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Os 40 anos do segundo scudetto da Roma, enfim protagonista no Calcio

Com Falcão como o craque do time, a Roma ainda tinha um elenco com Bruno Conti e Carlo Ancelotti que marcaria época na conquista do scudetto de 1983

Há exatos 40 anos, Roma se tornava a capital do Calcio. Com a conquista de seu segundo scudetto, mais de quatro décadas após o primeiro, os giallorossi dirigidos pelo sueco Nils Liedholm e tendo em Falcão uma figura de relevo no meio-campo enfim assumiam um status de potência no futebol italiano exibindo um time versátil, ofensivo e de muita qualidade técnica. Aquela temporada, que se seguiu à conquista do Mundial da Espanha pela seleção italiana, também se revelaria o ponto culminante de uma era especial para a Roma: a primeira metade dos anos 1980. Um momento em que o clube despertava da longa letargia.

O “maior campeonato do pós-guerra”

Nils Liedholm, técnico da Roma

A temporada 1982/83 da Serie A italiana se revelaria especial desde antes de seu pontapé inicial, com o país ainda em êxtase diante da conquista da Copa do Mundo na Espanha no início de julho. O baixo astral provocado pelo escândalo do Totonero e pela conturbada Eurocopa de 1980 jogada em solo italiano parecia pertencer a um passado distante. Ainda mais depois que, na esteira do inesperado sucesso da Azzurra, a federação aceitou aumentar para dois o número de jogadores estrangeiros permitidos por clube na divisão principal.

A medida tornou a poderosa Juventus, bicampeã, ainda mais favorita ao tri: não satisfeita em ostentar nada menos que seis campeões do mundo (Dino Zoff, Claudio Gentile, Gaetano Scirea, Antonio Cabrini, Marco Tardelli e Paolo Rossi, todos titulares da seleção), mais o atacante Roberto Bettega, afastado do Mundial por lesão, a Vecchia Signora aproveitou para preencher as duas vagas com dois grandes destaques da Copa: o meia francês Michel Platini (do Saint-Étienne) e o atacante polonês Zbigniew Boniek (do Widzew Lódź).

A torcida bianconera, entretanto, não ficou de todo feliz: a chegada da dupla significava que pela outra porta saía o talentoso armador irlandês Liam Brady, ex-Arsenal, ídolo dos tifosi e cérebro do meio-campo da equipe bicampeã em 1980/81 e 1981/82 sob o comando de Giovanni Trapattoni – que mirava não só o terceiro scudetto seguido como o inédito título da Copa dos Campeões. De todo modo, a Juve se mantinha indiscutivelmente como o time mais forte daquele que a imprensa tratava como “o maior campeonato do pós-Guerra”.

Duas ausências, porém, chamavam a atenção: a maior era a do Milan, que depois de ser rebaixado como punição por envolvimento no Totonero, havia subido e caído de novo, agora em campo, na temporada anterior. A outra, quase tão sentida, era a do tradicional Bologna, que amargara seu primeiro descenso após ter disputado todas as edições da Serie A desde a criação da categoria, em 1929/30. Por outro lado, dois clubes que escreveriam seus nomes no rol de campeões do Calcio pelos anos seguintes tomavam o elevador de subida.

Com efeito, Sampdoria e Verona seriam as sensações do campeonato – ao menos naquele início de competição. Os blucerchiati de Renzo Uliveri largaram enfileirando três vitórias sensacionais sobre Juventus, Internazionale (em San Siro) e Roma, alcançando a liderança isolada da tabela na terceira rodada. E com um toque “britânico”: seus forasteiros eram o meia irlandês Liam Brady (o descartado pela Juventus) e o atacante inglês Trevor Francis, herói do Nottingham Forest no título da Copa dos Campeões de 1979, mas vindo do Manchester City.

Já os glalloblù de Osvaldo Bagnoli sofreriam mais no início, mas cumpririam campanha bem mais consistente. Com duas derrotas de saída, o time do brasileiro Dirceu – contratado do Atlético de Madrid – chegaria a ocupar a lanterna. Mas uma vitória sobre a Juventus na terceira rodada deu início a uma espantosa série invicta de 17 partidas – mesmo sem poder contar com seu outro reforço estrangeiro, o zagueiro polonês Wladysław Zmuda, que só fez duas partidas após sofrer grave lesão no joelho, agravada por uma cirurgia malfeita.

