Serie A

Um negócio de impacto para a Serie A: Higuaín é do Milan, e Bonucci volta à Juventus

Parte da crítica espera que a chegada de Cristiano Ronaldo fortaleça o Campeonato Italiano. Ainda é cedo para vermos isso acontecendo com o aumento de receitas de patrocínio e de direitos de televisão, mas a transferência do português já produziu um efeito palpável que deixou a Serie A ainda mais interessante: Gonzalo Higuaín é o novo atacante do Milan. Ao mesmo tempo, houve uma troca de zagueiros. Mattia Caldara agora veste vermelho e preto, e Leonardo Bonucci está de volta à Juventus. Quem se deu melhor nessa história?

O que ganha a Juventus?

Cristiano Ronaldo tem tudo para ser um grande negócio para a Juventus, mas custou € 100 milhões e leva por volta de € 30 milhões anualmente em vencimentos. O clube de Turim precisa encaixar esse fardo em suas contas, sem arriscar a violação das regras do Fair Play Financeiro. Era esperado que jogadores fossem vendidos para amortizar a taxa de transferência e reduzir a folha salarial. E Higuaín era o nome mais natural: atua na mesma posição de Ronaldo, é um dos salários mais altos e teoricamente tem um bom mercado. Mas podemos questionar se a Juventus não foi um pouco precipitada.

A Juventus está levando bem menos do que os € 90 milhões que pagou para tirar Higuaín do Napoli, dois anos atrás: € 18 milhões pelo empréstimo e € 36 milhões para vendê-lo em definitivo ao fim da temporada. Pouco mais do que a metade do que foi investido, embora, com o jogador já na casa dos 30 anos, fosse difícil arrancar muito mais. No entanto, o problema nem foi esse. Foi reforçar um adversário direto no Campeonato Italiano.

O Milan passou longe de disputar o título nas últimas temporadas, mas é um clube gigante que sempre pode incomodar, principalmente agora contando com um dos melhores artilheiros da liga italiana nos últimos anos. O interesse pelo futebol de Higuaín não foi tão grande quanto se esperava uma vez que ele entrou no mercado. As conversas para o reencontro com Maurizio Sarri no Chelsea não foram adiante. Contudo, ainda há um mês de janela de transferências nas principais ligas e uma semana na Premier League.

Em vez de esperar para ver se apareciam propostas concretas de clubes de outros países, e arriscar permanecer com Higuaín perdendo valor no banco de reservas durante a primeira metade da temporada, a diretoria alvinegra preferiu vendê-lo para o primeiro interessado de fato, mesmo que ele fosse um rival mais próximo.

Leonardo Bonucci, da Juventus (Foto: Divulgação)

O outro questionamento é sobre o imediatismo. O interesse pelo retorno de Leonardo Bonucci, que saiu surpreendentemente para o Milan no começo da temporada passada após rusgas com Massimiliano Allegri, sugere que o planejamento atual da Juventus é de curto prazo: aproveitar os últimos anos de alto nível de Cristiano Ronaldo para ganhar a Champions League o mais rápido possível. Por isso, aceitou abrir mão de Mattia Caldara, 24 anos, um zagueiro que ainda pode ser muito bom no futuro, por outro de qualidade reconhecida, com história vitoriosa no clube e que conhece todos centímetros de Turim.

A saída de Bonucci deixou um vácuo na defesa da Juventus. Giorgio Chiellini foi o que mais atuou na última temporada, seguido por Andrea Barzagli, já com 36 anos, o jovem Daniele Rugani e Mehdi Benatia. Não houve um impacto significativo em números, mas Allegri, depois de fazer as pazes com Bonucci, não desperdiçou a oportunidade de refazer a linha defensiva que fez tanto sucesso em tempos recentes e ainda tem alguma lenha para queimar. Com uma retaguarda sólida e um máquina de fazer gols no ataque, além de qualidade em todos os outros setores, a Juventus fica inegavelmente mais forte.

No entanto, a passagem de Bonucci, 31 anos, pelo Milan não foi nada boa. A expectativa era que liderasse a defesa do clube, mas, em vez disso, foi protagonista de algumas falhas lamentáveis, muito lento, com tempo de bola deficiente. Resta saber o quanto isso foi resultado do afastamento do sistema defensivo exemplar da Juventus e o quanto é resultado de decadência física ou técnica.

E, também, como será a recepção da torcida. O reencontro de Bonucci com os bianconeri, em abril, não foi muito agradável. O zagueiro foi vaiado e xingado durante a derrota por 3 a 1 do Milan. Ao marcar o único gol do seu time, celebrou fazendo o gesto de “lave a boca”, comum ao longo de sua carreira, mas que naquela noite teve um significado a mais. Afirmou após a partida que havia pensado em não comemorar caso marcasse no ex-time, mas as vaias fizeram com que mudasse de ideia.

Outras duas variáveis são importantes para sabermos se a Juventus acertou: o quão bom Mattia Caldara se tornará e, a mais óbvia, se o clube vai realmente conseguir conquistar a Champions League.

O que ganha o Milan?
Higuaín (Foto: Divulgação)

Bonucci era para ser uma mensagem de força do Milan. Não foi. Teve uma passagem cheia de altos e baixos e voltou para a Juventus em um ano. O clube não conseguiu subir de patamar e passou por apuros antes da pré-temporada, punido pela Uefa por não cumprir com as regras do Fair Play Financeiro. Com a administração tomada pela Elliott Investment, após Li Yonghong não cumprir os prazos de pagamento dos empréstimos que fez junto à companhia americana para comprar o clube, e sob nova direção, com Leonardo no comando do futebol, tenta se afirmar novamente trazendo um dos atacantes mais prolíficos da Serie A nos últimos anos.

Desde que chegou à Itália, cinco anos atrás, Higuaín nunca fez menos do que 16 gols em uma temporada do Campeonato Italiano – e, em 2015/16, com 36, bateu o recorde de tentos em uma única edição do torneio. O Milan não tem um atacante tão bom desde a saída de Ibrahimovic, artilheiro de 2011/12, com 28 bolas na rede. Nesse período, apenas dois homens alcançaram a marca mínima de Higuaín na Serie A: Jérémy Menez (16) e Carlos Bacca (18).

Com a capacidade para decidir partidas, Higuaín pode ser um jogador que, enfim, contribui para arrancar o Milan do desesperador meio de tabela em que o clube está preso há cinco temporadas. Embora a situação financeira não seja ótima, a formatação do negócio, que exige apenas € 18 milhões à vista, é uma oportunidade rara para qualificar o elenco. E mesmo o valor total, de € 54 milhões, não é tão alto para um atacante comprovado como o argentino, dentro do atual mercado de transferências muito inflacionado.

Caldara, do Milan (Foto: Divulgação)

Além disso, o Milan leva um promissor talento para a defesa. Ao contrário da Juventus, que precisa de resultados imediatos, os rossoneri precisam preparar uma espinha dorsal sólida para emendar boas temporadas e recuperar o seu protagonismo. Caldara ainda não é o produto final. Tem apenas 55 partidas de primeira divisão pela Atalanta e oscilou de desempenho no último Italiano. No entanto, se o seu futebol se desenvolver, pode fazer uma parceria longa com Alessio Romagnoli, zagueiro milanista apenas um ano mais velho.

Em troca, abriu mão de um jogador que havia chegado com status de grande estrela e não havia conseguido corresponder em campo. Bonucci não é um veterano, mas está mais próximo do fim da carreira do que Caldara. Com ele e Higuaín, e sem gastar muito dinheiro, o Milan reforça o seu presente e o seu futuro.

O que ganha a Serie A? 

Com Cristiano Ronaldo, a Juventus tende a continuar milhas à frente dos seus adversários, mas o segundo patamar do Campeonato Italiano está ficando muito interessante. A edição passada já havia sido bem mais disputada do que anteriores e equipes fortes começam a se formar. Pelo menos em teoria. Leonardo tem muito trabalho pela frente, mas sua primeira movimentação já causou impacto. A Internazionale acrescentou mais uma peça ao seu grande mercado com o lateral direito vice-campeão mundial Sime Vrasljko e até sonha com Luka Modric. A Roma, embora tenha perdido Malcom para o Barcelona, trouxe jogadores promissores e repatriou Javier Pastore. O Napoli é a incógnita. Perdeu apenas Jorginho, mas se reforçou modestamente e começa um novo projeto com Carlo Ancelotti, que precisa apagar a má impressão deixada no Bayern de Munique.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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