Itália

Todos contra todos

“De costas para um time sem culhões”, dizia uma das faixas da torcida da Juventus na derrota por 2 a 1 para o fraco Catania. A atitude do público na fria tarde de domingo no Olímpico de Turim mostrava o fim da paciência com a involução da equipe na temporada, culminando com a quinta derrota nos últimos seis jogos oficiais. Antes da partida, os jogadores já haviam sido recebidos com ovos podres.

Dentro de campo, a Juve foi o mesmo time desencontrado das partidas anteriores. Sem confiança, sem qualquer comunicação entre os setores, com jogadores tentando, em vão, decidir sozinhos. Ameaçado de rebaixamento – e ainda desfalcado de Mascara, seu principal jogador –, o Catania explorou com incrível facilidade as deficiências dos bianconeri. Talvez o empate fosse o resultado mais justo pelo que foi a partida, mas o desequilíbrio da Juve no fim da partida permitiu o contra-ataque mortal que definiu o placar.

Ferrara tem dificuldades dentro e fora das quatro linhas. Suas alterações raramente mudam o rumo dos jogos, e a relação com o núcleo brasileiro parece cada vez mais deteriorada. Primeiro, tirou Felipe Melo do time por causa das más atuações. No domingo, apostou novamente no ex-Fiorentina, para então tirá-lo de campo com meia hora de jogo, expondo assim o jogador às vaias da torcida. Sem falar na dificuldade em encaixar Diego em uma função que lhe permita render ao máximo – uma culpa dividida meio a meio, já que o camisa 28 também tem se omitido bastante nos últimos jogos. Para fechar o problema verde-amarelo, Amauri não é nem de longe o goleador respeitado que havia se tornado.

A primeira vitória do Catania sobre a Vecchia Signora no Piemonte desde 1963, quando Ciro Ferrara nem era nascido, acabou ainda com tréguas importantes, como a que a torcida havia dado a Fabio Cannavaro desde seu retorno ao clube.

Era de se imaginar que o capitão da seleção italiana seria um dos alvos de contestação quando as coisas começaram a dar errado, já que ele ainda é marcado por ter saído quando o clube caiu para a Serie B em virtude do escândalo que explodiu em 2006. O curioso é que a torcida, que gritou nomes de ídolos recentes como Pavel Nedved para provocar o time, também exaltou Luciano Moggi, dirigente que foi principal responsável pela derrocada juventina ao ser o pivô do Calciocaos.

Se sentem tantas saudades assim do período que manchou a história do clube, os mesmos torcedores podem comemorar o provável retorno de Roberto Bettega, ex-jogador que ocupou o cargo de vice-presidente no período em que Moggi ditava as regras, completando a “tríade” com o administrador Antonio Giraudo. A queda de Ferrara está descartada pelo menos até o fim da breve pausa de inverno.

Único do trio a sair impune do processo, Bettega ainda é muito despeitado no ambiente juventino, e sua presença no vestiário é vista como importante para compreender o que está quebrado na relação entre Ferrara e o elenco. Há também outra possível interpretação: Bettega já iniciaria o processo de transição para o retorno de Marcello Lippi, que foi levado ao clube justamente por ele em 1994, dando início a uma era vitoriosa. Lippi nega, mas os indícios não deixam de existir. O treinador da Azzurra continua influente na Juve, e admite que foi consultado sobre a contratação de Ferrara.

Caso se confirme o retorno de Bettega, será um sinal claro de que o presidente Jean-Claude Blanc está insatisfeito com o trabalho de Alessio Secco como diretor esportivo. As contratações que deveriam tornar o time mais forte (Felipe Melo, Diego, Cannavaro e Grosso) não deram o efeito esperado, e neste momento a Juventus se encontra em posição pior do que no ano passado, quando tinha um time inferior no papel ao atual.

A Juventus da temporada passada, com Claudio Ranieri, tinha 36 pontos após 17 rodadas, contra 30 do campeonato em curso. Havia marcado os mesmos 30 gols, mas sofrido 13, oito a menos que o time atual. E na Liga dos Campeões se classificou de forma invicta para as oitavas de final, vencendo por duas vezes o Real Madrid, enquanto os comandados de Ferrara foram eliminados na fase de grupos com uma goleada em casa para o Bayern de Munique.

Ranieri disse, com certa razão, que na mesma situação de Ferrara talvez já tivesse sido demitido. É inegável que, sob o comando do último treinador, o time evoluiu gradativamente, classificando-se para a LC nas duas temporadas após retornar da segunda divisão. O passo seguinte seria conquistar o título ou pelo menos se aproximar dele, mas a aposta no novato ex-defensor do clube se mostrou um tiro n’água até o momento.

Na comparação entre o atual trabalho de Ferrara e o de Ranieri na Roma, que assumiu entre a segunda e a terceira rodada, a superioridade também é do treinador romano. A Juventus tem 30 pontos em 17 rodadas, aproveitamento de 58,8 por cento, enquanto Ranieri levou a Roma a somar 28 pontos em 15 jogos (62,2%). Os giallorossi já ocupam a quarta posição, e se mantiverem o ritmo não devem demorar a tirar a Juve do terceiro lugar.

Como se não bastasse o péssimo momento do time, a torcida ainda é capaz de cenas condenáveis como as novas manifestações racistas em referência a Mario Balotelli, da Internazionale. Cantos como “Se você saltar, morre Balotelli” e “Não existe um negro italiano” foram ouvidos repetidamente, não apenas pela ignorância do preconceito, mas possivelmente também para causar uma punição à direção bianconera. Ficou barato – apenas multa de € 10 mil – mostrando que a Itália continua fugindo do problema.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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