No meio do caminho, o Verona ocuparia a liderança por duas rodadas, além de permanecer por quase metade da temporada na segunda colocação, com chances reais de brigar pelo scudetto. Terminaria em quarto, garantindo uma das vagas na Copa da Uefa – o que escaparia à Sampdoria, sétima colocada. De todo modo, era o prenúncio de anos gloriosos a serem vividos por aqueles recém-promovidos: para o Verona, chegariam e acabariam mais cedo; ao passo que, para a Samp, ainda se estenderiam até a metade da década seguinte.

Fora as eventuais surpresas (e na ausência do Milan), outras três equipes foram colocadas no rol das principais candidatas a impedir o tri da Juventus. Uma era a Fiorentina, que liderara boa parte da temporada anterior, mas perdera o scudetto numa última rodada traumática. Reforçado pelo líbero argentino Daniel Passarella e pelo volante Patrizio Sala (campeão com o Torino em 1976), o time dirigido pelo antigo ídolo Giancarlo De Sisti ganhava experiência no jovem setor defensivo, mantendo a força e a qualidade na criação e no ataque.

Já a Internazionale, que conquistara um então raro título da Copa da Itália na temporada anterior, trocara de técnico: saíra Eugenio Bersellini e entrara Rino Marchesi, vindo de bons trabalhos no Napoli. E além de trazer o atacante brasileiro Juary (do Avellino) e o meia alemão-ocidental Hansi Müller (do Stuttgart), ganhou mais um nome da Azzurra ao pegar do arquirrival Milan o zagueiro Fulvio Collovati, cedendo em troca três jogadores por empréstimo: o zagueiro Nazareno Canuti, o meia Giancarlo Pasinato e o atacante Aldo Serena.

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A esperança da capital

Falcão, Ancelotti, Tancredi, Vierchowod e Di Bartolomei

E então havia a Roma, uma equipe em franca ascensão desde a chegada do antigo craque sueco Nils Liedholm ao comando do time, em 1979, vindo de levantar o scudetto com o Milan. Aquela era sua segunda passagem pelo clube da capital, após ocupar o cargo entre dezembro de 1973 e junho de 1977. Neste segundo período, já de saída ele levou o time a vencer a Copa da Itália nos dois primeiros anos e brigar até o fim pelo título em 1981/82, além de ficar 30 partidas invicto na Serie A de novembro de 1980 a novembro de 1981.

Analisando numa perspectiva mais ampla, porém, a Roma era um clube que ainda precisava “se explicar” no âmbito nacional. Fundada apenas em 1927 da fusão de três outros clubes da capital, havia levantado seu único scudetto até ali em 1941/42 – conquista sobre a qual durante muito tempo pairou a lenda de que teria sido obra da vontade do ditador Benito Mussolini, acusação que não encontra base em nenhuma evidência: quem a lançou foi o treinador argentino Helenio Herrera, notório falastrão, ao ser demitido do clube em 1971.

De todo modo, desde aquela conquista a Roma foi construindo uma trajetória de coadjuvante na Serie A: nos anos que sucederam o fim da Segunda Guerra Mundial acumulou más campanhas, culminando em seu único rebaixamento, na temporada 1950/51. Voltaria logo no ano seguinte, mas sem passar a brigar de fato pelo título da liga: entre 1952 e 1980, esteve apenas duas vezes entre os quatro melhores do campeonato, com dois terceiros lugares em 1954/55 e 1974/75 (esta, na primeira passagem de Liedholm pelo clube).

O que houve foram conquistas esporádicas em torneios eliminatórios: a Roma havia vencido a Copa da Itália em 1964 e 1969 e levantado um caneco europeu (ainda que não organizado pela Uefa) na Copa das Cidades com Feiras em 1961, superando Union St. Gilloise, Colônia, Hibernian e, na final, o Birmingham City. As demais taças haviam vindo em competições de menor peso, como a edição de 1972 da curiosa Copa Anglo-Italiana, na qual os giallorossi bateram o Blackpool na final em partida única no Estádio Olímpico.

Recontratado pelo recém-empossado presidente Dino Viola, Liedholm começaria a reformular o elenco já ao chegar, dispensando alguns veteranos e outros jogadores em fim de ciclo no clube e construindo nova espinha dorsal para formar uma equipe competitiva e que se anunciava perto do grande salto desde a temporada 1980/81, a primeira após a reabertura dos portos do Calcio aos jogadores estrangeiros, quando disputou o scudetto com a Juventus até a última rodada, após um polêmico empate no confronto direto do returno.

