Serie A

Os 60 anos de Walter Zenga, o super-herói da Inter que marcou época na Serie A

Grandes goleiros costumam definir épocas em seus clubes. A torcida da Internazionale, saudosa, não se esquece dos anos em que teve Walter Zenga em sua meta. Criado nas categorias de base da Beneamata e também nas arquibancadas do San Siro, o camisa 1 defendeu os nerazzurri com máxima dedicação. Firmou-se como um dos melhores arqueiro da história e, talvez, o nome mais marcante da posição na era dourada da Serie A. Eleito o melhor goleiro do mundo por três anos consecutivos, entre 1989 e 1991, Zenga possuía um estilo tão plástico quanto elegante de proteger sua meta. Ganhou o apelido de ‘Asa Delta’, com voos altos e gloriosos – inclusive com a seleção italiana.

A relação de Zenga com o gol começa antes mesmo de seu nascimento. Seu pai, Alfonso, também atuou na posição por clubes amadores e teve uma rápida passagem pelo Napoli durante os anos 1940. Desta maneira, Walter recebeu as primeiras lições em casa. E o pai seria capaz até mesmo de cometer uma loucura para acelerar o desenvolvimento do menino. Quando Zenga tinha nove anos, Alfonso resolveu colocá-lo em seu primeiro clube, embora apenas garotos acima dos dez anos pudessem ser inscritos. O que ele fez? Falsificou a certidão de nascimento, substituindo o 28 de abril de 1960 por 28 de abril de 1959. A equipe logo percebeu a farsa, mas Alfonso assumiu a responsabilidade e, passado o período, usaria a certidão de nascimento “original”.

Zenga também não demorou a se apaixonar pela Internazionale. Nascido em Milão, o garoto cresceu em uma década bastante prolífica ao clube, em tempos abastados sob as ordens de Helenio Herrera. As glórias se tornariam mais esparsas a partir da saída do treinador, mas nada que atrapalhasse o sonho do prodígio. E logo ele seria descoberto pelos olheiros da Inter: em 1971, o goleiro ingressaria nas categorias de base dos nerazzurri, aos 11 anos. Poderia aprimorar o seu talento, assim como a sua paixão pela camisa.

Quando Zenga chegou aos 18 anos, a Internazionale decidiu que seria melhor a ele ganhar rodagem nas divisões de acesso do Campeonato Italiano. Assim, a promessa comeu poeira nos rincões do Calcio. Começou como reserva da Salernitana na terceirona, antes de assumir a titularidade do Savona na quarta divisão. Já a verdadeira ascensão ocorreria na Sambenedettese. Na temporada de 1980/81, Zenga foi um dos destaques na equipe que conquistou o acesso à Serie B, com apenas 19 gols sofridos em 33 partidas. Ficaria mais um ano por lá, ajudando a agremiação a se manter na segundona, terminando o campeonato numa digna oitava colocação.

A Internazionale abriu as portas para Zenga na temporada 1982/83. O jovem, contudo, precisaria se contentar com a reserva naquele primeiro momento. O titular nerazzurro era Ivano Bordon, ídolo absoluto do clube e uma das grandes figuras no Scudetto de 1979/80. Aos 31 anos, o veterano acabara de ser campeão do mundo com a seleção, na reserva de Dino Zoff, e era cotado como seu natural sucessor quando o capitão resolvesse se aposentar. Já em Milão, era Zenga quem precisava ter paciência como herdeiro da camisa 1.

No entanto, a mudança na meta da Inter seria bem mais rápida que o esperado. Bordon ficou apenas mais uma temporada no clube, antes de aceitar uma proposta da Sampdoria. Zenga não entrou em campo pela Serie A em 1982/83, mas acumulou boas atuações nas chances que ganhou durante a Copa da Itália e convenceu a diretoria de que ele seria o dono do posto em 1983/84. Os interistas até trouxeram novas opções ao setor, incluindo a presença do rodado Angelo Recchi, que se destacara no Cesena. De qualquer forma, aos 23 anos, Zenga desfrutava da confiança do técnico Luigi Radice e disputou todas as 30 rodadas do Italiano.

