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Masopust é eterno por seu talento e pelo respeito que praticou e conquistou em campo

Há algumas lendas do futebol que nem mesmo os vídeos em preto e branco resumem por completo sua maestria. As raras imagens são apenas um aperitivo de um talento evidente. Mas cuja real grandeza passa mesmo é pela oralidade. Pelos contos que dão reais cores aos mitos e os tornam eternos, que nem sempre foram registrados por uma câmera. Uma destas lendas é Josef Masopust, predecessor daquilo que se costuma chamar de “jogador moderno”. Um meio-campista completo, considerado o melhor de todos os tempos em uma seleção gloriosa como a Tchecoslováquia. Afinal, o veterano liderou o seu país à final da Copa de 1962, ganhando até mesmo a Bola de Ouro naquele ano. E, por mais que existam vídeos de suas jogadas no Chile, sua importância só pode ser verdadeiramente medida em palavras. Um craque que, agora, é só lembranças, falecido nesta segunda-feira aos 84 anos.

HISTÓRIA: Dukla Praga, o supercampeão mais odiado da história

Masopust era sobrevivente da Segunda Guerra Mundial. Adolescente durante a invasão alemã, o garoto se livrou de ter que servir ao exército, mas desenvolveu o seu futebol em meio aos escombros. No entanto, o cessar-fogo veio no momento certo para desabrochar como um dos maiores talentos do país no início da década de 1950, com a camisa do Teplice. Até justamente o exército alçar sua carreira a um novo patamar. Em tempos nos quais os times eram geridos por órgãos estatais comunistas, o meio-campista de 21 anos foi convocado ao serviço militar para se juntar ao Dukla Praga. A partir de então, formava-se o maior esquadrão da história da Tchecoslováquia.

Não era mera coincidência que, um ano após a chegada de Masopust, o Dukla conquistasse o inédito título tchecoslovaco, desbancando os poderosos Sparta Praga e Slovan Bratislava. A partir de então, o clube do exército estabeleceu uma dinastia, conquistando oito vezes a liga nacional até 1966. Convocando para o quartel os craques de outros clubes, o Dukla nunca teve a simpatia no país, assim como Masopust era o maior símbolo de uma equipe odiada. No entanto, a bola nos pés mudou essa percepção. Em especial, pelos serviços que ele prestou à seleção tchecoslovaca.

A partir de 1954, Masopust se tornou o grande nome da seleção. Na Copa de 1958, ditou o ritmo do time que humilhou a Argentina por 6 a 1, mas não passou de fase em um grupo duríssimo também com Alemanha Ocidental e Irlanda do Norte. Já na Eurocopa de 1960, levou o seu país à terceira colocação, eliminado pela União Soviética nas semifinais, mas ainda presente na seleção do torneio. Para viver o ápice no Mundial de 1962.

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A seleção tchecoslovaca possuía um time que não era exuberante, mas possuía muita qualidade coletiva. Especialmente por seu camisa 6. Segundo a revista France Football, Masopust era daqueles jogadores “capazes de tocar violino ao mesmo tempo em que lavam pratos”. Que encantou demais naquela Copa, com seus dribles curtos, sua visão de jogo e o passe preciso. “Ele nunca deu um chutão na bola, sempre jogava com passes curtos e tabelas até que os espaços se abrissem. Então, ele iria destruir. Passava um, dois, três adversários, um depois do outro, como se fossem cones nos treinos. Era um jogador incrível”, definiu Svatopluk Pluskal, seu ex-companheiro na meio-cancha do Dukla e da seleção por 14 anos.

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Muito por conta do talento de Masopust, a Tchecoslováquia avançou em um grupo duríssimo, após empatar com o Brasil e vencer a Espanha. Ainda eliminou Hungria e Iugoslávia nos mata-matas, antes de cair aos pés de Garrincha na decisão em Santiago. Não que o meio-campista não tivesse tentado. Marcou o gol que abriu o placar na final, mas não pode fazer muito para segurar a virada. Como consolação, acabou eleito o segundo melhor daquele torneio, além de receber a Bola de Ouro ao final do ano, a única entregue a um jogador tchecoslovaco (Nedved repetiria a honraria pela República Tcheca, em 2003).

O lance que eternizou o mito de Masopust em 1962, entretanto, aconteceu no outro jogo contra o Brasil. E não foi nem mesmo com bola rolando. Após um chute defendido por Schroiff, Pelé sofreu uma distensão na virilha. Em tempos nos quais as substituições ainda não eram permitidas, tentou permanecer em campo. Mas recebeu todo o respeito do craque adversário. Masopust ordenou que seus companheiros não chegassem duro contra o camisa 10, apenas o cercassem. E, quando Pelé viu que não daria mais, o tchecoslovaco o acompanhou na saída de campo.

“Foi comovente ver o respeito com que ele tratou a situação. Não apenas o respeito por Pelé, mas pela Seleção inteira. Ele era um grande jogador e, mais do que isso, um cavalheiro”, declarou Djalma Santos. Além disso, o próprio Pelé reconheceu a nobreza do momento: “É um gesto que eu nunca me esquecerei. Masopust é um dos maiores jogadores que eu vi. Ele tinha dribles explosivos, parecia até mesmo um jogador brasileiro. O Brasil foi melhor na final, mas certamente ele não merecia estar do lado perdedor”.

Algo que, para Masopust, foi apenas mais uma postura condizente com o esporte: “Disse para os meus companheiros não tentarem desarmas Pelé. Poderia ser mais fácil, mas não estava certo em partir para cima de um adversário machucado. Vi isso como um gesto humanitário”. Depois da Copa, Masopust continuou servindo a seleção por mais quatro anos, mas não conseguiu a classificação para a Copa de 1966. Aposentou-se no final da década, já às vésperas de completar 40 anos. O ponto final de uma carreira brilhante, reconhecida por muitos como uma das maiores do Século XX, a ponto de render uma estátua em Praga. E que tornaram a memória de Masopust imortal.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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