E quem exerceria dentro de campo papel fundamental nesse salto de competitividade seria um brasileiro: o meia Paulo Roberto Falcão, o primeiro estrangeiro contratado pela Roma logo quando da abertura dos portos, pelo qual o clube desembolsou US$ 1,5 milhão pagos ao Internacional no início de agosto de 1980. Sua onipresença em campo simbolizava muitas das características táticas mais marcantes implementadas por Liedholm na equipe: marcação por zona, rotação constante do meio-campo e pressão intensa ao oponente.

O elenco

Elenco da Roma no álbum do Campeonato Italiano de 1982/83

Para a temporada 1982/83, o técnico sueco receberia um pacote de reforços bem diversificado. Dois laterais experientes (Michele Nappi, ex-Perugia, e Aldo Maldera, ex-Milan); um zagueiro em ascensão (Pietro Vierchowod, cedido pela Sampdoria após defender a Fiorentina no ano anterior, também por empréstimo); um armador para ocupar a segunda vaga de estrangeiro (o austríaco Herbert Prohaska, da Inter); um meia jovem e promissor da Serie C (Claudio Valigi, ex-Ternana); e um atacante vice-artilheiro da Serie B (Maurizio Iorio, do Bari).

Nem todos seriam titulares, mas mesmo os suplentes teriam boa sequência de jogos, em especial no início da temporada, quando algumas peças-chave se recuperavam de lesões. Era o indicativo de que a Roma agora contava com um elenco mais enxuto, porém mais qualificado que em outras temporadas. E mais versátil também, permitindo a Liedholm fazer experiências interessantes, que acabariam se firmando na equipe não só para aquele ano como para os próximos – inclusive uma ruptura tática com o então predominante “gioco all’italiana”.

O time-base dos giallorossi começava pelo goleiro Franco Tancredi, que chegou ao clube em 1977 vindo do Rimini e tomou a posição do veterano Paolo Conti durante a temporada 1980/81. Cria do pequeno Giulianova, chegou a passar dois anos no Milan, na reserva de Enrico Albertosi, em meados da década de 1970. Sua baixa estatura (apenas 1,76 metro) era compensada com grande coragem e agilidade, fazendo dele um ótimo pegador de pênaltis, como ocorreu nas duas decisões da Copa da Itália contra o Torino, em 1980 e 1981.

Diante de Tancredi jogava um sistema defensivo sui generis para o Calcio da época: em vez de um lateral marcador e outro apoiador, ambos eram ofensivos: Sebastiano Nela pela direita e Aldo Maldera pela esquerda. E no miolo, em vez da tradicional figura do líbero atrás do stopper, como zagueiro de sobra, só havia o homem de combate direto, Pietro Vierchowod, sendo o líbero substituído por um “regista arretrato” (“armador recuado”): o capitão Agostino Di Bartolomei, meia convertido para a função naquela temporada.

Caso raro de canhoto que se sentia à vontade atuando pela direita (embora pudesse ser escalado em ambos os lados), o jovem Nela era uma das revelações daquela Roma, à qual chegara em 1981, com apenas 20 anos, trazido do Genoa. O recém-contratado Maldera, por sua vez, era um dos mais experientes do elenco, tendo sido titular do Milan, onde foi revelado, por quase uma década – inclusive conquistando o scudetto de 1978/79 sob o comando de Liedholm – e atuado pela seleção italiana na Copa do Mundo de 1978.

Em uma defesa que gostava de atacar, a missão de segurar as pontas e garantir o equilíbrio era de Vierchowod: marcador implacável, veloz, forte no jogo aéreo apesar de não ser tão alto, apareceu ainda muito jovem no Como, pelo qual chegou à Azzurra, antes de ser vendido à Sampdoria, então na Serie B, que o repassou à Fiorentina por empréstimo. Como jogador da Viola, esteve no grupo campeão mundial pela Itália na Copa de 1982, mas sem entrar em campo nenhuma vez devido a lesão. Aquela seria sua única campanha na Roma.

