Itália

Um novo milagre

O fã do futebol italiano sabe que é impossível falar do Chievo sem relembrar o assombro que o simpático time amarelo causou no início da década. Representante de um pequeno bairro de Verona, a equipe subiu pela primeira vez para a Série A em 2001 e foi naturalmente cotada como candidata a um retorno imediato à segunda divisão. Ledo engano.

O Chievo liderou durante boa parte do primeiro turno na temporada 2001/02 e, apesar de uma queda de produção na segunda metade do campeonato, terminou com o quinto lugar que lhe valeu a classificação para a Copa Uefa. O time dirigido por Luigi Del Neri ganhou na Itália a alcunha de “Chievo dei miracoli” (Chievo dos milagres).

O clube se manteve na elite por mais alguns anos, sempre com campanhas honrosas, e chegou até a bater sua melhor posição ao terminar em quarto lugar em 2005/06, ainda que por consequência de todas as punições do Calciocaos. Na temporada seguinte, disputou a fase preliminar da Liga dos Campeões – foi eliminado pelo Levski Sofia –, algo que condicionou seriamente o restante da campanha da equipe, que terminaria rebaixada. Seria o caso de imaginar que o Chievo voltaria a realidade de time de bairro, mas a resposta veio com uma grande campanha na Série B: acesso conquistado com título.

A nova experiência do Chievo entre os grandes não lembrava em nada a primeira. O time segurou a lanterna entre a 12ª e a 18ª rodada, e fechou o primeiro turno na penúltima colocação, com apenas 13 pontos. Agora, o panorama é totalmente diferente. Em apenas nove rodadas no returno, os clivensi já somaram 14 pontos, totalizando 27. É a quinta melhor campanha da segunda metade do campeonato, ficando atrás apenas de Internazionale (23), Juventus (19), Milan (17) e Roma (16).

A grande vitória por 3 a 0 sobre a Lazio no último domingo, em pleno estádio Olímpico de Roma, tirou o Chievo da zona de rebaixamento pela primeira vez desde a sétima rodada. Ficaram para trás Bologna (26), Torino (24), Lecce (23) e Reggina (20). A situação está longe de ser tranquila, mas também não é mais desesperadora como era no fim de 2008.

Desde a virada do ano, o Chievo fez onze partidas e só perdeu uma, para a Fiorentina, com gol nos acréscimos. Das quatro vitórias neste período, três foram conquistadas fora de casa, confirmando a vocação do time para jogar no contra-ataque.

A contratação do técnico Domenico Di Carlo para o lugar de Beppe Iachini, no início de novembro, é apontada como uma das principais causas da reviravolta do Chievo. Os méritos do treinador de 43 anos são reconhecidos especialmente porque não houve grandes mudanças no elenco desde sua chegada. O clube atuou discretamente no mercado de janeiro, buscando apenas um jogador para ser titular (o atacante nigeriano Makinwa, da Lazio) e outros apenas para compor elenco, como Colucci e Sardo, ambos do Catania.

Di Carlo mudou a forma de jogar da equipe, passando a adotar um meio-campo em losango, com Pinzi mais adiantado, e um ataque com dois jogadores ágeis – Pellissier, em grande forma, e Makinwa. Seu principal trabalho, no entanto, foi mexer com o lado psicológico dos jogadores para que eles acreditassem nas possibilidades de reação.

O poder de liderança de Di Carlo é conhecido desde seu tempo de jogador, quando foi capitão do Vicenza, campeão da Copa da Itália em 1997 e semifinalista da Recopa Europeia no ano seguinte, derrotado pelo Chelsea de Zola e Vialli.

Seu início como treinador foi impressionante, alçando o Mantova da quarta divisão para a Série B com duas promoções consecutivas (2004 e 2005) e chegando perto de uma vaga na Série A logo de cara (derrota para o Torino no play-off em 2006). Na temporada 2006/07, mais uma boa campanha – oitavo lugar com direito a uma vitória sobre a Juventus que quebrou a invencibilidade dos bianconeri.

Di Carlo estreou na primeira divisão com o Parma, mas não foi bem sucedido. Foi demitido em março do ano passado, e viu seu substituto, o argentino Héctor Cúper, deixar o time à beira do rebaixamento antes de ser demitido ás vésperas da última rodada, quando a derrota pra a Inter sacramentaria o descenso.

