Itália

SuperMario, sim ou não?

Mario Balotelli é um daqueles jogadores que não permitem indiferença do público. As opiniões sobre o jovem atacante da Internazionale se dividem a cada vez que seu nome ganha as manchetes. Não é por acaso. Aos 19 anos, ele é capaz de mesclar atuações brilhantes, dignas de jogadores consagrados, e atitudes imaturas como as de um adolescente.

Na última semana, Balotelli foi novamente centro das atenções. Entrou no segundo tempo contra o Chelsea, pela Liga dos Campeões, e colocou fogo na partida. No domingo, diante da Udinese, pela Serie A, partiu como titular e foi decisivo. Com o time em desvantagem logo de cara, chamou a responsabilidade. Marcou um belo gol de fora da área para empatar o jogo, e mais tarde, depois de Maicon decretar a virada, faria o cruzamento preciso para Milito ampliar a diferença.

Em ano de Copa do Mundo, a questão é inevitável: não valeria a pena o técnico Marcello Lippi dar uma oportunidade ao garoto? Em termos de talento, não há o que discutir. Balotelli tem explosão, faro de gol, abre espaços, atua em qualquer posição do ataque. Pode ser o centroavante ou jogar pelos lados em um ataque com três homens ou no 4-2-3-1. Hoje, não é exagero dizer que está em um nível semelhante ao de Pato, outro jovem de primeira linha.

A imprensa italiana defende, com razão, o argumento de que a seleção que Lippi pretende levar ao Mundial carece de imprevisibilidade. Daquele jogador que recebe a bola e faz o inesperado – cria espaços com um drible, dá um passe surpreendente. A exceção seria Totti, mas o retorno do romanista, que novamente está fora por lesão, é uma incógnita por causa de suas condições físicas.

Levantar o nome de Balotelli, porém, requer sempre uma ponderação sobre seu caráter. É opinião de muitos, inclusive deste colunista, que o camisa 45 da Inter só atingirá seu inteiro potencial como jogador quando colocar a cabeça no lugar. Isso inclui aprender a ignorar provocações e dedicar-se integralmente aos treinamentos.

Polêmicas como o fato de ser milanista declarado – e até ter ido a San Siro para assistir a Milan x Manchester United pela Liga dos Campeões – tendem a ser esquecidas caso ele siga fazendo gols e sendo importante para a Inter. Como, aliás, foi em determinados momentos nas duas últimas campanhas de títulos da Serie A.

O técnico de Gana, Milovan Rajevac, chegou a viajar para a Itália a fim de convencer Balotelli a defender a nação de seus pais biológicos na Copa do Mundo, mas ouviu um seco “não” como resposta. Irritado, Rajevac respondeu que o atacante poderia tirar seu cavalinho da chuva caso achasse que ao esnobar o país africano conquistaria a confiança de Lippi.

O discurso do técnico da Azzurra, reiterado no início desta semana, leva a crer que o clamor por Balotelli não renderá frutos. Considera-o um jogador que pode ser útil no futuro, mas que por agora tem de amadurecer na Inter e na seleção sub-21 – pela qual ainda não conseguiu brilhar.

O argumento do caráter também foi colocado em pauta quando Antonio Cassano vivia fase excelente na Sampdoria e tinha sua convocação quase exigida pelo público. Neste caso, Lippi riu por último: Cassano caiu de rendimento, foi afastado no clube e hoje é carta fora do baralho.

Em Appiano Gentile, José Mourinho parece convencido de que a maneira ideal de tirar o máximo de Balotelli é provocar sua raiva, para que ela se transforme em motivação dentro de campo. Foi assim quando apresentou o volante Mariga, há um mês, e disse que o queniano só não aprenderia ao treinar com companheiros mais experientes se tivesse “apenas um neurônio”, em uma provocação explícita ao atacante. Um exagero – mas o português percebeu que ele cresce sob pressão.

Os insultos recebidos por SuperMario em vários estádios italianos, em especial pela torcida da Juventus, são motivados em grande parte pela antipatia que desperta, mas não se pode dissociá-los de um latente racismo. Como se não pudesse, para os ignorantes, existir um italiano negro.

Levá-lo ao Mundial, nesse sentido, seria uma mensagem importante. Se fosse só por isso, não se justificaria. Mas a verdade é que ele tem jogado muito.

