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Os caminhos para o ostracismo

Se o caro leitor não tivesse observado a chamada ou visto a foto deste texto, poderíamos fazer um jogo de adivinhação neste primeiro parágrafo. Seria assim: quem é o jogador que a) atua por uma equipe de Milão; b) tem o maior salário da equipe, c) tem se lesionado demais e, por isso, deixou de ser indispensável e perdeu o lugar no time titular; e d) pode ser negociado em janeiro? Se pensou em Alexandre Pato, acertou. Mas se pensou em Wesley Sneijder, também.

Hoje, os dois jogadores não são nem sombra do que significavam para seus clubes dois anos atrás – o que justifica os altos salários da dupla. No Milan, Pato ganha € 4 milhões por ano, e é o jogador mais bem pago da equipe, ao lado de Robinho e Mexès. Já Sneijder ganha € 6 milhões e tem não só o maior salário da equipe, mas o maior salário do país, juntamente a Buffon (Juventus) e De Rossi (Roma). Gastar tanto com jogadores que pouco entram em campo, em tempos de economia, é certeza de prejuízo. Mas como, afinal, os dois se tornaram fardos para suas equipes? Acompanhe o desenrolar dos fatos.

Pato nunca chegou a ser indispensável para o Milan dentro de campo, mas era visto como uma joia para o futuro. Um dos principais jogadores jovens de todo o mundo, o mais jovem em toda a história a atingir 50 gols na Serie A, Pato era cortejado pelo Chelsea, que oferecia rios de dinheiro. Silvio Berlusconi sempre disse não e, hoje, em uma época de vacas magras para o futebol italiano e para o Milan, se declara arrependido. “Pato é um problema, principalmente por ter se desvalorizado tanto. Precisamos ver o que fazer”, disse o presidente rubro-negro, depois que o brasileiro, seu ex-genro, declarou que queria jogar e que poderia deixar Milanello.

Há exatamente um ano, em um 27 de novembro, Pato marcava seu último gol no Campeonato Italiano, contra o Chievo. Foi o único de toda a Serie A 2011/12 do brasileiro, que ainda fez outros três – um na Coppa Italia e dois na Liga dos Campeões -, em 18 partidas disputadas, 11 delas pelo campeonato nacional. Uma média baixa, que contrasta com o alto salário e sua altíssima média de lesões musculares. Desde o final de 2009 o jogador sofre com recorrentes lesões e, até agora, o Milan Lab, departamento médico da equipe, de métodos muito criticados, não arranjou solução.

Nesta temporada, Pato jogou apenas sete vezes e marcou dois gols (ambos na LC), mas acabou se machucando depois de fazer um dos gols da vitória por 3 a 1 sobre o Anderlecht, nos acréscimos da segunda etapa, na última terça-feira (18). Por isso, ficou de fora da vitória do Milan sobre a Juventus, por 1 a 0, neste sábado. Mesmo machucado, pedia que Allegri lhe desse minutos de jogo. Incoerência.

A falta de confiança em Pato começou depois que sua série de lesões chegou a um ponto incontornável. Em 2010, Ibrahimovic chegava ao Milan para ser titular ao lado do brasileiro, que atuaria como segundo atacante. Não deu certo, já que os dois batiam cabeça e se movimentavam de forma muito parecida. Enquanto Ibra seguia fundamental ao clube, Pato se lesionava cada vez mais. Assim, quando o sueco foi vendido ao Paris Saint-Germain, o clube acabou indo ao mercado e trouxe Pazzini para ser o centroavante de que o clube precisaria, com sua saída.

No entanto, não é o ex-jogador da Inter que pode estar enterrando de uma vez por todas a passagem de Pato pelo Milan: Allegri tem preferido escalar El Shaarawy (e até mesmo Bojan) na função de centroavante. O Pequeno Faraó tem correspondido muito bem e já quase metade dos gols do Milan até agora (12 de 28). Por isso, Pato pode acabar sendo negociado – e fala-se muito que Corinthians e Santos estariam dispostos a repatriá-lo, provavelmente por empréstimo.

O caso de Sneijder é parecido ao de Pato. Como tantos outros habilidosos jogadores holandeses, Sneijder tem problemas físicos constantes. Em toda sua carreira, iniciada há exatas 10 temporadas, o trequartista fez mais de 40 partidas em um ano em apenas três oportunidades: 2004-05 e 2006-07, pelo Ajax, e 2009-10, quando ganhou a Tríplice Coroa pela Inter – ou seja, neste último caso, porque o número de partidas disputadas na temporada foi bem maior do que o comum. Quando a equipe azul e preta o comprou, no entanto, já sabia que ele jogaria pouco, mas poderia ser decisivo quando entrasse em campo. Foi assim no ano do Triplete, em que foi devastador, e também no ano seguinte, quando seguiu no centro dos projetos de Rafa Benítez e Leonardo, embora sem o mesmo brilho.

O meio-campista começou a ser um problema para a Inter a partir da temporada passada, quando Gasperini assumiu o comando da equipe. O holandês só teria espaço no 3-4-3 que o técnico previa para a equipe caso jogasse improvisado – e o ex-técnico nerazzurro foi bem claro quando disse isso. Durante todo o mercado, a saída de Sneijder era dada como certa, uma vez que anualmente a Inter estava negociando seus jogadores mais valorizados, para se adequar ao Fair Play Financeiro da Uefa. No fim das contas, Eto’o foi vendido ao Anzhi e o holandês ficou.

Com o fim da curtíssima experiência negativa com Gasperini e a chegada de Ranieri, ele enfim poderia voltar a jogar em sua posição de origem. As lesões, no entanto, ficaram mais frequentes e deram o tom da melancólica temporada interista, na qual Sneijder só participou de 28 jogos – 20 na Serie A. A grande pergunta do último ano e meio foi: onde encaixar Sneijder depois que ele voltar de lesão? Sob o comando de Ranieri, a Inter jogava melhor no 4-4-2, o que também limitaria seu espaço. Hoje, com Stramaccioni, está claro que a Inter não precisa de Sneijder para o jogo fluir, embora ele se encaixe no 3-4-1-2 ou no 3-4-2-1 que o técnico tem previsto. Desde que o jogador se machucou e o técnico mudou de esquema tático, na quinta rodada, a Inter passou a jogar melhor. Hoje, a exclusão de Sneijder tem outros motivos.

O primeiro grande motivo é uma questão de atitude e empenho. Palacio e Cassano se adaptaram muito bem ao time e se doam muito mais à equipe do que o Sneijder dos últimos dois anos poderia, além de proporcionar mais perigo pelos lados do campo e mais trocas de bola e posições com velocidade. Mais atrás, Guarín executa o papel de box-to-box que alia força e marcação à criatividade, algo muito prezado por Stramaccioni. Portanto, a filosofia de jogo do treinador não comportaria o holandês em sua forma mais recente.

No entanto, Sneijder poderia ser muito útil em partidas mais fechadas, como a que a Inter perdeu nesta segunda, contra o Parma. Fez-se notar a falta de um meio-campista que pudesse furar a defesa com passes açucarados ou chutes de longa distância. No meio-campo, não há jogadores com características semelhantes às suas e, principalmente, com sua qualidade técnica. Diferentemente de Pato, que já tem quem o substitua no Milan, a ausência de Sneijder ainda pode pesar em alguns jogos para a Inter, uma vez que ele não tem herdeiros no elenco, e uma mudança de filosofia de jogo e esquema tático raramente tem efeitos contra qualquer equipe e sob qualquer circunstância. Entre os meias ofensivos da Inter, Coutinho fez boa pré-temporada e ensaiou assumir uma vaga no time titular, mas acabou perdendo ritmo graças a uma lesão. E Álvarez, desde que chegou, em 2011, tem se mostrado um engodo. Se quiser, Sneijder pode voltar a ter lugar no time.

Se quiser, claro, já que o segundo motivo para o ostracismo de Sneijder na Inter é econômico. Hoje, para a Beneamata, não há justificativas para gastar € 6 milhões anuais com um jogador que passa boa parte do tempo no departamento médico, sobretudo porque o clube passa por uma fase de readequação de sua política de salários. Sneijder ainda pode ajudar muito a equipe, e todo o staff técnico e diretivo da Inter sabe disso. Porém, para continuar em Appiano Gentile, o jogador teria que ampliar seu contrato até 2017, aceitando uma cláusula que prevê uma redução gradativa de seus salários para € 4 milhões anuais. Com o suposto interesse de Manchester United, PSG, Zenit e Fenerbahçe, que podem pagar salários mais altos, a vontade do jogador permanecer será decisiva.

Por enquanto, a pergunta que fica no ar é: existe futuro para Pato e Sneijder em Milão?

Pallonetto

– Mais uma vez, a partida entre Milan e Juventus foi decidida com erro grotesco da arbitragem. Se ano passado os árbitros não viram que uma cabeçada de Muntari cruzou a linha do gol, desta vez o tento que originou a vitória do Milan surgiu de um pênalti mal marcado pelo árbitro de linha Andrea De Marco, por toque de braço inexistente de Isla. Allegri admitiu que o gol foi irregular e a comunidade juventina preferiu não polemizar. Melhor assim.

– Parece que o Milan voltou a entrar nos eixos. Jogando no 4-3-3, a equipe ainda não desempenha um futebol primoroso, mas está encontrando um rumo. Contra a Juventus, fez sua melhor partida no ano e chegou a três partidas sem perder.

– Mesmo com a derrota para o Milan, a Juventus mantém a liderança. Agora, a Juve tem dois pontos de vantagem sobre o Napoli, novo vice-líder depois do tropeço da Inter.

– A Inter perdeu para o Parma por 1 a 0 e chegou a quatro partidas sem vitória somando todas as competições. Desde que venceu a Juventus, a equipe de Milão não voltou a vencer na Serie A. Nos últimos jogos, Stramaccioni foi muito lento para fazer mudanças na equipe e evidenciou o grande defeito do seu início de carreira: a indecisão durante as partidas.

– Desfalcada e sofrendo com lesões de jogadores ao longo da partida contra o Torino, a Fiorentina comemorou o empate por 2 a 2 como se fosse uma vitória. O resultado mostrou algumas limitações da equipe, mas também o grande poder de reação florentino.

– Em uma rodada de poucos gols (apenas 17), surpreendeu o magro 1 a 0 da Roma sobre o Pescara. Era o reencontro de Zdenek Zeman, técnico da Roma, com sua antiga equipe, que manteve o jogo ofensivo e de poucos cuidados na defesa, mas o placar frustrou a todos.

– No dérbi siciliano, melhor para o Palermo. A equipe fez 3 a 1 sobre o Catania, mas comemorou também a volta da boa forma de Ilicic. O meia-atacante esloveno fez ótima temporada, dois anos atrás, mas vinha jogando mal há muito tempo. Marcou dois gols no jogo e teve atuação de gala.

– Seleção Trivela da 14ª rodada: Frey (Genoa); De Sciglio (Milan), Paletta (Parma), Britos (Napoli), Constant (Milan); Cerci (Torino), Mauri (Lazio), Ilicic (Palermo), Biabiany (Parma); Miccoli (Palermo), Klose (Lazio). Técnico: Roberto Donadoni (Parma).

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