Itália

The stressed one

José Mourinho não deve ter lembranças muito agradáveis de Bérgamo. Na temporada passada, a Internazionale viveu lá um de seus momentos mais difíceis da campanha, quando perdeu para a Atalanta por 3 a 1, com uma atuação pífia. Naquele dia 18 de janeiro, o treinador esbravejou com os jogadores no intervalo, em discurso que causaria polêmica ao vazar na imprensa (“Vocês ganharam um título no tapetão, um contra ninguém e outro no último minuto”).

Na volta à cidade, no último domingo, Mourinho voltou às manchetes pelo motivo errado. Nem tanto pelo resultado de 1 a 1, que acabou não sendo nocivo à equipe por causa das derrotas de Milan e Juventus na rodada, mas pelo que se seguiu à partida.

O técnico português estava suspenso para a partida e já estava aguardando no ônibus enquanto alguns jogadores davam declarações ao Inter Channel, canal oficial do clube. O jornalista Andrea Ramazzotti, do Corriere dello Sport, estava no local para colher as falas dos atletas, autorizado pela Inter e acompanhado pela assessoria de imprensa da Atalanta.

Mostrando-se incomodado com a situação (supostamente por causa de artigos de Ramazzotti e do Corriere que teriam lhe desagradado), Mourinho desceu do ônibus e saiu gritando palavrões para o jornalista, que respondeu calmamente que nunca havia ofendido o treinador. A reação de Mourinho foi ainda mais desproporcional, agarrando o repórter pelo braço e o “convidando” a se retirar do local. A confusão se estabeleceu, e foi necessária a intervenção de funcionários do clube para restabelecer a calma.

A cena foi o episódio mais grave das difíceis relações entre Mourinho e a imprensa italiana. O técnico já manifestou por várias vezes seu enfado com a necessidade de falar sempre aos jornalistas, sobretudo depois dos jogos, quando tem de participar das inúmeras transmissões ao vivo das televisões locais. Chegou a declarar que só conversa com a imprensa por ter obrigações contratuais.

O que aconteceu em Bérgamo, no entanto, ultrapassa os limites do bom senso. E dá a impressão de que Mourinho está interessado em criar uma situação que favoreça sua saída no fim da temporada. Ele não esconde sua preferência pelo futebol inglês, e nem seu desejo de retornar. A provável saída de Rafael Benítez do Liverpool em junho (a julgar pelo andamento da temporada dos Reds) abriria uma vaga importante e que provavelmente interessaria ao português.

A Inter deve ser campeã da Serie A novamente, mas Massimo Moratti não paga € 12 milhões por temporada a Mourinho para conquistar o mesmo que seu antecessor, Roberto Mancini, que recebia metade. Ele foi contratado para conquistar a Liga dos Campeões, e depois de terminar a primeira fase em segundo lugar no grupo, como na última temporada, o caminho para isso deve se mostrar difícil.

No sorteio da próxima sexta-feira, podem calhar adversários como Manchester United, Chelsea, Arsenal ou Real Madrid. Com um pouco mais de sorte, Bordeaux ou Sevilla. De qualquer maneira, considerando a dificuldade que o time tem enfrentado com os grandes da Europa, não é difícil projetar uma eliminação nas oitavas de final.

A prova maior de que não há lua de mel entre Mourinho e Moratti, aliás, veio justamente depois da derrota por 2 a 0 para o Barcelona no Camp Nou, quando os nerazzurri foram amplamente dominados, como se os catalães enfrentassem um time pequeno. Na ocasião, o treinador considerou o fato natural, afirmando que o Barça é muito superior, mas o presidente falou publicamente sobre sua insatisfação, lembrando que os atuais campeões europeus jogavam desfalcados de Messi e Ibrahimovic, e que nessas condições o time da Inter deveria ter um desempenho no mínimo satisfatório.

Até mesmo o auxiliar de Mourinho, Giuseppe Baresi, foi contestado em público pelo dirigente. Baresi criticou a arbitragem pela expulsão de Sneijder com o segundo cartão amarelo diante da Atalanta, mas Moratti atribuiu o fato a uma “ingenuidade do jogador”.

Após a manifestação de repúdio da união da imprensa esportiva italiana (Ussi) à atitude de Mourinho, a Inter fez um pedido formal de desculpas. E ainda, segundo os jornais locais, Ramazzotti recebeu uma ligação de Moratti reforçando o pedido.

Ambos sabem que episódios do tipo não mancham apenas a imagem de Mourinho, mas também da instituição, feita por nomes históricos como o falecido ex-capitão e presidente Giacinto Facchetti, que certamente repudiaria da maneira mais veemente uma atitude tão indigna como a do português. Que, por sua vez, dá mostras de que sua motivação para buscar uma melhora clara da equipe fica mais minguada a cada dia.

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Equipe Trivela

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