Itália

Um passado que incomoda

Certas feridas são tão profundas que não levam pouco tempo para cicatrizar. É o caso do futebol italiano com o escândalo de manipulação de resultados que causou severas punições em 2006, com a Juventus no olho do furacão. A facilidade com que dirigentes dos clubes tinham acesso aos homens fortes da federação e aos responsáveis pela escala de arbitragem desencadeou um processo de limpeza moral que era necessário, mas não tão simples.

Portanto, é natural que um histórico desse tipo levante desconfianças quando a Série A tem uma rodada como a do último fim de semana, com erros de arbitragem favorecendo os dois primeiros colocados. Foram equívocos de diferentes níveis, mas todos com interferência no andamento das partidas.

O lance mais grave foi o gol decisivo de Maicon na vitória da Internazionale por 2 a 1 do Siena. O brasileiro partiu em clara posição de impedimento, mas o árbitro Alessandro Griselli ignorou. No dia seguinte, a Juventus abriu o placar nos 3 a 1 sobre a Atalanta com um gol de Del Piero após um cruzamento de Marchionni – que partiu em posição irregular. Menos clara que a de Maicon na véspera, mas também existente.

Técnicos e dirigentes de Inter e Juve começaram a semana admitindo os erros dos árbitros e se apressando em tratá-los como acontecimentos normais de jogo, buscando evitar maiores polêmicas. O presidente juventino Giovanni Cobolli Gigli disse que “não existe o sistema Inter ou o sistema Juve”. Do lado da Inter, Massimo Moratti afirmou que o erro da arbitragem não pode esconder o fato de que sua equipe merece a liderança.

Ainda assim, não foi o suficiente para evitar que se espalhasse pela mídia a antiga discussão sobre a “submissão psicológica” dos árbitros aos times grandes da Itália. Ou seja, não existiria um esquema, mas uma tendência natural dos juízes a favorecer os mais fortes. Uma impressão difundida, mas não baseada em números.

Há motivos para alarmismos? Esta coluna acredita que não. Lances de impedimento são naturalmente difíceis, e por isso tanto se pede o uso da tecnologia para acabar com as dúvidas. Griselli é um assistente internacional, que trabalhou na final da Eurocopa, e pode se permitir uma jornada infeliz, como qualquer jogador em campo.

No entanto, os traumas deixados por 2006 obrigam Pierluigi Collina, chefe do departamento de arbitragem, a agir com punho duro para acabar com eventuais suspeitas sobre a lisura do processo. Isso significa mandar para a geladeira os árbitros que erram, especialmente a favor dos grandes. Griselli não deve ser visto na Série A pelos próximos dois meses. Para Marco Alessandroni, auxiliar de Atalanta x Juventus, também deve haver punição, mas de menos tempo.

A credibilidade de Collina é fundamental para acalmar os ânimos. Basta ver que Adriano Galliani, vice-presidente do Milan, defendeu o ex-árbitro após ter visto os dois principais rivais favorecidos. “Acredito em Collina e no seu trabalho”, afirmou o dirigente rossonero, que tem instruído comissão técnica e jogadores do clube a não falarem de arbitragem.

É preciso trabalhar duro e uniformizar critérios para evitar que se repitam erros como o do último fim de semana. Mas já é algo positivo que o ambiente do ‘calcio’ se mostre preparado para aceitar que eles fazem parte do jogo e não têm necessariamente que significar uma volta aos tempos negros dos esquemas de manipulação.

Super Série B

Faltando duas rodadas para o final do primeiro turno, a Série B mostra um impressionante equilíbrio, com cinco equipes empatadas na liderança com 32 pontos: Livorno, Sassuolo, Parma, Empoli e Brescia. O Bari, sexto colocado, aparece logo atrás, com 31.

O Parma, com um passado recente glorioso, sofreu na adaptação à Segundona e sofreu no início do campeonato, mas se recuperou bem até alcançar os líderes no último fim de semana, com a vitória por 1 a 0 sobre o Cittadella. O jovem atacante Alberto Paloschi, emprestado pelo Milan, é o protagonista do bom momento da equipe de Francesco Guidolin.

Livorno e Empoli, os outros rebaixados da última temporada, conseguiram evitar grandes desmanches e têm elencos fortes para sobreviver até o final na luta pelo acesso. O Brescia aposta nos gols de Andrea Caracciolo, atacante campeão europeu sub-21 pela Itália em 2004, que reencontrou a boa forma após passagens sem brilho por Palermo e Sampdoria.

A surpresa no grupo é o Sassuolo, que disputa pela primeira vez a Série B. O time da região de Modena mantém o passo dos favoritos com um time de boa técnica, apesar de inseguro na defesa. O veterano Riccardo Zampagna, ex-Atalanta e Vicenza, é o destaque, com sete gols marcados.

Havia bem menos equilíbrio na temporada passada, quando Bologna e Chievo viraram o ano com 43 pontos, distantes dos perseguidores. Desta vez, a corrida pela Série A deve se arrastar até as rodadas finais.

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Equipe Trivela

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