Já Di Bartolomei era a peça que tornava flexível o 4-3-3 tornado 3-4-3 de Liedholm. Atuando mais adiantado em relação a Vierchowod e recuando para fazer a saída de jogo, era bem diferente dos líberos italianos da velha escola. De início tido como lento para a tarefa, embora forte fisicamente, demonstrou que sua inteligência e qualidade no passe – além da velocidade de seu companheiro de zaga – compensavam amplamente a mudança de posição. Não raro se lançava ao ataque como elemento surpresa, além de ser exímio cobrador de faltas.

Revelado na base da Roma e atleta com mais tempo de clube naquele elenco (desde 1972, exceto por um empréstimo ao Lanerossi Vicenza em 1975/76), “Diba” era o capitão da equipe, “um líder silencioso e tímido”, como o descreveu uma homenagem feita pela Federação Italiana em 2014. Responsável pela transição entre os setores, unia-se ao trio de meio-campistas que formavam o coração daquele estilo bastante fluido de jogo da equipe de Liedholm: o italiano Carlo Ancelotti, o brasileiro Falcão e o austríaco Herbert Prohaska.

Ancelotti, o motor do meio-campo giallorosso

De perfil semelhante a Di Bartolomei, Ancelotti era incansável na cobertura dos espaços no meio-campo e nas laterais, tinha grande senso tático, qualidade com a bola nos pés e, aos 23 anos, uma rara maturidade para sua idade. Falcão, por sua vez, era provavelmente o jogador brasileiro de sua geração mais talhado para atuar no Calcio: esguio, dinâmico, inteligente e com preparo físico invejável, funcionava como um autêntico “box-to-box”. Já Prohaska era um armador mais cerebral, de estilo refinado e especialista nos passes verticais.

Na frente, havia a criatividade, o drible e a movimentação de Bruno Conti, apontado como um dos melhores jogadores da Copa do Mundo na Espanha. Outro canhoto que jogava pela direita, também caía às vezes pela ponta oposta quando fosse necessário. Ainda garoto, jogava beisebol e surgira como promessa no Nettuno, clube de sua cidade e um dos principais da modalidade no país. Mas deixou de lado inclusive uma bolsa de estudos nos Estados Unidos para seguir carreira no futebol – e, sem dúvida, não se arrependeria.

Recusado na Internazionale de Helenio Herrera pela baixa estatura (1,69 metro), mesmo com seu evidente talento, chegou à Roma aos 18 anos, em 1973, e se profissionalizou no clube, do qual se tornaria símbolo, atuando por quase duas décadas, até 1991 (exceto por duas passagens por empréstimo pelo Genoa em 1975/76 e 1978/79, ambas na Serie B). Plenamente estabelecido como titular da seleção italiana, pela qual havia estreado em outubro de 1980, era o nome de maior prestígio entre os italianos do elenco giallorosso.

Pelo centro do ataque estava Roberto Pruzzo, típico homem de área, um dos grandes goleadores italianos de sua geração. Revelado no Genoa, de onde veio para a Roma em 1978, já havia sido o artilheiro da Serie A nas temporadas 1980/81 e 1981/82 (e seria pela terceira vez em 1985/86). Maior goleador do clube até ser superado por Francesco Totti (ainda lidera a lista quanto à Copa da Itália), o “bomber” foi, porém, intrigantemente subutilizado na seleção italiana durante toda a sua carreira prolífica de uma década com os capitolini.

Por fim havia Maurizio Iorio, atacante combativo e solidário que fazia o vai e vem pela faixa central, dando suporte a Pruzzo. Fisicamente, porém, assemelhava-se mais a Bruno Conti. Revelado pelo pequeno Vigevano, da Serie C, era bastante rodado apesar de jovem (23 anos): passara por Foggia, Torino e Ascoli antes de chegar ao Bari e fazer duas boas campanhas na Serie B. Na segunda, em 1981/82, foi o vice-artilheiro da liga com 18 gols (um a menos que Gianni de Rosa, do Palermo), sem obter, no entanto, o acesso. De lá veio para a Roma.

O início da campanha

Conti e Ancelotti. Peças fundamentais na equipe

Sofrendo com desfalques nas primeiras rodadas (os lesionados Ancelotti e Bruno Conti foram as baixas mais frequentes), a Roma largou oscilando tanto em resultados quanto em desempenho: na estreia, boa vitória de 3 a 1 sobre o Cagliari na Sardenha com o ponteiro reserva Paolo Faccini abrindo o placar, ampliado com gol contra de Sandro Loi. Luigi Piras diminuiu para os locais, mas Iorio definiu o triunfo para os visitantes. A surpresa da rodada foi a derrota da campeã Juventus para a recém-promovida Sampdoria em Gênova por 1 a 0.

