Serie A

Totti no Divã: Série cômica sobre o eterno capitão romanista já está disponível no Brasil

"Um Capitão", visão de Francesco sobre seus últimos anos de carreira, pode ser assistida no HBO Max

Ser romanista em 2022 é ter certeza que o melhor lugar possível para se viver é no passado. Se o time não ajuda e não dá nenhuma alegria, as páginas escritas nos últimos 30 anos chegam a iludir que foi uma boa decisão ter escolhido a Roma para torcer (não foi e você sabe disso, aceite).

Para quem quer se debulhar em lágrimas com as glórias do passado, está disponível a série “Um capitão”, no streaming da HBO Max. A produção, feita na Itália originalmente com o nome “Speravo Di Morì Prima”, em 2021, retrata os dois últimos anos de carreira de Francesco Totti, lenda romanista e que foi praticamente cuspida para fora das entranhas do clube que ajudou a projetar no cenário internacional, vencendo uma Serie A e duas Copas da Itália, em quase um quarto de século como profissional. O roteiro foi baseado na autobiografia do Capitão (“Un capitano”), lançada em 2018.

A história de Totti você já conhece de trás para frente, mas o que provavelmente é inédito é como ele via as situações que o cercavam ao longo da carreira. Durante seis episódios, a narrativa passa pela relação do craque com a família, a torcida, os colegas e principalmente com Luciano Spalletti, último técnico campeão com a Roma, ex-amigo e desafeto declarado de Totti, por conta da última passagem do careca por Trigoria, entre 2015 e 2017.

Para sua consideração: são atores em uma trama romantizada

É justamente nesse recorte de tempo que a história é focada, com apelo humorístico e tons de dramalhão. Antes que se diga, é importante ter em mente que “Um Capitão” não é uma série documental e nem se propõe a ser. É uma produção humorística com recortes históricos e relatos do próprio Totti, que comenta episódios específicos. No início, é um pouco chocante ver como o ator Pietro Castellitto não se parece em nada com Francesco, fisicamente. Contudo, Pietro fez um estudo aprofundadíssimo dos trejeitos e forma de falar de Totti, o que facilita a identificação com o homem. Com o tempo, você até esquece que é um ator, e não Totti, por conta disso.

A ambientação é muito bem cuidadosa e a produção reproduziu os uniformes da Roma, bem como penteados e aparências de Totti e demais personagens em épocas correspondentes. Embora seja exigir demais que os atores se pareçam com os jogadores que retratam, há um esforço para aproximar a série da vida real. Sobretudo por Marco Rossetti, que interpreta Daniele De Rossi e Gabriel Montesi, que viveu o maluquíssimo Antonio Cassano (todas as passagens com ele são naturalmente engraçadas).

Logo no primeiro capítulo, você se sente como o psiquiatra de Totti, ouvindo sua versão dos fatos e suas reações emocionais ao momento mais temido por todo jogador de futebol: a aposentadoria. E por ser uma produção chancelada por Francesco, esse olhar do personagem do capitão é quase sempre autodepreciativo, bem-humorado, carregado de sarcasmo. Afinal de contas, não se passa quase 30 anos no coração da Roma sem adquirir algum problema sério de autoestima.

Fato é que o tratamento dado a Totti em seus últimos dois anos de carreira tiraram do atleta o seu status de figura intocável. Muito embora a torcida e a imprensa tenham reforçado sua estatura dentro do clube, o próprio Totti ficou perdido em seus momentos derradeiros.

O careca responsável pelo fim

Todo mocinho precisa de um vilão para que sua posição seja justificada. É assim também na série. Spalletti (Gianmarco Tognazzi), escolhido por James Pallotta para tentar minar o trono do Rei, é esse cara. Cabe lembrar que Luciano era muito próximo de Totti nos idos de 2005-09, quando treinou e levou a Roma a dois títulos da Coppa Italia e a campanhas muito sólidas na Serie A. Mas a saída de Spalletti do clube em 2009 estremeceu a relação, que se deteriorou e chegou às vias de fato em 2016, nos vestiários, fato contado de maneira objetiva pela série após o empate entre Atalanta e Roma, em Bérgamo.

A tensão entre Spalletti e Totti norteia a despedida do jogador, que sequer teve tempo em campo nos últimos meses de carreira. Antes de decidir pela aposentadoria, Francesco cogitou jogar em outro continente, e esse momento de hesitação rendeu uma cena bastante divertida com duas presenças especiais, mas não vou estragar a surpresa para vocês, amigos leitores.

O mundo sabe que a Roma de Pallotta chutou Totti para fora de sua própria casa e esse talvez seja o crime mais imperdoável já cometido na história do futebol italiano. Pelo bem de toda essa trajetória, a série trata com tons leves e emocionantes o adeus do capitão, o que ajuda a valorizar novamente o que foram seus últimos gols e sua aparição no Olímpico contra o Genoa, na partida que encerrou sua carreira. Se você não chorar com essas cenas, bem como o sexto episódio, como um todo, recomendo que procure um médico ou veja de novo até obter o efeito desejado. É simplesmente impossível.

No mais, é reconfortante ver que a Roma finalmente abraçou o que sempre foi, dentro de fora de campo: uma série de humor com um grande e carismático protagonista. É mais ou menos isso que José Mourinho está sentindo no comando do clube. Quem não pagaria um serviço de streaming para ver um “Nothing or Nothing: Os Meses de Mourinho na Cidade Eterna”? Não seria ruim, no entanto, que houvesse um spin-off com De Rossi, vendo tudo isso de outro lugar no coração do clube e da torcida. Ou mesmo um corte com a visão de Spalletti.

Em “Um Capitão”, você vai rir, lamentar, celebrar e relembrar o tempo em que a Roma era um time de verdade e até mesmo conhecer um pouco mais de Francesco Totti, pessoa física e com anseios reais. Até divindades da bola também são gente como a gente, pelo menos em aspectos de relações sociais e profissionais. E não, Spalletti, o tour de redenção da sua imagem enquanto treinador espirituoso não vai passar pela capital italiana, ao menos não por agora. Quem sabe no futuro, porque as ruas não se esquecem de 2016…

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Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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