Serie A

Um fábula na Calábria: salvação leva Crotone à loucura e técnico a pedalar 1,3 mil kms

Na Itália, há pouca coisa ao sul de Crotone, com exceção de toda a Sicília, e menos ainda ao norte de Turim. São dois extremos, uma jornada considerável mesmo para um país relativamente pequeno. Dá quase 1,3 mil quilômetros de estrada, segundo o Google Maps. No começo de abril, quando a situação do Crotone era difícil, o técnico Davide Nicola prometeu percorrer esse trajeto de bicicleta caso conseguisse manter sua equipe na Serie A. É bom ele começar a estocar garrafinhas de água para a maratona que durará de “sete a dez dias”, segundo ele: na última rodada, com a vitória por 3 a 1 sobre a Lazio e a derrota do Empoli para o Palermo, o Crotone saiu da zona de rebaixamento e tem mais uma temporada na elite para desfrutar.

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A promessa de Nicola foi feita antes do duelo contra a Internazionale, pela 31ª rodada. O Crotone era o melhor time da zona de rebaixamento, o que trazia pouco consolo considerando que ele ainda estava a cinco pontos da salvação. Havia vencido o Chievo, no domingo anterior, os primeiros três pontos que somou em mais de dois meses, apenas o segundo triunfo em 14 partidas pela Serie A. Mas o Crotone bateu a Inter. E bateu a Sampdoria. E bateu o Pescara e a Udinese. Encerrou a sua primeira participação na primeira divisão do Campeonato Italiano com seis vitórias, dois empates e uma derrota – para a Juventus, no jogo do título. E conseguiu, no último suspiro, superar o Empoli e escapar da degola.

Começa a se aquecer aí, Nicola
Começa a se aquecer aí, Nicola

Fica a dúvida se os jogadores adoram Davide Nicola ou o odeiam a ponto de superarem todas as expectativas apenas para vê-lo pedalar por 1,3 mil quilômetros. O fato é que o Crotone conseguiu uma reviravolta das mais milagrosas. Entrou na zona de rebaixamento na segunda rodada e se aconchegou nela até a penúltima. Conseguiu apenas um ponto nas nove primeiras partidas. Passou 13 jornadas seguidas na lanterna. Virou o turno com nove pontos creditados a ele e a oito de evitar a queda para a segunda divisão. Essa diferença subiu para 11, a 17 rodadas do fim, quando os três rebaixados pareciam estar muito bem definidos.

O que mudou, no começo de abril, para revolucionar a temporada do Crotone? Taticamente, nada: a equipe alinhou no mesmo 4-4-2 que usou durante a maioria das partidas. Os jogadores também foram praticamente os mesmos. Andrea Barberis ganhou a posição de Leonardo Capezzi, no meio-campo, e Andrea Nalini foi usado na meia-esquerda, no lugar de Adrian Stoian, que acabou se machucando. O resto da equipe ficou mais ou menos inalterada. E talvez tenha sido a continuidade o grande trunfo do Crotone.

Convenhamos: em qualquer lugar do mundo, o técnico que chega à 26ª rodada com três vitórias, quatro empates e 19 derrotas balança tanto no cargo que muitas vezes cai sozinho. Dependendo das circunstâncias, a questão não é nem encontrar um profissional melhor, mas dar a cartada desesperada em busca de qualquer melhora, aquela chacoalhada no elenco, o “fato novo”. A direção do Crotone, porém, tinha muita convicção no trabalho de Nicola. No fim de fevereiro, emitiu um comunicado garantindo que ele permaneceria no comando do time até o fim da temporada e colheu os frutos de tanta confiança.

Dois jogadores, em especial, destacaram-se na arrancada heroica do Crotone. Diego Falcinelli marcou cinco dos seus 13 gols em oito das últimas nove rodadas – estava suspenso da outra. O atacante de 25 anos foi, obviamente, o artilheiro da equipe na competição, com o mesmo número de tentos que, por exemplo, Carlos Bacca e mais do que os outros quatro maiores marcadores do clube da Calábria juntos. É um feito considerável uma vez que atua em uma equipe pouco criativa – a terceira que menos finaliza a gol, os piores índices de passes certos, de passes curtos, de posse de bola e de dribles e o maior de lançamentos em toda a Serie A. O outro foi Marcello Trotta, 24 anos, que contribuiu com quatro assistências e um gol em seis dos nove jogos da reta final. Marcou contra o Milan, no empate por 1 a 1, e deu os passes decisivos para os tentos das vitórias por 1 a 0 sobre Pescara e Udinese.

A tabela não foi muito bondosa, colocando Internazionale, Milan, Torino, Sampdoria e Lazio, cinco equipes da parte de cima da tabela, no caminho do Crotone, que não perdeu de nenhum deles. O azar mais cruel, no entanto, foi ter que ser coadjuvante do jogo do título da Juventus, na penúltima rodada. Todo o trabalho poderia ter sido em vão caso o Empoli derrotasse a Atalanta e o Crotone não conseguisse uma das maiores zebras da Serie A, impedindo o hexacampeonato da Velha Senhora, em Turim. Perdeu, como era de se esperar, por 3 a 0, mas o Empoli também colecionou mais um revés, e a definição foi para a última rodada.

Nada disso teria sido possível, aliás, sem a derrocada do Empoli, que conquistou apenas dez pontos nas 17 rodadas finais do Campeonato Italiano – e olha que venceu Fiorentina e Milan, fora de casa. Nesse mesmo período, o Crotone somou o dobro dos pontos e conseguiu escapar com a vitória derradeira sobre a Lazio. Nalini e Falcinelli fizeram 2 a 0, aos 22 minutos do primeiro tempo, e Immobile descontou, de pênalti, pouco depois. Nalini marcou novamente, na etapa final, e fechou a vitória por 3 a 1.

Enquanto isso, o Empoli participava de um terrível 0 a 0 com o já rebaixado Palermo, na Sicília. Um golzinho poderia rebaixar o Crotone. Mas quem marcou primeiro foram os donos da casa, com Nestorovski, aos 31 minutos do segundo tempo. E fizeram o segundo também, com Bruno Henrique. Krunic descontou, mas o Empoli já estava fadado ao rebaixamento. E o Crotone, à salvação. “Ir de bicicleta de Crotone a Torino é a parte mais fácil. Farei isso com grande prazer. Mantenho minha promessa”, afirmou, à Sky Sports. “A primeira palavra que me vem à mente é gratidão. Não esqueço aqueles que me mostraram confiança e justiça. Na primeira metade da temporada, conquistamos poucos pontos, mas, ao mesmo tempo, ficamos próximos do nível de desempenho que tivemos nas últimas nove rodadas”.

E graças à brilhante arrancada da equipe de Nicola, ninguém dormiu em Crotone, no último domingo:

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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