Uma semana depois, a Roma quase se complicou diante de outro neopromosso, o Verona, dentro do Estádio Olímpico: os scaligeri acertaram o travessão e desperdiçaram pelo menos três chances claras em contra-ataques fulminantes, pegando no mano a mano a defesa giallorossa, salva por Tancredi. Até que, nos acréscimos da etapa final, o goleiro Claudio Garella derrubou Falcão na área, e Di Bartolomei converteu o pênalti decretando a vitória dos anfitriões por 1 a 0. Enquanto isso, a Samp aprontava de novo: 2 a 1 na Inter em Milão.

Na terceira rodada seria a vez de os romanos encararem a sensação daquele início de campeonato em Marassi. Também eles sairiam derrotados: o único gol na vitória dos blucerchiati por 1 a 0 sairia dos pés de um jovem atacante de 17 anos pescado no rebaixado Bologna chamado Roberto Mancini, que recebeu lançamento magistral de Liam Brady e ganhou de Di Bartolomei na corrida e chutou vencendo Tancredi. O resultado desalojou a Roma temporariamente da liderança e fez da Sampdoria a única equipe com 100% de aproveitamento.

Era um começo bem atípico na Serie A: não só a Juventus, detentora do scudetto e favorita ao tri, havia sofrido duas derrotas nos três primeiros jogos como também os outros três concorrentes já tinham perdido (naquela terceira rodada, a Fiorentina foi surpreendida em casa pela Udinese por 2 a 1). E a própria Sampdoria sucumbiria a essa imprevisibilidade na quarta rodada, ao perder na visita ao Pisa, também recém-promovido, por 3 a 2 – resultado que levou os nerazzurri da Toscana a alcançarem os blucerchiati no topo da tabela.

Quem também voltou a ocupar a ponta naquela rodada foi a Roma, graças a mais uma vitória com contornos dramáticos: 2 a 1 no Ascoli, com Prohaska abrindo a contagem e Pruzzo definindo num pênalti a nove minutos do fim – antes de os visitantes terem um gol (bem) anulado e acertarem a trave numa cobrança de falta. De oscilação em oscilação, os comandados do “Barone” Liedholm cumpririam sua melhor atuação naquela parte inicial do campeonato na semana seguinte, no San Paolo, diante de um Napoli perto da zona de descenso.

Havia uma escrita em jogo: a Roma não derrotava os partenopei pela Serie A há exatos dez anos (ou impressionantes 19 partidas), desde outubro de 1972. No San Paolo, o jejum era ainda maior: desde abril de 1971. E parecia que se estenderia quando Claudio Pellegrini abriu o placar para os donos da casa num escanteio ainda no primeiro minuto. Mas aos 37, viria o empate, numa falta lateral rolada por Prohaska para o chute de Iorio da entrada da área. Naquele momento, a Roma tomou para si o controle da partida, jogando tranquila.

Passar à frente no placar, portanto, era a consequência natural. E aconteceria aos 20 minutos da etapa final quando Maldera recebeu um escanteio curto e foi à linha de fundo cruzar para Nela testar firme para as redes. O golpe de misericórdia viria aos 33, com a bola circulando de pé em pé pelo ataque giallorosso até o chute na trave do ponteiro Odoacre Chierico, substituto de Conti, e a finalização dele próprio na sobra, vencendo o goleiro Luciano Castellini pela terceira vez. Era o fim do tabu e uma vitória para sonhar com o scudetto.

Conti retornaria na partida seguinte (assim como Ancelotti, vindo do banco), mas a vitória magra sobre o Cesena no Olímpico – 1 a 0, gol de Pruzzo de cabeça logo no início – assistida das tribunas por Gianni Agnelli, presidente honorário da Juventus, esfriou a empolgação após o grande triunfo contra o Napoli, embora posicionasse a equipe na liderança isolada ao fim daquela rodada, dois pontos à frente de Torino, Verona e Sampdoria. E ligou o sinal de alerta para o duelo de peso em Turim contra uma Juve que aos poucos se reabilitava.