O gol na partida contra a Udinese foi o sétimo de Balotelli nesta temporada da Serie A – apenas um a menos que o badalado Eto’o. No entanto, o camaronês já disputou 1659 minutos no campeonato, enquanto Balotelli jogou 1088. Média de um gol a cada 207 minutos para o primeiro, um a cada 155 para o segundo. Só Milito, com 15 gols em 2070 minutos e média de um a cada 138, fez melhor entre os atacantes nerazzurri.

Apesar de controverso, Balotelli não tem histórico de problemas dentro de um grupo. É querido pelos companheiros, que têm liberdade para aconselhá-lo e orientá-lo. No entanto, Lippi não parece ter a mesma disposição de Mourinho para domar seu temperamento explosivo.

De qualquer maneira, fica a dúvida: durante um jogo de Copa do Mundo, necessitando de algo diferente para mudar o panorama, você gostaria de contar com um Pepe, um Quagliarella ou um Balotelli? A resposta parece óbvia.

Três zagueiros

No amistoso desta quarta-feira contra Camarões, em Mônaco, Lippi observará um esquema com três zagueiros. O desejo era convencer Alessandro Nesta a retornar, por causa de sua grande temporada com o Milan, mas o defensor campeão do mundo entre 2006 fechou as portas.

Assim, quem ganha uma oportunidade é o jovem Leonardo Bonucci, do Bari, que formará o trio com Cannavaro e Chiellini. Uma boa atuação poderia colocar Bonucci na briga por uma vaga no Mundial. Seu adversário direto é o milanista Bonera, que leva vantagem por também atuar como lateral-direito.

A formação no 3-4-3 pode exaltar os alas Maggio, do Napoli, e Criscito, do Genoa, que em seus clubes também atuam em esquemas com três zagueiros.

A ausência de Grosso, atualmente na reserva da Juventus, é um sinal importante. Resta saber se é definitiva, ou se o técnico levará o lateral-esquerdo fazendo jus à sua decantada lealdade pelos heróis de 2006.

A faixa central do meio-campo será ocupada por De Rossi e Pirlo – nenhuma surpresa aí. Mas na convocação faz falta o nome de Ambrosini, um dos melhores meio-campistas do campeonato. Melhor inclusive que Gattuso, que mantém a confiança do treinador.

Andrea Cossu, do Cagliari, é outra novidade da convocação. E deve estrear já como titular, formando a linha de frente com Di Natale, artilheiro da Serie A, e Borriello, que vai bem no Milan. Na ausência de Gilardino, lesionado, o rossonero tem chances de ganhar espaço na corrida por ser o reserva imediato. A briga direta é com o sampdoriano Pazzini.

Toni, ainda lesionado na Roma, terá pouco tempo para reconquistar a confiança de Lippi. Nesta semana, Amauri receberá o passaporte italiano e será enfim considerado pelo treinador. No entanto, a temporada do jogador da Juventus não é a que se espera de um jogador que corre para ir ao Mundial.

A titularidade de Marchetti na ausência de Buffon mostra que será ele o “número 2” para o treinador durante o Mundial, com De Sanctis ficando como terceiro goleiro. A convocação do jovem Sirigu, do Palermo, premia seu ótimo campeonato.

Confira os convocados:

Goleiros: Morgan De Sanctis (Napoli), Federico Marchetti (Cagliari), Salvatore Sirigu (Palermo);

Defensores: Daniele Bonera (Milan), Leonardo Bonucci (Bari), Nicola Legrottaglie (Juventus), Fabio Cannavaro (Juventus), Giorgio Chiellini (Juventus), Mattia Cassani (Palermo), Christian Maggio (Napoli), Domenico Criscito (Genoa);

Meio-campistas: Simone Pepe (Udinese), Riccardo Montolivo (Fiorentina), Angelo Palombo (Sampdoria), Andrea Pirlo (Milan), Claudio Marchisio (Juventus), Daniele De Rossi (Roma), Gennaro Gattuso (Milan), Andrea Cossu (Cagliari);

Atacantes: Marco Borriello (Milan), Antonio Di Natale (Udinese), Giampaolo Pazzini (Sampdoria), Fabio Quagliarella (Napoli).

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo