ItáliaSerie A

Rei ferido, mas ainda não substituído

O domínio esportivo de um atleta ou equipe sobre os seus pares sempre traz suas doses de incômodo. Não é raro que o adversário a ser batido passe a ser hostilizado pelo simples fato de… ser melhor que os outros. Tentar diminuir os seus feitos, atribuindo-os a uma suposta falta de concorrência (não, esse post não é sobre o Schumacher) ou a ajudas externas (calma, este post também não é sobre o Barcosgate), vira uma constante, por vezes mais cansativa ainda do que o domínio em questão. Não à toa, quando o eterno favorito é derrubado, todo mundo que não torce por ele acaba abrindo um sorriso.

“Eu bem disse que a Juventus não era tudo isso”, alguém deve ter exclamado aos berros por aí. Talvez nunca tenha sido, mas passou 49 rodadas da Serie A sem sofrer derrotas. Com direito a título invicto no meio disso tudo (pouco importa se o vigésimo oitavo ou o trigésimo, um assunto tão ou mais chato quanto o Barcosgate). No último sábado, caiu a longa invencibilidade, pelas mãos da Internazionale, no célebre Derby d’Italia. Os nerazzurri conquistaram o resultado com autoridade e merecimento. De quebra, fizeram com que o rival fosse subjugado pela vez no (já nem tão) novíssimo Juventus Stadium.

Mas a Juventus ainda parece ser mais consistente. E conta com uma sobra técnica chamada Andrea Pirlo, seguramente um dos cinco melhores jogadores do mundo na temporada 2011-12 e um forte concorrente ao posto de melhor mortal, quando excluímos os incômodos (favor voltar ao primeiro parágrafo) Messi e Cristiano Ronaldo da disputa. Só que depende demais do seu “tridente” de meio campo, formado pelo maestro junto a Marchisio e Vidal. A saída pelo lado esquerdo com Asamoah é interessante, claro. Foi assim que surgiu o primeiro gol da partida, logo aos 18 segundos, em lance que deveria ter sido interrompido pelo impedimento do ganês.

Não foi. O que aumentou a gritaria sobre os erros de arbitragem no futebol italiano, em especial aqueles que beneficiam a Juventus. A equipe de Turim seria ajudada novamente no decorrer da primeira etapa, quando Lichtsteiner deu entrada imprudente em Palacio e não foi expulso. Há de se abrir parênteses aqui: as arbitragens erram contra e a favor de todos, em todo lugar de mundo. Por isso mesmo, os homens de preto (amarelo, vermelho, rosa…) transbordam insegurança em jogos importantes, o que, invariavelmente, aumenta as chances deles errarem coisas a favor do líder do campeonato. Questão de lógica, mas que não invalida a desconfiança na honestidade plena dos apitadores, fique registrado.

Alessio, o treinador interino da Juventus, agiu rapidamente, substituindo o ala suíço. Parecia até que isso estava nos planos de Stramaccioni, o jovem comandante da Inter. Porque batendo de frente com Cáceres, o destemido Nagatomo podia empurrar o rival para seu campo de defesa, ao menos no setor esquerdo. A estratégia só surtiu efeito mesmo quando Guarín veio a campo, tirando um pouco de previsibilidade e dando velocidade ao time milanês. E foi assim que a Inter construiu a virada, após o empate surgido em, claro, mais um erro de arbitragem, um daqueles pênaltis mais difíceis de encontrar do que o Wally em um palheiro vermelho e branco.

Por fim, a Inter matou o jogo em um contra-ataque, como justa recompensa a Palacio, talvez o jogador que mais correu em campo. Os milaneses tinham nele, em Cassano e Milito o que a Juve anda procurando, em vão, em Vucinic, Giovinco, Quagliarella e Matri: poder de decisão. Não que a Velha Senhora não tenha tentado corrigir isso no verão europeu, quando sonhou com Drogba e Van Persie e acordou com os lençóis molhados de suor (ou coisa pior) após fechar a contratação de Bendtner. Aliás, achar o dinamarquês em campo ontem era ainda mais difícil do que encontrar o puxão de camisa que gerou o pênalti a favor da Inter.

Fogo (de purificação) no coreto

Já se esperava uma temporada complicada para os atuais campeões. Também pela suspensão de Antonio Conte, mas principalmente pela dor de cabeça que seria administrar um elenco curto, tendo o aguardado retorno à Liga dos Campeões inchando o calendário, que andou meio murcho na temporada passada, quando o clube não disputou sequer a Liga Europa. A derrota do fim de semana, somada à campanha decepcionante no front continental, coloca o clube sob pressão e dá nova graça ao Italianão, que vê a Inter a um mísero ponto do líder. E olhe que a tabela poderia estar ainda mais embolada, se Napoli e Lazio não tivessem tropeçado.

A Serie A sofreu muitos golpes nos últimos anos. O maior deles financeiro, evidenciado pela perda de Ibrahimovic e Thiago Silva, uma das razões pelo qual o Milan é uma ausência notável na lista dos candidatos ao scudetto. Para um campeonato nivelado por baixo, a salvação reside em maior competitividade. Foi assim que o Brasileirão manteve o interesse das torcidas em alguns anos de péssimo futebol, por exemplo. É assim que o futebol argentino respira, mesmo com a perda de potência das equipes locais. Resta aproveitar a onda de incerteza em campo para tocar mudanças que diminuam as incertezas fora dele.

O maior legado do período de dominação da Juventus foi ver seu novo estádio servindo como exemplo ao país inteiro. Tal qual um “campo dos sonhos”, a nova casa bianconera trouxe mais público e confiança. Aos poucos, se provará também uma máquina de fazer dinheiro. Não à toa, Inter e Roma já dão os seus primeiros passos para entrar na turma da casa própria. Ainda longe do suficiente, em um cenário onde praticamente todos mandam seus jogos em estádios públicos em inadequado estado de conservação. À Velha Senhora, fica o alerta de que se tornar referência é mais fácil do que se manter como tal. Se quiserem um exemplo brasileiro, é só procurar pelas bandas do Morumbi.

Do lado interista, a aposta em Stramaccioni ganha respaldo quase universal. A equipe mantém 100% de aproveitamento como visitante e, por não levar muito a sério a Liga Europa (seja isso condenável ou não), poderá se concentrar na retomada do título nacional. O técnico, de apenas 36 anos, se mostra mal humorado nas coletivas e disposto a mudar a forma de sua equipe jogar a cada partida, fazendo o que for preciso para alcançar vitórias, o que traz à sua torcida lembranças (ainda prematuras) de um certo português. Caras novas, palcos idem. É disso que o futebol italiano precisa. Afinal, Pirlo, Buffon e Totti não vão durar para sempre.

Mostrar mais

Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo