Itália

Um prêmio ao fracasso

A fidelidade de alguns treinadores a determinados conceitos se torna tão cega que é capaz de distorcer seriamente o trabalho. É como se apenas um critério importasse, de forma a tornar irrelevantes todos os demais. Para Marcello Lippi, nada está acima do “grupo”, da necessidade de um espírito coletivo tão grande que possa até sufocar a eventual explosão de talentos individuais. Uma obsessão semelhante à que os brasileiros enxergam em Dunga, cujo discurso militaresco não se cansa de irritar.

A convocação de 29 jogadores para dois dias de treinamentos esta semana, que marcarão o último encontro de Lippi com o elenco antes do anúncio da lista definitiva para a Copa do Mundo, demonstra que o treinador preferiu ignorar jogadores que fizeram uma grande temporada em detrimento de outros que faziam parte dos planos há mais tempo, ainda que não venham jogando bem.

Nada de Fabrizio Miccoli ou Antonio Cassano, protagonistas de arrancadas brilhantes por Palermo e Sampdoria, respectivamente, rivais por uma vaga na Liga dos Campeões. Em compensação, o treinador foi capaz de incluir no elenco nada menos que nove jogadores da Juventus, de longe a grande decepção da temporada, atualmente em sétimo lugar e já fora da corrida pela principal competição europeia.

Pelo menos Lippi não foi tão cara de pau a ponto de incluir Amauri entre seus convocados. O atacante, que chegou a abdicar da Seleção Brasileira enquanto aguardava a chegada de seu passaporte italiano, neste período também perdeu o caminho das redes, e com ele qualquer chance de defender a Azzurra no Mundial. De qualquer forma, é difícil explicar a presença de um zagueiro fraco como Legrottaglie e até mesmo de Grosso e Camoranesi, campeões mundiais que há tempos não fazem uma boa partida.

Vamos dar uma olhada nos nomes relacionados e entender quem já garantiu vaga e quem disputa os lugares restantes no avião.

Goleiros: Buffon (Juventus), De Sanctis (Napoli), Marchetti (Cagliari), Sirigu (Palermo).

Buffon, um dos poucos que merecem absolvição pelo fiasco juventino, é o titular absoluto e De Sanctis seu reserva imediato. Marchetti, apesar de ter caído de rendimento na reta final do campeonato, deve ir como terceiro goleiro. O jovem Sirigu fica de sobreaviso.

Defensores: Bocchetti (Genoa), Bonucci (Bari), Cannavaro (Juventus), Cassani (Palermo), Chiellini (Juventus), Criscito (Genoa), Grosso (Juventus), Legrottaglie (Juventus), Zambrotta (Milan).

Na lateral-esquerda, Lippi não tem mais dúvidas. Levará Criscito e Grosso, ainda que o juventino tenha sido reserva de De Ceglie em várias partidas pelo clube. Na direita, Zambrotta é nome certo – outro que deixou seus melhores anos para trás. Cassani, a princípio, seria a solução para a reserva, mas o técnico pode optar por Maggio, convocado como meio-campista, que também faz a função.

Para a zaga, Cannavaro tem seu posto assegurado como capitão e homem de segurança de Lippi, ainda que não transmita a segurança de outros tempos. Chiellini, peça firme da Azzurra no pós-título de 2006, é outro com passaporte carimbado. Legrottaglie deve completar o trio de zagueiros da Juve, deixando uma vaga aberta a ser disputada por Bonucci e Bocchetti. Vantagem para o jogador do Bari, que jogou bem no amistoso de março contra Camarões e parece em melhor forma.

Uma possibilidade mais remota é a de Lippi abrir mão de um zagueiro para levar um meio-campista a mais, levando em conta a possibilidade de Criscito atuar no centro em caso de necessidade.

Meio-campistas: Camoranesi (Juventus), Candreva (Juventus), Cossu (Cagliari), Gattuso (Milan), Maggio (Napoli), Marchisio (Juventus), Montolivo (Fiorentina), Palombo (Sampdoria), Pepe (Udinese), Pirlo (Milan).

Neste grupo ainda se inclui Daniele De Rossi, da Roma, que ficou fora dos treinos por causa da final da Copa da Itália. Além de De Rossi, podem se considerar convocados para a Copa Pirlo e Marchisio. Lippi deve convocar ainda Camoranesi e Gattuso, mesmo com o milanista enfrentando dificuldades físicas e hoje sendo reserva no clube.

Por que não levar Ambrosini, o titular, que fez uma temporada muito melhor? O mesmo discurso vale para Perrotta, um dos bons nomes da grande campanha da Roma. Não são mais dois garotos (Ambrosini terá 33 anos na Copa, Perrotta 32), mas é melhor levar jogadores experientes que estejam jogando bem do que levar os que estão em má fase.

Projetando a convocação de sete jogadores para o meio-campo, ficariam abertas duas vagas. Palombo e Montolivo disputam em pé de igualdade uma delas – a boa seqüência de Aquilani no Liverpool não deve convencer Lippi a chamá-lo – mas ambos poderiam ir se Lippi levasse um defensor a menos. Entre Pepe e Cossu, vantagem para o meia da Udinese, há mais tempo no ambiente da seleção, apesar de o jogador do Cagliari ter sido uma grata surpresa.

Atacantes: Borriello (Milan), Di Natale (Udinese), Gilardino (Fiorentina), Iaquinta (Juventus), Pazzini (Sampdoria), Quagliarella (Napoli).

O grupo de convocáveis tem ainda Giuseppe Rossi, ausente da lista por compromissos com o Villarreal. O centroavante titular será Gilardino, herói na reta final das Eliminatórias, garantindo a classificação com um gol fundamental em Dublin. Também estão confirmados Di Natale, artilheiro da Serie A com 26 gols, e Iaquinta, recuperado de um longo afastamento por lesão.

Lippi provavelmente escolherá um entre Pazzini e Borriello. A dúvida deve persistir até o fim do campeonato, mas o atacante da Sampdoria parece em ligeira vantagem. Sem chances, aparentemente, para Toni. Restaria, então, uma vaga, a ser preenchida por Quagliarella ou Rossi. Ambos fizeram temporadas abaixo das expectativas.

Então, fica a dúvida: quem providencia o talento e a fantasia neste elenco? A análise dos nomes mostra que nenhum jogador tem essa característica. É uma seleção burocrática, incapaz de empolgar o torcedor. A única alternativa viável para quebrar esse panorama seria Francesco Totti.

O capitão da Roma manteve aberta, ao longo de toda a temporada, a possibilidade de retornar à Azzurra para disputar o Mundial. No entanto, vai se aproximando a hora da definição e ainda não se chegou a uma posição definitiva. Condições físicas permitindo, Totti tem de ir. No último sábado, marcou seu 190º pela Serie A e se igualou a Kurt Hamrin na sexta posição da artilharia histórica. E não foi um gol qualquer, foi um toque por cobertura que evidenciou sua categoria.

Com Totti, as chances de a Itália evitar um vexame na África do Sul aumentam um pouco. Falar em título, porém, ainda parece um tremendo exagero.

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Equipe Trivela

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