Tá Ferrara

Anderson Miguel da Silva, o Nenê, jogava nas categorias de base do Santos quando Diego Ribas da Cunha despontava para o estrelato no time profissional. Diego foi campeão brasileiro em 2002, chegou à Seleção Brasileira e desde 2004 atua no futebol europeu. Teve uma passagem sem brilho pelo Porto, mas se redimiu no Werder Bremen, onde se tornou o dono do time e um dos principais jogadores da Bundesliga. Quando chegou à Juventus, este ano, por € 25 milhões, já tinha status de ídolo, e suas primeiras atuações levaram a empolgadas comparações com craques do passado bianconero, como Platini e Zidane.
Nenê, por sua vez, nunca chegou ao profissional do Santos. Seu início de carreira foi mais acidentado, com passagens por clubes do interior antes de chegar ao Santa Cruz, em 2006. Agradou no clube pernambucano e se transferiu em 2007 para o Cruzeiro, mas não deixou saudades em Belo Horizonte. Ainda teve uma passagem pelo Ipatinga antes de chegar à Europa – como Diego, também via Portugal. Mas enquanto um teve as portas abertas pelo atual campeão europeu, o outro foi jogar no Nacional da Ilha da Madeira, reconhecido por inflar seu elenco com brasileiros. Na terra de Cristiano Ronaldo, Nenê explodiu e foi artilheiro do Campeonato Português, motivando o Cagliari a pagar € 4,5 milhões por sua contratação.
A curiosidade do destino está no fato de outro Nenê ter marcado época no Cagliari. E também de passado santista. Claudio Olinto de Carvalho, integrante do time bicampeão continental em 1962 e 1963, chegou à Sardenha em 1964, após disputar uma temporada na Juventus. Ficou por doze anos no Cagliari, fazendo parte inclusive do time campeão em 1970, e até hoje é o recordista de partidas de Serie A pelo clube.
No último domingo, os caminhos de Nenê e Diego se cruzaram. E quem brilhou foi o brasileiro menos ilustre. Nenê acertou uma bomba de longa distância que não deu chances a ninguém menos que Gianluigi Buffon, no ângulo esquerdo. Com seis gols na competição, ele tem a melhor média considerando minutos em campo – média de um gol a cada 74 minutos. O mais próximo é Francesco Totti, que marcou 9 vezes, com média de um gol a cada 90 minutos. O Cagliari ainda marcaria o segundo gol com Matri, já no fim da partida, selando uma merecida vitória sobre a Juventus.
Diego? Como nas últimas partidas, esteve apagado. Desta vez, com o atenuante de ter sido escalado fora de posição, diante da emergência vivida por Ciro Ferrara, que contava apenas com Amauri em boas condições para começar no ataque. Com dificuldades, já que deveria receber a bola, mas o time não conseguia fazê-la chegar, o meia teve mais uma atuação abaixo das expectativas, como toda a equipe. Que jogou tão mal que não pode se permitir reclamar de um pênalti não marcado sobre Amauri.
O revés do Sant’Elia foi o segundo em uma semana difícil para a Vecchia Signora, que esteve no olho do furacão por causa das novas manifestações racistas dirigidas por seus torcedores ao interista Balotelli. Mais uma vez, a Juve escapou apenas com uma multa. Dentro de campo, derrota por 2 a 0 para o Bordeaux, no jogo que poderia garantir a passagem antecipada da equipe às oitavas de final da Liga dos Campeões.
O time que deveria brigar com a Inter pelo título – e era dado por muito como favorito – agora é o terceiro colocado, atrás de um Milan que tem um treinador igualmente inexperiente, mas fez um mercado muito inferior na pré-temporada. A desvantagem de oito pontos é pesada, e só uma reação imediata pode impedir que o time passe o Natal já fora da disputa pelo scudetto. Isso se houver disputa, tamanha a facilidade com que os nerazzurri caminham para o quinto título consecutivo.
Ferrara, pressionado, prefere absolver o time e culpar a arbitragem, aludindo ao fato de não ser marcado um pênalti a favor há sete meses. A verdade, no entanto, é que seu trabalho deixa a desejar, a pressão cresce – houve protestos no desembarque da equipe no domingo – e os dois próximos jogos (Inter, pela Serie A, e Bayern, pela Liga dos Campeões) podem ser decisivos para sua continuidade.
Em caso de derrota em casa para a Inter, a diferença subirá para onze pontos, matando qualquer possibilidade do 28º scudetto (ou do 30º, como prefere dizer o clube, ignorando as punições do Calciocaos). Na LC, também jogando no Olímpico de Turim, a Juve precisará pelo menos empatar com o Bayern para evitar a eliminação prematura.
Fracassar em um dos dois jogos deixaria Ferrara em situação delicada. Fracassar em ambos seria praticamente assinar sua demissão. Curiosamente, pouco depois de Roberto Mancini assinar sua rescisão na Inter e ficar livre para assumir outro clube. Mas há quem fale ainda em Guus Hiddink, que poderia deixar a seleção russa após falhar nas Eliminatórias da Copa de 2010.
O ex-defensor juventino não conseguiu encontrar um esquema de jogo que fizesse o time render seu melhor, mostrando falta de versatilidade tática. E faltou jogo de cintura para se virar com as lesões. A perda de Marchisio por lesão desmontou o meio-campo, e as ausências de Trezeguet e Iaquinta, somadas aos problemas físicos de Del Piero, criaram dificuldades no ataque. Sem falar que é evidente o fato de Cannavaro não ter mais as condições físicas de outros tempos.
Se Diego não brilha como esperado, pior ainda vai Felipe Melo, que nem relacionado foi para o jogo de Cagliari. O volante da Seleção Brasileira se mostra nervoso e excessivamente propenso a erros quando é escalado, tornando-se mais uma vulnerabilidade do que um ponto positivo para a equipe.
O presidente Jean-Claude Blanc já foi a público defender o trabalho de Ferrara e negar que ele esteja a perigo. Algo que, quem acompanha futebol sabe, significa justamente o contrário. O técnico tem razões para se sentir ameaçado. Se sua demissão seria justa é outra discussão. Se ele era considerado o homem certo no início da temporada, deveria ter pelo menos o campeonato inteiro para justificar a confiança da diretoria.



