Itália

Special Inter

A zaga da Internazionale afasta o lance de perigo e manda a bola para a intermediária defensiva. Em apenas seis toques, com alta velocidade, ela já cruzou o campo e está nos pés de Maicon. Livre, o lateral brasileiro dispara uma bomba no ângulo direito, sem chance de defesa para o goleiro Sereni. É o segundo gol da Inter em três minutos, golpeando as esperanças do Torino de escapar da derrota em casa. Acima de tudo, o lance é emblemático porque mostra algumas das principais qualidades do time dirigido por José Mourinho.

A vitória por 3 a 1 no Olímpico de Turim foi a segunda exibição impressionante dos ‘nerazzurri’ em menos de uma semana. Antes, nos 2 a 0 sobre o Panathinaikos em Atenas, pela Liga dos Campeões, a Inter já havia mostrado que o treinador português foi capaz de imprimir rapidamente seu estilo de jogo e, sobretudo, sua filosofia de trabalho. É um time capaz de alcançar todos os objetivos a que se propôs nesta temporada.

No domingo, por pouco menos de uma hora – tempo que bastou para construir a vantagem de 3 a 0 –, a Inter cumpriu à risca as orientações do “Special One”. Jogou com um ritmo asfixiante, adiantou a defesa, pressionou o meio-campo adversário até recuperar a posse de bola, criou e converteu oportunidades nos contra-ataques. É a capacidade de seguir esta cartilha independente do esquema de jogo, que já variou do 4-3-3 ao 4-4-2 ou 4-2-3-1, que faz do time irresistível. Além, é claro, das numerosas opções no elenco à disposição de Mourinho.

À exceção de Ibrahimovic – que vem jogando um futebol que lhe credencia para a Bola de Ouro, se não este ano, no próximo – e de Júlio César, que evitou um final dramático quando o Torino reagiu nos 15 minutos finais, a Inter não tem jogadores insubstituíveis no time titular. Todos podem sair e dar lugar a “reservas”, assim mesmo, entre aspas, capazes de manter o nível.

O que parece evidente, no entanto, é que Mourinho não foi contratado apenas por sua habilidade tática. Neste aspecto, ele é bom como são tantos outros, e sobretudo na Itália não faltam técnicos que conheçam do assunto. O português se diferencia dos colegas pela sua personalidade, por uma confiança que irrita os adversários e contagia seus comandados.

Mourinho aproveitou os primeiros meses na Itália para conhecer também o funcionamento da imprensa. Joga bem com os holofotes. Seria um pouco de exagero dizer que todos os seus gestos são calculados, mas o ‘high-five’ (ou 'toca aqui') com Ibrahimovic em Atenas e o ‘bravo, bravo, bravo’ dito na saída de Adriano em Turim são imagens que ajudam a reforçar o carisma do treinador.

A relação com Adriano, aliás, é uma das vitórias parciais do ex-Chelsea, que tem sido capaz de manter o brasileiro motivado e consciente da importância do grupo. Após deixar o campo no domingo, ele cumprimentou a todos no banco de reservas, um a um – algo que dificilmente fazia na administração de Roberto Mancini, com quem notadamente não tinha um bom relacionamento.

Um episódio claro do jogo de Mourinho com a mídia se verificou após o fim dos jogos da tarde de domingo, quando a Sky italiana apresenta seu programa com os gols da rodada e os comentários dos técnicos. Claudio Ranieri, da Juventus, com quem o treinador da Inter trocou farpas antes da temporada, chegou primeiro aos microfones para comentar a vitória por 1 a 0 sobre o Cagliari.

Em vez de dividir a tela com o colega, Mourinho ‘fugiu’. Deixou a posição da Sky e só retornou depois de alguns minutos, saindo-se com uma piada: “Estava com fome. Essa história de comer às 11 e meia não é para mim”.

Debater com Ranieri sobre as polêmicas do verão ou sobre uma suposta corrida a dois entre Inter e Juventus pelo título não interessava ao português, que considera cedo demais para este tipo de projeção. Mas não é cedo para notar que esta é uma Juve bem estruturada e que lembra em alguns aspectos os times vitoriosos de Lippi e Capello.

Juve de grão em grão

Faltavam Trezeguet, Grygera, Zebina, Poulsen, Zanetti, Camoranesi e Del Piero. No intervalo, Buffon saiu machucado. Ainda assim, a Juventus venceu o Cagliari por 1 a 0 e chegou a 7 pontos, mantendo-se ao lado da Inter e agora dividindo com os ‘nerazzurri’ a liderança, algo que não ocorria desde fevereiro de 2003.

