Itália

Um touro sem rédeas

Esta coluna noticiou, semana passada, que Gianni De Biasi havia recebido um prazo de três jogos para dar jeito no Torino. Mas a direção do clube considerou que não precisava ver mais nada depois da goleada de 4 a 1 sofrida em casa contra a Fiorentina, no último domingo, e apresentou o bilhete azul ao treinador. A verdade, no entanto, é que De Biasi já balançava desde o começo da temporada, não apenas por não conseguir dar um padrão de jogo ao time, que é o mais feio de se assistir na Série A, mas também por não ter o pleno respaldo do presidente Urbano Cairo.

Basta lembrar que De Biasi foi o responsável por levar um renascido Torino de volta à Série A, em 2006, mas foi demitido na semana do início do campeonato de 2006/7 para dar lugar a Alberto Zaccheroni. No meio da temporada, Zaccheroni caiu, e coube a De Biasi a responsabilidade de salvar o time de um retorno imediato à segunda divisão. Não foi o suficiente para lhe valer a permanência para a campanha seguinte. Com Walter Novellino, que vinha de uma ótima passagem pela Sampdoria, o Toro voltou a se ver ameaçado, e quem foi chamado para socorrer o time em abril? Ele mesmo, De Biasi, que vinha de um trabalho difícil, mas digno, com um Levante atolado em dívidas na liga espanhola. Nas cinco últimas rodadas, os ‘granata’ escaparam novamente.

Você não contou errado: são três demissões do mesmo clube, pelo mesmo presidente, em dois anos e meio. Nas especulações sobre o novo técnico, surgiu o nome de Roberto Donadoni, que voltaria a dirigir um clube após a passagem mal sucedida pela seleção italiana. Outra hipótese comentada foi a promoção de Eugenio Corini a técnico-jogador, que apareceu por causa da presença do meio-campista em uma reunião de três horas com Cairo e o diretor esportivo Mauro Pederzoli após a derrota para a Fiorentina.

Nem uma coisa, nem outra. Cairo decidiu chamar Novellino de volta – o mesmo que não servia há oito meses e tinha problemas de relacionamento com parte do elenco. O presidente acha, então, que ele de repente é o técnico ideal para recolocar o time nos trilhos? Não necessariamente.

Na Itália, dispensar um treinador não significa necessariamente deixar de pagá-lo – vale lembrar que Roberto Mancini ainda recebe € 500 mil mensais da Internazionale. A não ser que haja comum acordo para a rescisão, o técnico continua lá na folha de pagamentos. É o caso de Novellino, contratado a mais de € 800 mil anuais. Como tudo indica que o clube não chegará facilmente a um acordo com De Biasi, Cairo achou que não seria a melhor idéia colocar um terceiro técnico no orçamento.

Não é de surpreender que a torcida ‘granata’ tenha restrições a Cairo e peça sua saída. O empresário teve um papel fundamental para a sobrevivência do clube ao resgatá-lo em 2005 e levá-lo de volta à elite, mas seus investimentos parecem nem sempre os ideais – não tanto pelo dinheiro, que é mais limitado que nos grandes clubes, e mais pelas escolhas feitas. Nunca é demais lembrar que o Catania, com uma folha mais enxuta, tem conseguidos bons resultados graças a acertos na estrutura do futebol e na contratação de jogadores bons e baratos.

O elenco atual do Torino não parece ser mais pobre tecnicamente que o de alguns times que estão à frente na classificação. Há bons valores, como o meia-direita Abate, mas a harmonia no vestiário parece comprometida. Após levar o gol de Mutu logo aos 2 minutos de jogo, o time já se mostrava entregue – se é exagero dizer que se tratava de um esforço para derrubar De Biasi, pelo menos pode-se afirmar que não parecia haver grande empenho para salvar o técnico.

Os torcedores, que viam o time perder em casa pela quarta vez, se revoltaram. Os protestos não se limitaram aos xingamentos de praxe. Depois da partida, uma centena se juntou do lado de fora do portão do estádio Olímpico e atirou ovos na direção dos jogadores, deixando clara a tensão existente entre os ‘tifosi’, a direção e o elenco.

Neste panorama, o início do trabalho de Novellino se desenha delicado. Já começa com um jogo fora de casa contra o Bologna, rival direto na luta pela permanência na Série A. Até o fim do primeiro turno, o Toro ainda recebe o forte Napoli, visita um Genoa praticamente imbatível em casa e joga em casa contra a Roma. A projeção de pontos não pode ser das mais otimistas. Tudo indica que a mudança no comando não livrará o time do drama da luta contra o descenso pelo terceiro ano consecutivo. Mudam os técnicos, mas a mentalidade permanece.

Rei de Gênova

O dérbi entre Sampdoria e Genoa era também uma disputa particular entre Antonio Cassano e Diego Milito, dois ídolos de uma cidade que não vivia um futebol tão bom desde a primeira metade dos anos 90. Milito saiu-se melhor, e com seu 12º gol no campeonato levou o Genoa à vitória, firmando o ‘grifone’ como sexta força do campeonato.

Não foi uma vitória qualquer, porque o Genoa precisava ir até 2002 para lembrar o último gol contra a Samp. A última vitória, em 2001. A última vitória na Série A, em 1995. A série de tabus acabou justamente no primeiro clássico que o Genoa disputava à frente da rival na classificação desde os anos 60.

Milito é o homem que carrega o time nas costas, mas conta ainda com apoios importantes em todos os setores. Thiago Motta, em uma função mais avançada à que estava habituado na Espanha, fez um ótimo trabalho no dérbi. Criscito, zagueiro escalado como ala-esquerda, cobriu muito bem as investidas de Padalino em seu setor. Ferrari foi segurança garantida na zaga, assim como Rubinho no gol – o brasileiro mostrou-se recuperado da falha incrível no jogo contra a Lazio.

A Samp saiu lamentando dois gols anulados – especialmente um de Fornaroli, bastante duvidoso – mas também reconhecendo que o placar fez justiça ao que se viu em campo. Em Gênova, o momento dourado é dos ‘rossoblú’, que têm uma oportunidade e tanto de chegar à Liga Europa. A primeira vitória “fora de casa” chegou justamente no campo onde o time praticamente não dá passos em falso.

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Equipe Trivela

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