A Internazionale encerrou a Serie A 1983/84 na quarta colocação, muito graças às atuações de Walter Zenga. O goleiro sofreu apenas 23 gols e terminou como o menos vazado da competição. Cairia logo nas graças da torcida, não apenas pelo fato de ser um prata-da-casa ou por seu histórico como torcedor que frequentava as arquibancadas: ficava claro que o clube contava com um dos melhores goleiros do país. Não à toa, Zenga também recebia suas primeiras chances na seleção e fez parte do elenco que disputou os Jogos Olímpicos de 1984. A Azzurra sucumbiu nas semifinais em Los Angeles, diante do Brasil.

Após a contratação de Karl-Heinz Rummenigge, a Inter montava uma equipe que pretendia conquistar grandes títulos. Todavia, aquele período seria marcado pelos insucessos dos nerazzurri, que se aproximaram das taças sem poder tocá-las. Entre 1984/85 e 1985/86, o time seria por duas vezes semifinalista da Copa da Uefa, em ambas eliminado pelo Real Madrid. Também seria terceiro colocado na campanha da Serie A vencida pelo Verona, em 1985. Zenga, pelo menos, se estabelecia como uma figura de grande reputação no Calcio. Os milagres se repetiam sob as traves, permitindo à torcida esperar por uma mudança em sua sorte dentro dos próximos anos.

Zenga sequer tinha estreado pela seleção, quando ganhou a convocação para sua primeira Copa do Mundo em 1986. O jovem seria a terceira opção no elenco comandado por Enzo Bearzot. Giovanni Galli e Franco Tancredi, os escolhidos da época, não transmitiam a mesma confiança e o posto deixado por Dino Zoff seguia sem dono. Zenga passaria assumi-lo depois do Mundial, realizando sua estreia durante amistoso contra a Grécia em agosto de 1986. A partir de então, seria intocável sob as ordens de Azeglio Vicini – apesar da concorrência de Stefano Tacconi, seu amigo e titular da Juventus na metade final dos anos 1980.

A partir de 1986/87, a Internazionale passou a viver uma nova era sob as ordens de Giovanni Trapattoni. O treinador aceitou uma proposta da Beneamata, após empilhar títulos com a Juventus, e vinha para restabelecer a equipe como uma potência nacional. O processo ainda demorou um pouco a acontecer. Nas duas primeiras temporadas sob as ordens de Trap, a Inter não teve fôlego para acompanhar Napoli e Milan no topo da Serie A. Algumas das apostas feitas pelo clube no mercado de transferências também não deram certo e até mesmo o técnico vitorioso sofria seus questionamentos. Um ponto fora da curva era Zenga, inquestionável sob as traves. Em 1986/87, o arqueiro teve um desempenho absurdo e sofreu míseros 16 gols em 29 partidas, outra vez o menos vazado no campeonato.

Se ainda faltava algo para a Inter se erigir novamente como campeã, esta lacuna não se encontrava no gol. Pelo contrário, Zenga cresceu ainda mais naquele período com Trapattoni. O goleiro tinha personalidade forte e ascendeu naturalmente como uma liderança dentro dos vestiários. Além disso, sua forma dentro de campo falava por si. Com um estilo mais clássico, o camisa 1 preferia esperar os atacantes adversários e frustrá-los com sua explosão sob os paus. Seus saltos e o ótimo tempo de reação eram virtudes, bem como a habilidade para encaixar a bola sem dar rebote. A qualidade técnica potencializava sua confiança.

