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Voa, aviãozinho, voa

Em uma semana na qual o tema mais forte nos noticiários italianos é, mais uma vez, a arbitragem, a coluna prefere deixar de lado essa discussão modorrenta para falar do que interessa: bom futebol. E é isso que a Fiorentina, atual terceira colocada da Serie A, ao lado do Napoli, tem mostrado. A melancolia da última temporada foi deixada de lado após o início de trabalho de Vincenzo Montella, o grande responsável pela transformação da equipe de um time sem alma para o aquele que joga o melhor futebol na Itália hoje. Chamado de Aeroplanino (aviãozinho, em bom português) nos seus tempos de atleta, Montella está fazendo a Fiorentina voar muito antes do esperado.

Depois de 13 jogos, a campanha já está acima das expectativas. São 8 vitórias, 3 empates, 2 derrotas e 27 pontos, 11 a mais que no mesmo período da temporada anterior. Em 2011-12, a Fiorentina ultrapassou os 27 pontos apenas na 21ª rodada, em fevereiro deste ano. A equipe viola não perde há 7 jogos, e venceu os últimos 5 confrontos – retrospecto visto pela última vez há quase quatro anos, quando Cesare Prandelli era o treinador. A Fiorentina tem ainda a segunda melhor defesa do campeonato, atrás somente da líder Juventus, e o quarto melhor ataque, com 23 gols marcados.

Os planos de mudança da Fiorentina já eram vistos com bons olhos – inclusive pela coluna, que falou disso antes de a temporada começar, em agosto – e se imaginava um retorno a médio prazo, pelo menos. Saíram jogadores que já não rendiam muito, como Montolivo, Vargas, Gamberini e De Silvestri, e o elenco foi revolucionado, com uma mescla de jogadores jovens a outros mais experientes. Mas o principal passo, à frente inclusive da permanência de Jovetic, foi a chegada de Montella, depois de grande trabalho no Catania. Sob seu comando, a equipe siciliana, de elenco modestíssimo, lutou por vagas europeias até a reta final do campeonato, e atingiu seu recorde histórico de pontuação na elite do Campeonato Italiano.

Se esperava que Montella aplicasse a mesma filosofia de trabalho em Florença, mas também que a mudança radical no elenco fizesse com que o time demorasse a decolar e só ficasse pronto a partir da metade do campeonato. Porém, a assimilação dos jogadores foi praticamente instantânea e a Fiorentina só tem a evoluir. Afinal, quando jogadores que estavam em baixa há muito tempo, como Pasqual, Pizarro, Aquilani, Toni e mesmo Gonzalo Rodríguez (que não vinha bem no Villarreal), voltam a ser importantes para uma equipe, o cenário em perspectiva é o melhor possível.

O grande mérito de Montella para que os veteranos voltassem a atuar bem foi construir uma equipe absolutamente imprevisível. Jogando no 3-5-2, a Fiorentina preserva elementos daquele Catania, como a rápida transição entre defesa e ataque, ofensividade, muito apoio dos alas e, sobretudo, a valorização da posse de bola no campo de ataque. Contando com um material humano superior ao que tinha em mãos no último campeonato, Montella pode criar uma equipe fulminante, na qual praticamente não há focos de criação de jogadas. Equilibrada, a equipe de Florença pode criar perigo a partir de qualquer lugar dentro das quatro linhas.

Com a distribuição da responsabilidade, a Fiorentina pode se dar ao luxo de vencer partidas mesmo sem Jovetic, algo praticamente impensável em 2011-12. Foi o que aconteceu nos dois últimos fins de semana, nos quais os gigliatti venceram o Milan, por 3 a 1, e a Atalanta, por 4 a 1, quando o montenegrino esteve de fora, lesionado. Nestes jogos brilharam Aquilani (três gols e uma assistência) e Toni (um gol e uma assistência). É notável ver como Toni está rendendo ao máximo em sua segunda passagem pela Fiorentina, depois de experiências opacas por Roma, Genoa, Juventus e Al Nasr (Emirados Árabes Unidos). Aos 35 anos, com quatro gols no campeonato, está no caminho certo para se tornar o centroavante que a equipe florentina buscou no mercado de verão e achava não ter conseguido.

Outros jogadores muito importantes para o time de Montella são o ala colombiano Cuadrado e o meia espanhol Borja Valero. Cuadrado barrou o experiente Cassani e tem evoluído muito pela equipe do estádio Artemio Franchi, depois de um ano muito bom pelo Lecce. Impressiona sua grande interação com Jovetic e sua altíssima velocidade nas subidas ao ataque pelo lado direito. Além disso, sua grande presença ofensiva costuma tirar as atenções dos adversários sobre Pasqual, ala-esquerdo que, aos 30 anos, vive uma das melhores fases de sua carreira.