A capacidade de arrancar vitórias em situações adversas é uma característica histórica da Vecchia Signora. No Sant’Elia, não foi diferente, graças a um ótimo Amauri, decisivo pelo segundo fim de semana consecutivo. Na temporada passada, se perdesse Trezeguet por lesão, a Juve teria sérios problemas. Agora, com o brasileiro prestes a se tornar italiano, pode tranqüilamente prescindir do francês, que só deve voltar em 2009.

O mesmo discurso vale para o gol. O austríaco Manninger, que jogou o segundo tempo, pode ser considerado responsável pelos três pontos, por causa das duas defesas que fez. Um reserva confiável para Buffon era uma deficiência da Juve nos últimos anos, e agora está corrigida.

Estas observações servem de elogios ao mercado da Juve, que cobriu posições carentes e deu a Ranieri condições de montar um time que pode se transformar em candidato ao título. Ainda falta ter mais fé no garoto Giovinco, sobretudo porque Nedved já não tem pernas para responder por toda a criatividade no elenco. Em alguns momentos, o time abusa de tentar ligações diretas dos volantes para o ataque.

De qualquer forma, a eficiência da Juventus neste início de temporada leva a crer que a disputa pelo título se dará no eixo Milão-Turim.

Acorda o Milan

Este eixo inclui também o Milan? Possivelmente, desde que não tenha sido fogo de palha a atuação da equipe ‘rossonera’ na goleada de 4 a 1 sobre a Lazio, domingo, em San Siro. Depois do começo com duas derrotas, pela primeira vez em mais de duas décadas, o Milan mostrou o que ainda não tinha mostrado nesta temporada: empenho e coletividade.

Evidentemente, contribuiu para isso o fato de Shevchenko e Ronaldinho, ambos fora de forma, terem sido relegados à reserva. Com Borriello e Pato, o Milan teve um ataque autêntico, com um homem de área e um segundo atacante. Borriello foi uma das figuras da partida, mesmo sem ter marcado. Além de atrair a defesa e abrir espaços para as investidas dos meias – ora Seedorf, ora Kaká –, ele ainda retornou para desarmar atacantes adversários, mostrando que será preciso muito para lhe tirar a posição de titular.

A defesa ainda requer cuidados, já que não há desculpa para ser surpreendido pelo artilheiro Zárate no lance que deu o empate à Lazio no primeiro tempo. Talvez por isso, e pela ausência de Pirlo, Gattuso tenha exercido uma função mais fixa à frente dos zagueiros enquanto permaneceu em campo.

Outra observação pertinente é o fato de a Lazio ter encarado o desafio de San Siro com o peito aberto. Depois de duas vitórias, os ‘biancocelesti’ de Delio Rossi não modificaram a forma de jogar, entrando em campo com um meia criativo (Mauri) e dois atacantes (Zárate e Pandev). É certo que o Milan não encontrará tantos espaços em outras oportunidades.

Na goleada de domingo, o Milan parece ter jogado pelo futuro de Carlo Ancelotti, em quem os jogadores parecem ter confiança irrestrita. O abraço de Seedorf no técnico ao deixar o campo ilustra a situação. Excluindo um inesperado tropeço contra a Reggina nesta quarta, o time vai para o dérbi de domingo contra a Inter em condições de recuperar terreno e se meter de vez na briga pela ponta. Resta saber qual será o espírito.

Parma, sinal amarelo

O Parma que goleou o Ancona por 4 a 1 no último dia 13, com ótima atuação da dupla Lucarelli-Paloschi, tinha cara de time que dominaria a Série B e caminharia para um retorno imediato e sem sustos à elite. Nos dois jogos seguintes, no entanto, o panorama foi bem diferente. Os ‘ducali’ perderam por 1 a 0 nas visitas a Albinoleffe e Grosseto, e depois de quatro rodadas ocupam uma modesta 13ª posição, com 4 pontos.

O Livorno, outro rebaixado na temporada passada, é outro que não consegue engrenar. Está invicto, mas empatou três vezes, a última delas no clássico toscano com o Pisa (1 a 1). Esperava-se mais da equipe ‘amaranto’, que tem em seu ataque um jogador de nível de Série A como Tavano.

Enquanto isso, ocupam a ponta da tabela Albinoleffe e Salernitana, ambos com 10 pontos. Com um orçamento modesto, o ‘Leffe’ ensaia uma repetição da campanha de 2007/8, quando só deixou escapar o acesso no play-off contra o Lecce. O bom começo da Salernitana, do veterano atacante Arturo Di Napoli, é surpresa, já que o time vem da terceira divisão.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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