Em 1988, Zenga disputou a Eurocopa e foi titular nas quatro partidas da Azzurra. A equipe avançou de fase, mas caiu diante da União Soviética na semifinal. A volta por cima do goleiro aconteceria em 1988/89, sua grande temporada com a Internazionale. Trapattoni fez o time investir pesado no mercado de transferências, com as contratações principais de Lothar Matthäus, Andreas Brehme e Ramón Díaz. A equipe se encaixaria perfeitamente e nadaria de braçada, numa das melhores campanhas da história da Serie A. O título veio com 58 pontos conquistados em 68 possíveis e somente duas derrotas.

Numa época de poucos gols no Calcio, o desempenho ofensivo da Inter seria mais marcante. Mas não que Zenga fosse um mero coadjuvante. Pelo contrário, o goleiro outra vez liderou a melhor defesa do campeonato e sofreu apenas 19 gols em 33 partidas. Suas atuações mais notáveis aconteceram nos confrontos diretos, quando a Beneamata pôde estabelecer sua vantagem sobre Napoli e Milan. Colecionou defesas no clássico do San Siro durante a nona rodada e fechou o gol no 0 a 0 do San Paolo, para evitar que os napolitanos encostassem na tabela de classificação. A conquista se consumou com quatro rodadas de antecedência. Carregado nos braços da torcida, enfim, o goleiro era campeão por seu clube de coração.

A Inter não manteve o ritmo na temporada seguinte. Terminou na terceira colocação da Serie A e Zenga falhou na eliminação diante do Malmö pela Copa dos Campeões. Independentemente disso, o goleiro seguia incólume na seleção italiana e vestiria a camisa 1 na Copa do Mundo de 1990. As expectativas sobre a Azzurra eram enormes, não apenas pelo fato de jogar dentro de casa, como também pela quantidade de estrelas à disposição de Azeglio Vicini. No fim das contas, Zenga acabou entre os protagonistas da equipe nacional em sua caminhada até as semifinais do torneio.

A Itália tinha uma linha defensiva fantástica naquela Copa. Inter e Milan se combinavam na zaga, com o trio central formado por Giuseppe Bergomi, Franco Baresi e Riccardo Ferri. Já Zenga reforçava a trincheira milanesa e brilhou ao longo do Mundial. Durante as cinco primeiras partidas, a Azzurra não sofreu um gol sequer. Foram 517 minutos de invencibilidade, até que Claudio Caniggia vencesse Zenga na semifinal contra a Argentina. O tento forçou o empate por 1 a 1 e, nos pênaltis, a Albiceleste avançou à decisão. A hesitação na hora de sair da pequena área para interceptar o cruzamento colocou o goleiro no papel de vilão e gerou muitas críticas. Apesar disso, seu recorde de 517 minutos continua intacto na história das Copas.

No retorno à Internazionale, Zenga ganharia motivos para comemorar. O clube voltou a conquistar um título importante em 1990/91, faturando a Copa da Uefa, em decisão vencida sobre a Roma. O goleiro também desempenharia um papel fundamental naquela campanha, sofrendo apenas dois gols nos oito jogos a partir das oitavas de final. Aquela taça, entretanto, colocaria um ponto final na passagem de Trapattoni pela Beneamata. E, na temporada seguinte, o “trio alemão” (também com a adição de Jürgen Klinsmann desde 1989/90) seria desfeito após uma campanha modesta na Serie A.

Ao mesmo tempo, Zenga se despediria da seleção italiana. O goleiro manteve sua posição no ciclo posterior à Copa do Mundo, mas a campanha insuficiente nas eliminatórias da Euro 1992 provocou mudanças. Azeglio Vicini deu lugar a Arrigo Sacchi, que iniciaria a preparação ao Mundial de 1994. Zenga ainda se manteve nos primeiros compromissos com o antigo comandante do Milan, mas deixaria de ser chamado a partir do segundo semestre de 1992. Passaria o bastão a Gianluca Pagliuca, um arqueiro mais acostumado às saídas de gol e às movimentações que Sacchi exigia em sua defesa. Zenga esteve em campo 58 vezes pela equipe nacional, atrás apenas de Gianluigi Buffon e Dino Zoff. Possui ainda a absurda marca de apenas 21 gols sofridos e 40 partidas partidas sem ser vazado.