Por sua vez, Borja Valero está superando um tabu. Jogadores espanhois não costumam brilhar na Itália – vide os casos de Mendieta, Farinós e Javi Moreno, contratados a peso de ouro que fracassaram retumbantemente. O último jogador rojo a ter grande sucesso no Belpaese foi um mito do futebol: Luis Suárez, habilidoso meia da Grande Inter na década de 60. Cercado de desconfianças, Valero caiu como uma luva na equipe. Com louvor, divide com Pizarro a responsabilidade de manter a posse de bola no centro do campo e de dar qualidade às investidas da equipe. O espanhol é o cérebro do time: tem 805 passes certos no campeonato (cinco deles originaram gols) e só perde no quesito para Pirlo, melhor passador da Serie A, com 882 . Pizarro também vem bem e está entre os dez melhores do campeonato, com mais de 700 toques certos na bola.

A manutenção da posse de bola é a principal fórmula que a Fiorentina usa para se defender, assim como acontece com a seleção espanhola. A defesa tem sido pouco exigida e Viviano pouco apareceu até agora. O trio de zagueiros à sua frente também contribui para seu período de quase férias. Nas primeiras rodadas, Roncaglia se qualificou como um dos melhores defensores do futebol italiano. Nos últimos dias foi discreto e acabou ofuscado por Gonzalo Rodríguez, que cresceu muito. Além disso, o ex-jogador do Villarreal mostra grande presença de ataque: já deixou sua marca três vezes nas 13 primeiras rodadas.

Com tantos pontos positivos, já há quem cogite a Fiorentina como potencial concorrente ao scudetto. Para o torcedor, ter voltado a ser protagonista no futebol italiano e brigar por uma vaga na Liga dos Campeões já seria mais do que suficiente. O que dá para saber, certamente, é que o futuro desta Fiorentina dependerá muito da capacidade de Montella continuar a conduzir com maestria o aeroplano viola.

Pallonetto

– Inter e Napoli perderam gols demais e a chance de encostar na Juventus. Mas o assunto principal foi a arbitragem, que errou feio em três jogos (pênalti não dado para a Fiorentina, pênalti mal marcado para a Roma e pênalti não dado para a Inter). O presidente da Inter, Massimo Moratti, esbravejou contra a arbitragem e, em referência ao Calciopoli, mas sem citar a Juve, falou que “não queria viver de novo situações do passado”. Ofendida, a Juve publicou nota em seu site na qual trazia apenas um link para o processo final do caso, no qual a Inter não seria condenada por prescrição dos fatos.

– Depois de erros de arbitragem em três rodadas consecutivas, Inter adotou a “lei da mordaça”. Ninguém fala com a imprensa até segunda ordem. O técnico Andrea Stramaccioni acabou sendo expulso de campo depois de reclamar muito por pênalti não marcado contra o Cagliari.

– A Juventus não marcou gols em seu estádio pela primeira vez na temporada. Por outro lado, seis ex-jogadores da equipe deixaram o seu: Aquilani, Toni (ambos da Fiorentina), Almirón (Catania), Immobile (Genoa), Marchionni e Palladino (Parma).

– Adriano Galliani se mostrou claramente nervoso depois de um frango de Abbiati no empate por 2 a 2 do Milan contra o Napoli. Flagrado pelas câmeras enquanto xingava o goleiro, teve de se desculpar publicamente com o jogador no dia seguinte.

– O jogo entre Bologna e Palermo teve o recorde de expulsões na temporada europeias. Foram quatro, no total – três pelo Palermo. Além de perder por 3 a 0 contra o Bologna, o time rosanero terá os desfalques do goleiro Ujkani e dos zagueiros Labrín e Donati (meia improvisado por Gasperini na zaga) no clássico contra o Catania.

– Falando em dérbi, o de Gênova acabou mal para o Genoa. A Sampdoria venceu por 3 a 1, deixou para trás uma série de sete derrotas consecutivas e afundou o rival. Na lanterna, os genoanos já acumulam nove jogos sem vitórias e seis derrotas em sequência.

– Pallonetto, nome da nossa seção de rapidinhas, é a forma como os italianos chamam o gol por cobertura. Curiosamente, no empate por 2 a 2 entre Udinese e Parma, Di Natale e Palladino fizeram gols dessa forma.

– Seleção Trivela da 13ª rodada: Marchetti (Lazio); Konko (Lazio), Sorensen (Bologna), Rodríguez (Fiorentina), Morleo (Bologna); Nainggolan (Cagliari), Aquilani (Fiorentina), Poli (Sampdoria); El Shaarawy (Milan), Gilardino (Bologna), Sau (Cagliari). Técnico: Vincenzo Montella (Fiorentina).

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