O momento negativo dos três últimos colocados é razão para otimismo entre os torcedores do Chievo. O Torino perdeu por 2 a 0 para a Atalanta no último domingo, e um novo revés na próxima rodada deve significar a saída do técnico Walter Novellino. O Lecce já mudou de treinador – Mario Beretta por Luigi De Canio –, mas continua sofrendo com sérios problemas defensivos, como ficou demonstrado nos 5 a 2 do Palermo. A Reggina nem deve ser levada em consideração, já que por seu elenco sofreria até para ocupar um dos primeiros lugares na Série B.

A permanência do Chievo na elite passa necessariamente por uma melhora das atuações e dos resultados em casa. No próximo domingo, contra o Palermo, o time de Di Carlo tem a chance de provar que o caminho agora é para o alto. Para um novo milagre.

Inzaghi, 300 gols

Apenas três jogadores italianos haviam marcado pelo menos 300 gols até o último domingo: Silvio Piola (364), Giuseppe Meazza (338) e Roberto Baggio (318). Só isso já ajuda a entender o tamanho da façanha alcançada por Filippo Inzaghi ao marcar duas vezes contra o Siena e se juntar ao clube dos 300.

Este colunista já escreveu sobre Inzaghi no blog da Trivela. Muito melhor escreveu o ex-técnico do Milan e da seleção italiana Arrigo Sacchi, em sua coluna na Gazzetta dello Sport, apropriadamente intitulada “A paixão é o primeiro talento”, que reproduzimos aqui:

“Inzaghi, o goleador. Pippo, o infinito. O homem que a cada gol enlouquece de alegria. O jogador que nunca envelhece. O grande campeão que marca sempre. O profissional que vive por sua profissão. O apaixonado pelo futebol que nunca trai. O jogador que faz da obsessão um valor agregado, inclusive Pavesi escrevia que a obsessão é arte. Portanto, o artista que nunca se cansa de jogar, sonhar e marcar. O atleta que sabe se programar para dar o melhor de si. Pippo é orgulhoso, detalhista, um perfeccionista. Estuda adversários, goleiros: não deixa nada ao acaso, treina com seriedade e grande profissionalismo.

Leva uma vida de atleta de alto nível. Seu desafio é perene, onde o dever é finalizar. Talvez seja egoísta, talvez não participe muito do jogo de equipe. Mas no momento oportuno se encontra no lugar certo no momento certo. O gol é sua profissão, sua droga, seu orgasmo e sua vitória. É uma luta perene, um desafio entre ele e o gol.

O futebol é sua vida, e como pessoa inteligente e de grande consciência profissional, Pippo faz de tudo para buscar a excelência. Seus movimentos são quase todos voltados para a finalização. Prevê, antecipa, intui antes dos outros. Possui reatividade e capacidade de movimento e desmarcação extraordinários: parece sortudo, mas é simplesmente competente. Marca com o pé, cabeça, canela, joelho, barriga, etc. O importante é fazer gol.

Pippo é um predador que na área se movimenta como um envenenado. O instinto, unido a vontade, motivação e paixão formidáveis, multiplicam seu talento. Não possui um físico potente e explosivo. Não é particularmente veloz, tem qualidades técnicas (drible, chute, impulsão e passe) normais como o conhecimento do jogo coletivo. Pippo ama o futebol desde sempre, e desde pequeno queria absolutamente se tornar um grande jogador. A extraordinária motivação, unida a orgulho, seriedade, trabalho e amor pelo esporte, foram multiplicadores das suas qualidades.

Além disso, ele soube ampliar os dotes naturais que possui, como atenção, percepção, intuição. Pippo é um fenômeno a ser estudado e imitado em muitas coisas. Não se sabe quando ele terminará de jogar e marcar: a paixão certamente prolongará sua carreira. Ele se renderá tarde, o mais tarde possível. O futebol é sua vida. Todos os garotos que se aproximam deste esporte podem ter, graças a Pippo, uma esperança a mais.

Até mesmo aqueles que não possuem dotes em particular podem obter grandes melhoras desde que igualem seu empenho, paixão e disciplina. Deverão portanto imitar SuperPippo, que aos 36 anos se diverte, marca e sonha como quando era um garoto”.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo