Serie A

Sacchi: “O Napoli é meu time preferido, Sarri é um gênio, mas está condenado à perfeição”

Arrigo Sacchi pode nem sempre ser coerente em suas visões, mas continua como um dos grandes personagens a se ouvir no futebol italiano. Muito do que se entende sobre a Serie A hoje em dia teve a contribuição do antigo treinador do Milan, que também trabalhou bastante pela seleção italiana, inclusive coordenando os bastidores dos azzurri nos últimos anos. O veterano tem uma noção privilegiada de todo o sistema, o que permite análises amplas do que se vive no Calcio. É, afinal, um grande mentor a tantos técnicos do país.

A uma semana do início da Serie A, Sacchi concedeu uma ampla entrevista ao jornal Corriere della Sera, falando sobre as suas expectativas para a nova temporada, assim como deu pitacos sobre outros assuntos, incluindo a seleção. Discorreu sobre alguns dos principais candidatos às primeiras colocações da tabela e as suas perspectivas quanto ao que vem sendo feito no país. Abaixo, destacamos trechos da entrevista:

Juventus

“A Juventus ganhará o Scudetto de novo, porque ela tem a vantagem de contar com um caráter superior. Ou melhor: apenas a Juventus pode perdê-lo. A Juve tem força mental, o que está ligado à qualidade individual. Está entre os cinco melhores clubes do mundo. Isso garante pontos a mais desde o início do campeonato. Eu preciso dizer, no entanto, que não gosto da mensagem de que só a vitória importa. Eu dei alguns conselhos ao presidente Agnelli sobre qual pode ser um passo à frente, combinando mérito, beleza e vitória”.

Napoli

“O Napoli é meu time preferido, o mais harmonioso. O estilo de jogo deles está entre os três melhores do mundo, Sarri é um gênio. Mas eles não devem ganhar. O Napoli está condenado à perfeição. Eles possuem um coletivo excepcional, ideias e qualidade, mas os jogadores pecam na força física, na experiência e na história. Quando se trata de apertar os dentes nos momentos difíceis, você precisa de líderes. Eles estão no caminho certo, melhorando a cada mês. Cedo ou tarde ganharão o Scudetto”.

Inter e Milan

“Organização é uma pirâmide e os principais clubes serão sempre os mesmos. Então, primeiro nós precisamos entender como os novos donos se movimentarão. Eu gosto bastante de Luciano Spalletti, mas ao longo dos últimos anos a Inter teve muitos bons técnicos que foram mal. Talvez o problema seja a Inter, não o treinador. Já no Milan, eu gostava do Montella desde a Fiorentina, agora ele parece mais tático e tenta dar uma identidade ao time. A diretoria está dando a ele um bons jogadores e vai seguindo em frente. Acho que eles compraram bem, mas vocês me conhecem, eu penso sobre ideias antes do dinheiro”.

Seleção italiana

“Algo mudou, a globalização ajuda. Na TV, nós vemos mais espetáculo e, então, lentamente estamos nos ajustando para emular isso. Neste momento, há um bom grupo de técnicos que ensinam seus times a dominar as partidas: Marco Giampaolo, Eusebio Di Francesco, Luciano Spalletti, Paulo Sousa, Gian Piero Gasperini. Além disso, há rapazes que estão evoluindo, como resultado do trabalho duro que nós fizemos nas seleções de base a partir de 2010. Belotti, Insigne, Immobile, Florenzi, Romagnoli, Rugani: é a direção certa. Entretanto, ainda não há jogadores italianos o suficiente jogando na Serie A, o que é um problema para a seleção. Onde está o orgulho italiano?”.

A transferência de Neymar

“Há duas coisas distintas para dizer sobre a transferência de Neymar. Primeiro é que esses clubes estão mais ricos, então é normal ter mais dinheiro circulando, é a economia moderna. Não é mais um esporte, mas um espetáculo esportivo, há mais audiência, o que gera mais dinheiro. Não é um escândalo. Por outro lado, há a questão sobre os jogadores, que agem apenas por conveniência aos seus bolsos. Bem, eu penso que isso é um erro. Eu me lembro do Kaká e do Shevchenko, eles nunca foram os mesmos quando deixaram o Milan. A ganância te destrói. O futebol é nutrido com paixão, com coragem. A coragem deixa as coisas livres, como as ideias, como a beleza”.

Cristiano Ronaldo

“Certa vez, fui me encontrar com Carlo Ancelotti no Real Madrid, e você sabe quem estava trabalhando uma hora e meia antes do treinamento? Cristiano Ronaldo. O outro Ronaldo, o brasileiro, tinha mais qualidade, mas ele não durou tanto porque buscava privilégios e não queria correr. Cristiano Ronaldo é um profissional exemplar. A psicologia cognitiva nos ensina que se você nasce com o talento, precisa trabalhar todos os dias. É como ele é. Ele levanta o Real Madrid, o Real Madrid levanta ele”

[embedcode get="script" playlist_id="match"]
Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo