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Urbano Cairo foi o grande nome da oposição à Superliga na Itália e será a principal voz contra Juve, Inter e Milan

Tentativa dos três clubes de entrar na Superliga, que desvalorizaria o Campeonato Italiano, criou uma oposição que não será facilmente superada dentro da liga

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O futebol europeu vive uma semana atribulada com a criação e a morte da Superliga. Três times italianos estavam envolvidos: a Juventus, de Andrea Agnelli, um dos idealizadores do movimento, além de Milan e Internazionale, fechando o trio dos maiores clubes do país. A Inter recuou e saiu; Milan e Juventus também deram passos atrás, embora sem admitir que abandonaram da iniciativa. Agora, os três clubes enfrentarão as consequências: uma forte oposição interna entre os outros clubes. O principal nome entre eles é Urbano Cairo, presidente do Torino e um poderoso empresário do país.

Andrea Agnelli é o principal nome afetado pelo fracasso da Superliga. A oposição a ele começa em casa. Isolado na Itália e na Europa, principal alvo de críticas de Aleksander Ceferin e visto como inimigo número 1 na Uefa, Agnelli precisa enfrentar desconfianças dentro do grupo Exor, dono da Juventus. Segundo a Gazzetta dello Sport desta quinta-feira, o futuro de Andrea está nas mãos de John Elkann, CEO do grupo Exor e seu primo. É o homem mais poderoso da família atualmente. Era o neto mais velho de Gianni Agnelli e era considerado por ele seu sucessor.

A diretoria da Exor irá se reunir no dia 27 de maio, que será o Dia D para saber o destino de Andrea Agnelli. A reunião de acionistas da empresa mostrará se o presidente da Juventus tem apoio o bastante para continuar no cargo. O papel de John Elkann é visto como fundamental e ele deve dar o voto de minerva para selar o destino do primo.

A capa da Gazzetta dello Sport de quinta-feira, 22/04/2021

A Calciopédia, sempre excelente em conteúdo (vale apoiar se você puder lá no Apoia.se), publicou um fio no Twitter que fala dessa relação de poder entre a família Agnelli e no embate com Urbano Cairo. Filho de um vendedor de móveis e de uma professora, trabalhou com Silvio Berlusconi no momento de ascensão dos ex-presidente do Milan, até que saiu em voo solo. Atualmente, é dono da emissora La 7 e também do grupo RCS, que é dono da Gazzetta dello Sport, Corriere della Sera, Marca e Sportweek, além de veículos menores. E curiosamente, a RCS já foi da Fiat.

Foi Cairo que se opôs mais fortemente à ideia de uma Superliga. Suas entrevistas nesta semana repercutiram muito, ainda mais porque ele está no ramo editorial. Os seus jornais, assim como boa parte dos grandes veículos europeus, trouxeram uma visão bastante negativa da Superliga. Suas palavras foram dura e inflamaram ainda mais a oposição ao projeto.

“A Superliga é um ataque ao interesse coletivo do futebol italiano”, afirmou Cairo ao Corriere della Sera. “Três clubes, Juve, Inter e Milan, aram exclusivamente sobre a sua saúde econômica. Eles não ficaram nem remotamente preocupados com as necessidades e as preocupações dos outros clubes”.

“Esses clubes estão regularmente pagando seus salários, que trabalham duro e planejam suas atividades com uma boa consciência. Eu não acho que esses 12 clubes, que bem poderiam estar destinados a se tornarem 15, sejam financeiramente virtuosos. Muito pelo contrário. O projeto que planejou trazer fundos e uma empresa de mídia na Lega Serie A estava baseado em € 1,7 bilhão ou € 1,8 bilhão, dinheiro que iria para todos”, continuou Cairo.

Andrea Agnelli é acusado por Cairo de ter sabotado o acordo que venderia 10% dos fundos da empresa de mídia formada para controlar os direitos de TV da Serie A para fundos de investimento privado por € 1,7 bilhão. “Parece que o projeto [Superliga] foi registrado no dia 10 de janeiro, então eu disse a ele durante a reunião: ‘como vocês podem vir aqui falar sobre solidariedade quando vocês sabotaram a negociação com os fundos, já sabendo que você estava fazendo a Superliga?”, afirmou o presidente do Torino. “Como você pode negociar pela operação [de venda ao fundo] quando você já estava trabalhando na Superliga? Mas como você faz isso? É uma traição”, disse Cairo em entrevista à agência ANSA.

“Agnelli era parte do comitê interno que estava negociando com os fundos e, além disso, tinha um papel importante nas negociações. O comitê de cinco pessoas, que foi criado em 13 de outubro de 2020, foi delegado para controlar as negociações em nome de todos os outros clubes”, explicou o dirigente ao Corriere della Sera. “Subitamente, em uma mudança de cenário, apesar do voto em assembleia que apoiava os fundos, Agnelli e os donos da Inter subidamente se distanciaram da ideia dos fundos. Agora nós sabemos por que”.

“É um ataque à saúde da liga. Se alguém como Beppe Marotta [CEO da Inter] faz algo assim, ele deve se demitir da FIGC imediatamente e deveria estar envergonhado. Você, como diretor da Inter, um clube que concordou em entrar na Superliga, você não pode representar a Serie A e a FIGC porque você está ameaçando a vida da associação”, afirmou Cairo. “O projeto não vai continuar, mas aqueles que conceberam isso estão atacando a liga e, por sua traição, eles deveriam se demitir e estar envergonhados”.

“Agora descobrimos que havia essas negociações entre os 12 clubes europeus, todos com dívidas pesadas, com reuniões secretas entre Agnelli e Florentino Pérez. Isso é uma competição injusta, isso é mentir, é má fé. Você está como delegado dos clubes da Serie A para renegociar em seu nome e ao mesmo tempo estão negociando em outra frente para resolver seus próprios problemas financeiros e prejudicando os clubes que lhe deram mandato?”

Beppe Marota, da Inter, também foi muito criticado por Cairo. “Ele é Conselheiro Federal, delegado para representar a Serie A. Ele tem que se demitir. Agnelli deixou a ECA. Eu espero que Marotta faça o mesmo na FIGC. O mesmo vale para o presidente do Milan, Paolo Scaroni, que ao menos com relação aos fundos da Lega Serie A, já que ele continuou a apoiá-lo. Ele também tem que renunciar ao seu papel de conselheiro da Lega. Eu admiro Scaloni, mas ele tem que dar um passo atrás”.

Cairo teve apoiadores, como o presidente da Sampdoria, Massimo Ferrero, que foi outra voz ativa nesta semana para criticar os exclusivistas da Superliga. “O futebol não existiria sem os torcedores. Nós temos que retomar o futebol. Se seguirmos pessoas de poder em uma viagem, não iremos a lugar algum. Como eles ousam?”, disse o presidente Massimo Ferrero, em entrevista à Radio Marte. “Eu sempre votei contra Agnelli, eu nunca o segui. O que ele fez em um momento tão delicado? Eu não tenho palavras para ele. Se eu disser o que eu penso, irão me censurar na rádio”.

Na segunda-feira, depois do anúncio da Superliga no domingo à noite, a Lega Serie A, que administra a Serie A, convocou uma reunião de emergência. Agnelli, presidente da Juventus, esteve presente. E teve a cara de pau de dizer que a Superliga não mudaria nada internamente e que o clube de Turim continuaria jogando normalmente.

Os dirigentes de outros clubes teriam respondido Agnelli que com o pagamento de € 30 milhões por ano garantido, o scudetto ficaria sempre entre Juventus, Milan e Inter. “Mas é assim há 80 anos, eu acho”, teria respondido Agnelli. É claro, a resposta causou fúria nos adversários.

“Eu disse a ele que ele é um gênio e que merecia aplaudo”, disse Ferrero. “Ele, Milan e Inter deveriam nem ter aparecido. Eles queriam ir por um caminho diferente. Por que eles foram à reunião?”.

“Eu espero que eles enfrentem sanções, eu não acho que eles podem escapar assim. Todos os italianos foram prejudicados. Nós podemos confiar em pessoas valiosas na FIGC [Federação Italiana de Futebol]. Eles sabem o que fazer. Eu estou chocado porque Andrea continua uma boa pessoa para mim. Eu não sei o que passou pela cabeça dele, ou por que ideias ele foi atraído”.

Como se vê, Cairo é um nome muito vocal e muito mais poderoso do que Andrea Agnelli e Beppe Marotta gostariam. Com a revolta de todos os outros clubes italianos, Cairo se torna uma liderança do resto, por assim dizer. Os três grandes italianos continuarão a ser assim, mas agora sabe que perderam todo o capital político que possuíam e terão que reconstruir relações internamente. Correndo sérios riscos de perderem terrenos em um momento que estão fragilizados. Se os três grandes achavam que sairiam mais fortes do episódio em uma liga exclusiva, o resultado pode ser ter que enfrentar uma mesa de negociações muito mais dura e com um dirigente com uma força ainda maior que antes como opositor.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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