A partir de 1992/93, a Inter também se renovou de maneira mais intensa. Osvaldo Bagnoli, que havia sido campeão com o Verona, assumiu o comando técnico e a diretoria apostava em uma nova fornada de reforços – que incluía Rubén Sosa, Igor Shalimov, Salvatore Schillaci, Darko Pancev e Matthias Sammer. Os nerazzurri terminaram a Serie A na segunda colocação, a quatro pontos do Milan. Já em 1993/94, mesmo com a adição de Dennis Bergkamp, a Beneamata começou mal o Campeonato Italiano e Bagnoli seria demitido no meio do caminho, diante dos riscos de rebaixamento. Apesar disso, Gianpiero Marini garantiu o 13° lugar e conduziu os interistas a mais um título na Copa da Uefa, faturada em cima do Austria Salzburg na final.

Zenga tinha 34 anos e segurava seu posto na Internazionale, mas sem o mesmo nível impressionante de outrora. As críticas das arquibancadas se tornaram comuns e, após uma chuva de objetos em sua área, o veterano chegaria a deixar o gramado às lágrimas. Aquela seria a sua última temporada em Milão, eternizando uma inesquecível impressão final com sua atuação na decisão da Copa da Uefa. Após o Mundial de 1994, a diretoria da Inter resolveu buscar o novo titular da seleção: veio Pagliuca, em troca que envolveu a cessão de Zenga mais o pagamento de 12 milhões de liras italianas à Sampdoria. Depois de 11 temporadas consecutivas como titular, o camisa 1 se despedia da torcida no San Siro. O veterano disputou 473 jogos pela Beneamata, um recorde do clube entre goleiros, sem ser vazado em 194 deles.

A carreira de Zenga não demoraria a entrar em declínio. O goleiro disputou apenas uma temporada como titular na Sampdoria, mas sem grande desempenho. Acumulando lesões, perderia a posição a Angelo Pagotto na campanha seguinte. Já em 1996/97, disputou a Serie B com a camisa do Padova, antes de se mudar aos Estados Unidos. Zenga aproveitou sua fama para atuar por três temporadas consecutivas na recém-criada MLS, defendendo a meta do New England Revolution. Aposentaria-se aos 39 anos, em 1999, com problemas no joelho.

Naquela época, Zenga já fez a ponte à sua trajetória como treinador. Comandou o Revolution em sua última temporada, antes de rodar a Europa Oriental no início de sua carreira na casamata. O ex-goleiro levou o Steaua Bucareste ao título romeno em 2005, antes de conquistar a dobradinha na Sérvia com o Estrela Vermelha. Também trabalhou em países árabes, até ganhar as primeiras chances na Serie A em 2008, quando salvou o Catania do rebaixamento. O antigo ídolo sempre dirigiu equipes médias e não aproveitou suas melhores chances, como quando esteve à frente da Sampdoria. Já em março deste ano, foi anunciado pelo Cagliari, antes da paralisação das competições.

O momento mais emocionante de Zenga como técnico na Serie A ocorreu dentro do próprio San Siro, em fevereiro de 2018. À frente do modesto Crotone, o treinador tentava evitar o rebaixamento e arrancou um valioso empate por 1 a 1, que frustrou a Internazionale. E, embora a torcida tenha vaiado a equipe da casa, guardou seu melhor no reencontro com a lenda. O veterano recebeu muitos aplausos dos nerazzurri, além de ouvir gritos de “só há um Walter Zenga”. Também retribuiu, ao dar seus saltinhos quando os interistas passaram a cantar “quem não pula é rossonero”. Não se nega uma história que vem desde a infância e está arraigada dentro do clube, representando algumas das maiores glórias.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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