Serie A

A tripla artilharia de Giuseppe Signori na Serie A, o ídolo da Lazio que chega aos 50 anos

Entre os grandes atacantes do futebol italiano, Giuseppe Signori talvez não esteja entre os nomes mais lembrados. No entanto, em uma época de grandes estrelas na Serie A, o laziali fez história. Conseguiu ser artilheiro do Calcio em três temporadas, entre 1992 e 1996, o último a conseguir tal feito. De carreira nomádica em seus primeiros anos, o camisa 9 atravessou o seu auge durante o quinquênio em que defendeu a Lazio, se colocando entre os maiores goleadores dos biancocelesti e também convocável à seleção italiana, participando do vice-campeonato na Copa do Mundo de 1994. Referência dos anos 1990 que completa 50 anos neste sábado.

Formado nas categorias de base da Internazionale, Signori não ficaria para se profissionalizar em Milão, dispensado pela baixa estatura. Rodou por diversos clubes das divisões inferiores naqueles primeiros anos. O AlbinoLeffe, da quarta divisão, ofereceu a oportunidade inicial. Então, o jovem cresceu passo a passo. Atuou por Piacenza e Trento, antes de ser comprado pelo Foggia, então militando na Serie B. Nos satanelli, conheceria Zdenek Zeman, que seria decisivo em sua carreira. Afinal, até então o baixinho atuava como trequartista, armando o jogo. O treinador seria o responsável por transformá-lo em atacante, geralmente caindo pela ponta esquerda no famoso tridente com Francesco Baiano e Roberto Rambaudi.

Os números de Signori ganharam impulso nesta nova fase da carreira. Somando seus gols na Serie B, levou o Foggia ao acesso. E participou da surpreendente campanha dos rossoneri na Serie A 1991/92, quando anotou 11 tentos. Era parte de um time irresistível no ataque, apesar de deixar muitas brechas na defesa, e que terminou em um honroso nono lugar. Não à toa, o sucesso levou o atacante longe. Em maio de 1992, ele ganhou a primeira convocação à seleção italiana de Arrigo Sacchi, disputando a US Cup. Já na temporada seguinte, transferiu-se para a Lazio, que desembolsou oito milhões de liras em sua contratação.

Na capital, Signori desfrutou de seu ápice. E pôde demonstrar todo o seu talento na arte de marcar gols. O atacante não tinha porte físico avantajado, mas compensava essa desvantagem com muita movimentação e velocidade. Além disso, seu trunfo estava na precisão e na ferocidade de seus chutes de canhota. Os tiros cruzados eram um problema sério aos goleiros. E também se dispunha a cobrar as bolas paradas, com excelente aproveitamento nos pênaltis e uma habilidade não menos notável durante as faltas. Não à toa, chegou a marcar uma tripleta com três tiros livres certeiros, em duelo contra a Atalanta na temporada 1993/94 – algo exclusivo a ele e a Sinisa Mihajlovic no Italiano.

Naqueles anos, Signori transpirava gols. Em sua primeira Serie A pela Lazio, 1992/93, balançou as redes 26 vezes em 32 partidas. Levou os laziali à Copa da Uefa e faturou a inédita artilharia, superando com sobras Roberto Baggio e Abel Balbo, que não passaram dos 21 tentos. E na campanha seguinte, a fome não cessaria. O desempenho da Lazio de Dino Zoff foi ainda melhor, terminando na quarta colocação da Serie A. Assim, a média do matador também melhorou, com 23 tentos em 24 partidas – seis tentos a mais que o segundo colocado na lista, Gianfranco Zola. O momento o referendava. Seguiu com moral rumo à Copa do Mundo.

Ao longo daqueles dois anos, Signori se transformou em um dos homens de confiança de Arrigo Sacchi na seleção italiana. Virou titular nas Eliminatórias e contribuiu com três gols. Além disso, arrebentou nos amistosos prévios à estreia no Mundial. Por isso mesmo, começou a competição nos Estados Unidos como titular. O problema é que o treinador insistia a utilizá-lo mais recuado e, na sequência da competição, o jogador da Lazio perdeu espaço. Foi para o banco nas quartas de final, contra a Espanha, quando entrou no segundo tempo e deu a assistência para o gol decisivo de Roberto Baggio. Já na semifinal contra a Bulgária, discutiu com o comandante por conta de seu posicionamento e não foi mais utilizado. Poderia ter sido alguém a fazer diferença na disputa de pênaltis ante o Brasil. Mas não teve sua chance.

De volta à Lazio, com Zoff alçado aos postos diretivos, Signori pôde trabalhar novamente com Zdenek Zeman. Sua fonte de gols secou um pouco, parando nos 17 tentos em 1994/95, a nove de alcançar Gabriel Batistuta na artilharia. Ainda assim, foi uma temporada de alegrias. Os biancocelesti encerraram a campanha com o vice-campeonato, a melhor colocação desde os anos 1970. E a postura insaciável do centroavante foi retomada na temporada seguinte, 1995/96. A Lazio de Zeman outra vez impressionou, alcançando o terceiro posto. Já o matador assinalou 24 gols, igualado com Igor Protti como máximo goleador.

A recuperação da melhor forma não foi suficiente a convencer Arrigo Sacchi a levá-lo à Euro 1996. Mas Signori já experimentava sua adoração na capital. Em meados de 1995, quando o presidente da Lazio declarou que a venda do artilheiro para o Parma era uma questão de dias, uma multidão tomou as ruas rumo ao centro de treinamentos do clube, para manter seu ídolo. Pressão que surtiu efeito, e que melhorou ainda mais as marcas históricas do goleador. O que poucos imaginavam é que não demoraria para ele cair em desgraça. A temporada de 1996/97 foi a última do xodó como titular dos biancocelesti, anotando 15 gols e mantendo o time no honroso quarto lugar. Aquela campanha, todavia, marcou a saída de Zeman e um breve retorno de Zoff. A partir de 1997/98, o banco de reservas seria assumido por Sven-Goran Eriksson, com quem o artilheiro não se deu bem.

Preterido em relação ao recém-contratado Roberto Mancini, Signori passou a esquentar o banco. Tinha um pouco mais de espaço durante a rotação feita para as partidas de copa. Contudo, durante o duelo com o Rapid Viena pela Copa da Uefa, o ídolo se aqueceu durante vários minutos sem entrar. Foi a gota d’água. Visando suas chances na Copa de 1998, foi repassado à Sampdoria no primeiro semestre daquele ano. Pouco rendeu. A história com os laziali, de qualquer maneira, é respeitabilíssima. Autor de 127 gols em 195 jogos, Signori permanece ainda hoje como segundo maior goleador do clube, atrás apenas do mítico Silvio Piola.

A recuperação de Signori aconteceu a partir de 1998/99, cedido ao Bologna. Com os rossoblù, se não demonstrava a mesma capacidade vista na Lazio, recuperou o bom nível e ganhou a adoração da torcida. Foram seis temporadas no clube, quatro delas superando os dois dígitos de gols na Serie A, e contribuindo para que o clube frequentasse as competições europeias. Em 2003/04, completando 36 anos, viveu sua última campanha na elite do Calcio. Alcançou os 188 gols pelo Campeonato Italiano, marca que o deixa no Top 10 histórico da competição, empatado com Alessandro Del Piero e Alberto Gilardino.

Depois disso, Signori ainda tentaria a sorte no grego Iraklis e no húngaro Sopron, pendurando as chuteiras de 2006. Virou comentarista esportivo, dirigente e, em 2011, pegou uma suspensão de cinco anos por envolvimento com caso de manipulação de resultados. A história que escreveu como jogador, no entanto, é incólume – sobretudo na Lazio, onde a gratidão permanece.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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