandiosa nesta terça.



