Itália

Visitante inofensivo

A cena se repete de maneira preocupante para o torcedor ‘rossonero’. Fora de casa, o Milan desperdiça pontos contra adversários de menor qualidade técnica, mas superiores na parte física e até na disposição. A derrota por 3 a 1 para o Palermo, no último domingo, serviu para reforçar o argumento de que o time de Carlo Ancelotti pode colocar suas chances de título por terra se não conseguir ser eficiente atuando longe de San Siro.

O mau desempenho fora de casa responde por quase toda a desvantagem para a líder Inter, que hoje é de seis pontos. Em sete jogos, foram apenas duas vitórias (Reggina e Atalanta), três empates (Cagliari, Lecce e Torino) e duas derrotas (Genoa e Palermo). O Milan somou nove pontos fora, enquanto a Inter obteve 14 – ou seja, aí estão cinco dos seis pontos de diferença.

Nas partidas contra Lecce e Torino, o pecado do Milan foi o mesmo. O time não soube matar o jogo quando estava em vantagem e jogava melhor, permitiu que os adversários crescessem e não teve pernas no final. Contra o Palermo, a história foi diferente. Desde o início do jogo, os ‘rosanero’ tiveram o controle, e até perderam oportunidades antes de Amelia defender o pênalti de Ronaldinho. Depois que os donos da casa enfim marcaram, no início do segundo tempo, parecia claro que o Milan não teria forças, nem fôlego, para reagir.

É possível buscar atenuantes, como o fato de ter jogado na quinta-feira pela Copa Uefa na Inglaterra, ainda que com uma equipe mesclada. Ou ainda atribuir o resultado a ausências significativas como as de Gattuso e Kaká. De fato, a ausência de ‘Rino’ tira bastante da pegada do meio-campo, que passa a ter poder de marcação reduzido, e a do brasileiro causa prejuízos na velocidade do time, muitas vezes ditada por suas arrancadas.

Estes fatores, no entanto, acabam por remeter às falhas do início da temporada, como o mercado mal conduzido. Em jogos deste tipo, a ausência de um centro-avante de ofício muitas vezes se faz sentir. Um homem de área, um Drogba ou um Adebayor, teria sido muito bem-vindo, em vez de Shevchenko, o ídolo decadente. Esperava-se esse papel de Borriello, após a ótima temporada no Genoa, mas as seguidas lesões e a turbulenta vida pessoal não permitem que ele exploda no Milan.

Também não se pode fechar os olhos para a queda de rendimento da defesa, que havia sido um dos pilares da recuperação da equipe, que chegou a liderar na décima rodada depois de marcar 22 pontos em 24 possíveis. Os três gols do Palermo têm responsabilidades individuais. No primeiro, Zambrotta concede muito espaço para a finalização de Miccoli. No segundo, Maldini é facilmente antecipado no alto por Cavani. E no terceiro, Jankulovski não faz a cobertura como esperado e deixa Simplício livre para cabecear na área.

A única boa notícia da noite de Palermo pode ter sido a boa participação de Pato, que sofreu o primeiro pênalti, mas saiu machucado logo em seguida. Enquanto esteve em campo, o brasileiro buscou jogo, deu opção para os companheiros e causou problemas à defesa palermitana. O jovem camisa 7 precisa de continuidade para recuperar a confiança que lhe escapou em algum lugar após o início promissor.

Curiosamente, o problema do Milan na temporada passada era justamente vencer em San Siro. Fora de casa, a equipe se virava bem, mas diante da própria torcida a primeira vitória só chegou em janeiro, contra o Napoli, na estréia de Pato e na melhor atuação de Ronaldo com a camisa ‘rossonera’. Agora, a situação se inverteu. Se quiser manter o passo da Inter e impedir que a rival alcance seus 17 títulos da Série A, o Milan terá de deixar de ser um visitante inofensivo.

“E se ne va… la capolista se ne va”

“E vai embora… a líder vai embora”. Assim a torcida da Inter cantava, nas últimas temporadas, quando o time disparava na ponta do campeonato. Pois a música já é novamente atual. A Inter de José Mourinho tem um ponto a menos do que tinha a de Roberto Mancini na mesma rodada ano passado, mas a vantagem para o segundo colocado era de três pontos, contra os atuais seis. Com cinco vitórias consecutivas, os ‘nerazzurri’ acabaram com os sonhos da classe média da tabela que se vangloriava de um campeonato equilibrado até então.

Na vitória por 2 a 1 sobre o Napoli, a Inter mostrou meia hora de um ótimo jogo, com fluidez nas jogadas e dois belos gols – especialmente o segundo, com o calcanhar de Cruz e a conclusão de letra de Muntari –, mas também teve de reconhecer a força do adversário e se proteger nos minutos finais do segundo tempo, quando Burdisso entrou como terceiro zagueiro. Enfim, o espetáculo ainda fica para depois, mas os pontos da tranqüilidade têm chegado.

Classificação garantida na Liga dos Campeões, liderança folgada no campeonato. Tudo um mar de rosas em Appiano Gentile, então? Não necessariamente. Mourinho tem de lidar com os insatisfeitos, como Patrick Vieira, que perdeu o lugar no time e não deve recuperá-lo tão cedo. Quaresma, reforço caro, não correspondeu às expectativas e não foi nem para o banco contra o Napoli – a exemplo do jovem Balotelli, que é um caso à parte.

O técnico português tem se mostrado insatisfeito com a falta de empenho de Balotelli nos treinamentos – a ponto de vir a público dizer que ele “ainda não é nada”.

“Um jovem como ele não pode se permitir trabalhar menos que gente como Figo, Córdoba e Zanetti”, disse Mourinho. “Não posso aceitar isso de alguém que ainda não é nada, que mal chegou, que ainda é uma promessa. (…) Se ele treinasse 50 por cento em relação aos outros, seria um dos melhores do mundo. Mas ele treina 25 por cento”.

A mensagem não poderia ter sido mais clara, mas não se sabe como Balotelli reagirá. Recentemente, ele assinou contrato com uma fabricante de material esportivo, que deseja ver seu jogador em ação – e de preferência sem ser tão criticado publicamente. Neste caso, poderia crescer a pressão de seus representantes por uma saída em janeiro, algo que a direção interista não pretende permitir.

Outro ponto nervoso para Mourinho é o comportamento da torcida em San Siro. Depois do jogo contra o Napoli, ele afirmou que apenas os torcedores da curva, onde ficam as organizadas, apoiavam o time, enquanto o restante do estádio permanecia em silêncio – ou até vaiava – nos momentos complicados do jogo.

“Agradeço a curva por apoiar sempre, mas de resto nossos torcedores não são o 12º jogador”, lamentou o treinador, que criticou particularmente algumas vaias a Maicon. Segundo Mourinho, o lateral brasileiro entrou em campo contrariando um parecer médico que não recomendava sua escalação.

Ainda que o barco interista não navegue em águas calmas, ele vai seguindo seu caminho. E as cinco próximas rodadas (Lazio, Chievo, Siena, Cagliari e Atalanta) não sugerem uma desaceleração. Para melhorar, ainda há o confronto direto entre Milan e Juventus para deixar pelo menos um deles (ou ambos) mais longe.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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