Itália

Um Milan novo… e modesto

Na próxima segunda-feira, pela primeira vez desde 2001, o Milan se apresentará para uma pré-temporada sem Carlo Ancelotti no comando. Em seu lugar, estará Leonardo Nascimento de Araújo, 39 anos, ex-jogador dos rossoneri e da seleção brasileira. Leonardo conhece o clube como poucos, por sua experiência como atleta e sobretudo como dirigente nos últimos anos, exercendo diversas funções. Como será seu estilo à frente do elenco, no entanto, ainda é algo que precisaremos descobrir. O que já se sabe é que Leonardo terá de mostrar habilidade para lidar com um time que perdeu, de uma tacada só, um capitão histórico (Maldini) e seu principal jogador (Kaká).

A favor de Leonardo, contam as expectativas redimensionadas. No ano passado, fora da Liga dos Campeões, o clube estabeleceu como prioridade absoluta a conquista da Serie A – baseado na contratação de grandes nomes, como Ronaldinho e Shevchenko, que não deveriam ser exatamente as prioridades da equipe dentro das quatro linhas. Com um elenco desequilibrado, o scudetto não passou de sonho, e ainda por cima a Copa Uefa se perdeu entre a desconcentração e a falta de empenho da equipe.

Desta vez, a direção milanista age de maneira diferente. Pelo menos no discurso externo, a meta para o campeonato é apenas terminar entre os três primeiros colocados, e na Liga dos Campeões “chegar o mais longe possível”.

A ação no mercado também mudou – e não poderia ser diferente, já que a justificativa usada para a venda de Kaká foi a necessidade de equilibrar as contas do clube. Investimentos altíssimos em nomes de peso são descartados dentro dessa realidade. Prova disso é o fato de Edin Dzeko, bósnio do Wolfsburg, ter se tornado objetivo primário para a vaga de centroavante. Luís Fabiano, do Sevilla, e Adebayor, do Arsenal, também são citados, mas seriam consideravelmente mais caros. Seria surpresa caso um dos dois fosse liberado por menos de € 30 milhões.

O recado transmitido a Leonardo é o de trabalhar com o que tem à disposição, e tirar o máximo dos jovens. Não por acaso, farão parte da pré-temporada dois atacantes recém-contratados: Gianmarco Zigoni, 18 anos, ex-Treviso, e Giacomo Beretta, 17, ex-Albinoleffe, ambos com passagem pelas seleções de base. Também vão integrar o grupo, pelo menos para a preparação, o defensor Michelangelo Albertazzi (18), o volante Strasser (19) e o meia Ikande (18).

Taticamente, o Milan deve ter algumas mudanças em relação ao que vinha sendo feito por Ancelotti. Em vez do 4-3-2-1, Leonardo aposta no 4-3-3, com dois jogadores abertos (provavelmente Ronaldinho e Pato) em apoio a um homem de área – daí a importância de um nome novo para a função, já que Borriello não oferece garantias físicas e Inzaghi não pode jogar desde o início toda semana.

É neste esquema que o brasileiro espera recuperar Ronaldinho, atuando pela esquerda, como fazia no Barcelona. Acreditar na volta da melhor condição atlética do gaúcho, pelo menos por enquanto, parece uma ilusão. Portanto, a solução seria limitá-lo a uma faixa menor de campo e esperar que ele possa, dali, colocar seu talento a serviço da equipe. O fato de ele começar a pré-temporada em igualdade de condições com o restante do elenco, o que não aconteceu no ano passado por causa das negociações com o Barcelona e da participação nas Olimpíadas, pode ser razão para algum otimismo. Só o que não se pode fazer é esperar que o time seja construído em torno de Ronaldinho como era em torno de Kaká.

Fã do jogo pelos lados do campo, Leonardo deve apostar muito no apoio dos laterais, cobertos por um meio-campo mais recuado e próximo da defesa. Já cogitando a possível venda de Pirlo, ele deve ter em mente Seedorf como um dos três meio-campistas – até porque a função que o holandês exercia antes deixará de existir na equipe.

Por essa filosofia de jogo, a contratação do franco-senegalês Cissokho, do Porto, teria sido interessante para o clube. No entanto, o jogador foi reprovado nos exames médicos e a negociação está suspensa, pelo menos por enquanto. Resta saber se o Milan vai mesmo de Zambrotta e Jankulovski, que não foram convincentes na última temporada, e se dará espaço a Oddo, que volta do empréstimo ao Bayern de Munique. O mais provável é que Antonini, aproveitado em algumas ocasiões por Ancelotti, ganhe mais espaço.

Na zaga, a titularidade de Thiago Silva é uma certeza. Caso Nesta esteja plenamente recuperado do problema nas costas, será uma dupla de respeito. Do contrário, é preciso pensar em opções.

Fala Sacchi

Mudanças de rumo sempre causam incerteza e incógnita, mas em certos momentos são necessárias para interromper um caminho que não leva a lugar nenhum. Esta coluna, não pela primeira vez, recorre a palavras de Arrigo Sacchi, que de sucesso e de Milan conhece bastante, em sua coluna semanal na Gazzetta dello Sport.

“Os torcedores do Milan se deixaram levar pela depressão pela saída de Kaká e por um planejamento baseado em jogadores menos glamourosos. Os rossoneri deveriam, ao contrário, ter se alarmado no passado pela contratação de vários jogadores decadentes, com salários astronômicos, e elencos superabundantes com uma média de idade muito alta. Berlusconi e Galliani são grandes dirigentes, que nos últimos tempos, porém, traíram o próprio espírito inovador. Agora, como pessoas inteligentes, mudaram de rumo e confio muito em suas capacidades e intuições. Estou certo de que o novo Milan não decepcionará. Dzeko ou Adebayor são bons investimentos técnicos, e complementariam um projeto técnico coerente. Thiago Silva parece um jovem interessantíssimo. Se sair Pirlo, deverá ser substituído por um meio-campista que tenha tempo de jogo e a capacidade de ler bem a partida”.

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Equipe Trivela

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