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A Copa pode ajudar a Rússia a retomar o prestígio da URSS

A Rússia vai a sua terceira Copa do Mundo desde o fim da União Soviética. Uma classificação sem sobressaltos, construída graças à imposição nos jogos em casa e contra as seleções mais fracas do Grupo F – algo que os portugueses não fizeram e, por isso, terão que disputar a repescagem. E, no Brasil, os russos terão duas oportunidades importantes: refazer a impressão ruim deixada em suas duas últimas Copas e já construir o caminho rumo ao Mundial de 2018, no qual terão obrigação de fazer bonito diante da sua torcida.

Inegavelmente, a Rússia é a principal herdeira do legado futebolístico da União Soviética. Uma antiga potência, que parece relegada aos livros de história. Em sete participações em Copas do Mundo, os soviéticos só não passaram da primeira fase uma vez e chegaram às semifinais em 1966. No campo, a classificação só não aconteceu uma vez, em 1978 – quatro anos antes, o conflito político fez a URSS boicotar o duelo contra o Chile na repescagem. Porém, como Rússia, a queda de desempenho é notável. A qualificação só veio em 1994 e 2002, com a seleção caindo ainda na primeira fase. Em 2010, a algoz foi a Eslovênia na repescagem.

A transformação do futebol soviético ao longo de sua história ajuda a explicar essa diferença. A constituição do futebol nacional concentrou-se em Moscou, na década de 1920. Os bolcheviques se aproveitaram de clubes antigos para vinculá-los a órgãos do governo comunista, tentando criar uma relação entre a máquina do Estado e a população. Na primeira edição do Campeonato Soviético, Dynamo Kiev e Dinamo Tbilisi eram os únicos participantes de fora da Rússia. O Temp Baku passou a representar o Azerbaijão em 1938. Só a partir de 1945 é que a presença de clubes de outras repúblicas passou a ser gradual, com mais nove nações. E o primeiro título para um time de fora da Rússia só aconteceu em 1961.

Um processo parecido aconteceu com a seleção soviética. Dos 22 convocados para a Copa de 1958, apenas dois jogadores nasceram nas outras repúblicas – um ucraniano e um letão. Nos Mundiais seguintes, o crescimento foi paulatino: oito atletas (1962), dez (1966) e doze (1970). Já nas três últimas participações soviéticas, os russos eram minoria. Foram 15 ‘estrangeiros’ em 1982, 17 em 1986 e 14 em 1990. Boa parte deles era da Ucrânia, com os soviéticos tirando proveito da excelente fase vivida pelo Dynamo Kiev.

Como consequência, o futebol russo demorou a se estabilizar ao fim da União Soviética. O Campeonato Russo foi dominado pelo Spartak Moscou por uma década, até que CSKA Moscou e Lokomotiv Moscou se equiparassem no topo, no início da década de 2000. Já nos últimos anos, a hegemonia saiu até mesmo da capital, com o crescimento de Rubin Kazan e Zenit. Já na equipe nacional, o sinal mais claro da recuperação aconteceu na Eurocopa, com três participações consecutivas e a aparição nas semifinais em 2008.

Em 2018, outra vez uma potência?

Para manter a ascensão, a Rússia virá para o Brasil com uma base forte e um treinador experiente. Fabio Capello tem em mãos um elenco tarimbado, em que os principais destaques chegarão à Copa na casa dos 30 anos – entre eles, Yuri Zhirkov, Igor Denisov, Roman Shirokov e Aleksandr Kerzhavov. Vários jogadores que rodaram por outras ligas da Europa, mas que só alcançaram o ápice com a seleção quando voltaram ao país. E a representatividade do Campeonato Russo para a constituição da equipe nacional é provada em números: dos 46 jogadores convocados ao longo dos últimos 12 meses, só um não joga na liga local.

A experiência e o contato constante entre os jogadores são o grande trunfo da Rússia. Não apenas para fazer uma boa campanha na Copa de 2014, mas também para preparar a geração que liderará o time em 2018 – encabeçada por Alan Dzagoev, Denis Cheryshev e Aleksandr Kokorin. Pela extensão territorial, pela massa populacional e pela difusão do futebol no país, os russos têm vários elementos para se transformar em uma potência no futebol internacional, algo que tende a ser bastante ajudado pelo alto nível do Campeonato Russo. E que também pode ser motivado por uma boa campanha da seleção no Mundial. A vinda ao Brasil deve ser vista como um meio, não como um fim.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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