Uma lição ao guardiolismo

Colocar no comando um técnico com pouca ou nenhuma experiência na função, mas que jogou pelo clube e se identifica com suas cores, de repente parece ter virado uma receita para o sucesso automático. Afinal de contas, O Barcelona conquistou todos os títulos que disputou sob o comando do novato Josep Guardiola, ainda por cima apresentando um futebol atraente.
Milan e Juventus, dispostos a desafiar a supremacia da Internazionale no futebol italiano, decidiram recorrer à fórmula. Os rossoneri fizeram uma estranha aposta em Leonardo, que tinha passado de dirigente e até então nunca havia demonstrado interesse em trabalhar à beira do gramado. Na Juve, a opção foi por Ciro Ferrara, com um histórico um pouco mais semelhante ao de Guardiola – sem experiência no comando de um time profissional, mas vindo de um trabalho nas categorias de base do clube.
No último fim de semana, a dupla recebeu uma lição de personagens que ainda não alcançaram grandes clubes, mas tiveram que roer o osso e passaram por um valioso aprendizado: Walter Zenga, do Palermo, e Antonio Conte, da Atalanta. O Palermo de Zenga venceu a Juve por 2 a 0 e impediu que a Vecchia Signora fosse líder isolada pela primeira vez desde o purgatório na Serie B. A Atalanta de Conte ainda não venceu no campeonato, mas, mesmo jogando em inferioridade numérica durante mais de um tempo, fez o Milan suar para arrancar um empate por 1 a 1.
Evidentemente, o Milan, travado no meio da tabela, tem problemas bem maiores que a Juve, que vive uma seca de vitórias, mas ainda está a apenas dois pontos das líderes Inter e Sampdoria. Se não tivesse arrancado um ponto em Bérgamo, talvez Leonardo nem fosse mais o técnico da equipe. E a julgar pelas palavras de Alessandro Nesta após a partida, pode-se interpretar que o elenco espera uma orientação que o brasileiro não é capaz de dar.
“Era um jogo para vencer. A Atalanta estava em dificuldade, e não conseguimos superá-la. Ainda temos muita dificuldade, precisamos ser humildes e entender que temos dificuldade. Não adianta dizer que com um empate resolvemos nossos problemas. O Milan resolve seus problemas quando vence, sobretudo contra um time que fica com dez jogadores. Ainda temos de trabalhar muito. Nós nos confundimos no ataque, perdemos as bolas e levamos muitos contra-ataques. Temos de evitar isso. Perdemos um pouco as medidas, acredito. Será preciso reencontrá-las, cobrir melhor o campo”, declarou Nesta, que foi o principal milanista em campo, tanto pelo trabalho defensivo quanto pela jogada do gol de Ronaldinho.
Ainda procurando a formação tática ideal, Leonardo lançou mão de um 4-4-2 estranho pelos nomes que entraram em campo. Acabou utilizando Gattuso aberto pela direita e Seedorf pela esquerda, ambos fora de suas melhores posições. Não é necessário ser um gênio para adivinhar que não deu certo, e a criação de jogadas da equipe foi nula. A Atalanta, enquanto isso, pressionou as deficientes laterais milanistas com Padoin e Valdés, ao passo em que Doni tinha liberdade para trabalhar entre as duas linhas de marcação dos visitantes. O gol de Tiribocchi que abriu o placar não foi nenhuma surpresa. Pelo contrário, fez justiça à melhor organização atalantina.
A expulsão infantil de Radovanovic e a perda de Doni por lesão obrigaram a Atalanta a abdicar do jogo ofensivo no segundo tempo, passando a apenas se defender por praticamente meia hora. Ainda assim, conseguiu apenas um empate contra um dos times mais modestos do campeonato, precisando que Nesta fosse ao ataque para armar o lance do gol de Ronaldinho – cuja bela finalização não absolve mais uma atuação apagada.
No barco sem rumo do Milan, Pato parece cada vez mais distante do jogador da última temporada, dando razão a quem defende sua ausência da Seleção Brasileira. Huntelaar, por sua vez, segue sendo um corpo estranho dentro da equipe quando tem a oportunidade de jogar.
O nome mais cotado para assumir o Milan caso Leonardo não se sustente é o de Marco van Basten, outro que começou a carreira de técnico já no alto e queimou etapas de aprendizado. Logo de cara, dirigiu a seleção holandesa e o Ajax, sem alcançar resultados impressionantes. A mudança poderia chacoalhar o ambiente, mas dificilmente seria positiva a médio prazo – até porque Van Basten seria cobrado como ídolo do clube que é.
Méritos de Zenga
Na Sicília, a Juventus de Ferrara foi surpreendida por um Palermo que se preparou para minar seus pontos fortes. Zenga não vinha de um começo de temporada ideal, mas pode contar com a bagagem de quem já passou por vários países como treinador. O ex-goleiro trabalhou na Romênia, na Sérvia, na Turquia, nos Emirados Árabes. Acostumou-se a diferentes modelos de trabalho, diferentes estilos de jogo e aprendeu a se adaptar às circunstâncias. Não por acaso, em sua chegada ao futebol italiano, fez um belo papel com o Catania.
A derrota da Juve no Renzo Barbera mostra que as verdades no futebol são muito tênues. O time que começou com ritmo forte o campeonato, com uma seqüência de resultados que foi merecedora de elogios nesta coluna há apenas duas semanas, desde então não sabe mais o que é vencer. No campeonato, somou apenas dois pontos nos últimos três jogos, além do empate com o Bayern de Munique pela Liga dos Campeões. Ficou a impressão de que o bom rendimento de Buffon escondia problemas já existentes.
Primeiro, porém, os méritos do Palermo. Zenga conseguiu acomodar Bresciano, Fábio Simplício e o talentoso argentino Pastore de maneira a que os três rendessem o máximo. A solução foi montar a equipe com três zagueiros, recuando Migliaccio para atuar ao lado de Kjaer e Bovo. Cassani e Balzaretti jogaram mais adiantados nas laterais, explorando um setor que a Juve, por sua disposição tática com o meio-campo em losango, utiliza pouco. Na frente, o time rosanero atuou sem uma referência, com Miccoli e Cavani sempre procurando puxar a marcação e abrir espaço para a chegada de um dos meias.
Simplício, em posição mais recuada em relação à que estava acostumado na última temporada, fez um bom trabalho na marcação de Diego, que vai procurando se habituar a ser visado e marcado individualmente na Itália. E o ex-jogador do São Paulo acabou dando uma aula a Felipe Melo, jogador de Seleção Brasileira, mas que falhou pelo segundo jogo consecutivo na Serie A. No lance do primeiro gol, Melo perdeu a bola para Pastore, que armou para a conclusão de Cavani.
Ao contrário da Seleção, onde tem Gilberto Silva a seu lado para proteger a defesa, na Juve o ex-jogador da Fiorentina atua como o homem mais recuado do meio-campo, o que faz com que um erro do tipo – já visto no jogo contra o Bologna – deixe a zaga exposta. Na ausência de Cannavaro por lesão, isso tem um peso ainda maior.
A recuperação de Sissoko, que passou um longo período se recuperando de contusão, pode ser benéfica nesse sentido. Resta saber se Ferrara testará o time com dois volantes nas próximas rodadas, de forma a dar mais segurança ao setor.
Também ajudaria muito a Vecchia Signora se Amauri reencontrasse o caminho do gol. O brasileiro esteve mais uma vez irreconhecível, e parece perturbado pela ansiedade de obter enfim o passaporte italiano. O problema é que ele não tem jogado o suficiente para justificar a convocação quando ela for possível.