Os giallorossi começaram muito bem a partida e marcaram logo aos cinco minutos com Chierico. Mas na etapa final, cederam à pressão da Juventus, que empatou com Platini – num gol que levou a reclamações de impedimento por parte da Roma quando o francês surgiu sozinho na segunda trave para empurrar a bola para as redes – e chegou à virada sete minutos depois com Gaetano Scirea, fuzilando Tancredi após passe de Boniek. A vitória por 2 a 1 recolocava a Juve no páreo, mas a Roma ainda era líder, agora ao lado do Verona.

Campeã de inverno

O austríaco Prohaska, toque de classe na criação

Depois de tanto oscilar, porém, a equipe de Liedholm reagiria com consistência: daquela derrota em Turim em diante, a Roma emendaria uma sequência invicta equivalente a quase um turno inteiro, sempre vencendo em seus domínios e colhendo preciosos empates fora de casa. Mas na primeira partida desta série, ainda houve drama: a virada de 3 a 1 sobre o Pisa obtida apenas nos 15 minutos finais com dois gols de Pruzzo (um de pênalti) e um de Maldera após Enrico Todesco ter colocado os toscanos na frente no primeiro tempo.

No empate em 1 a 1 com a Udinese (do zagueiro brasileiro Edinho) em Friuli dali a uma semana, os dois gols sairiam de cabeçadas após cobrança de falta: a Roma saiu na frente no primeiro tempo quando Falcão desviou uma bola centrada de muito longe por Prohaska, mas cedeu a igualdade a menos de dez minutos do fim da partida quando o iugoslavo Ivica Surjak testou para as redes o cruzamento de Franco Causio. Momentaneamente, os giallorossi seriam alcançados pelo Verona no topo da tabela, mas logo voltariam a liderar sozinhos.

Na décima rodada, uma vitória daquelas grandes, próprias de um time exibindo suas credenciais ao título: contra a Fiorentina no Olímpico, Pruzzo abre o placar logo aos quatro minutos e perde um pênalti (defendido por Giovanni Galli) aos 12, antes de Giancarlo Antognoni empatar também da marca da cal para os visitantes. Mas dois belos gols de Bruno Conti – um em jogada individual pouco antes do intervalo e outro num chutaço da intermediária aos 40 minutos da etapa final – estabelecem o placar de 3 a 1, tão categórico quanto a atuação.

Após um discreto 0 a 0 na visita ao lanterna Catanzaro, a Roma voltaria a levar a melhor num jogo importante: contra a Inter que havia ascendido à vice-liderança na rodada anterior. Após alguns sustos iniciais dos nerazzurri (como a falta cobrada pelo alemão Hansi Müller acertando a trave), a Roma aos poucos foi entrando no jogo e abriu a contagem em outra falta, num chute de longe de Falcão. Na segunda etapa, os capitolini ampliaram em contragolpe puxado por Nela e concluído por Iorio. No fim, Alessandro Altobelli diminuiu para 2 a 1.

A seguir, a Roma conseguiu somar um ponto na visita ao perigoso Avellino (1 a 1, gol de Prohaska) na última partida antes da virada do ano e, em 2 de janeiro, derrotou o Genoa em casa por 2 a 0, com um gol contra de Giuseppe Corti logo no primeiro minuto e uma bomba de Di Bartolomei em cobrança de falta na etapa final. Vitória que manteve os giallorossi com vantagem de um ponto (21 a 20) sobre o Verona na disputa do título simbólico de “campeão de inverno”, a ser decidido na rodada seguinte, a derradeira do primeiro turno.

No dia 9, a Roma viajaria para enfrentar o Torino (em quinto lugar e dono da defesa menos vazada) no Comunale, enquanto o Verona receberia a Sampdoria (já em declínio após o excelente início de campeonato). E ambos os confrontos terminariam com o placar de 1 a 1. Em Turim, graças a dois gols de cabeça: Ancelotti cruzou para Pruzzo abrir a contagem para os capitolini antes de, na etapa final, Franco Selvaggi centrar e Giuseppe Dossena testar para as redes o tento do Toro. E os giallorossi mantinham o ponto de vantagem na liderança.

Na abertura do returno, foi a vez de receber o Cagliari, cujo goleiro Nello Malizia cumpriu atuação destacada no primeiro tempo, parando o ataque romanista. Na etapa final, porém, não teve como evitar a cabeçada fulminante de Falcão logo aos três minutos após arrancada de Nela pela direita. O brasileiro, porém, quase passou de herói a vilão no fim, ao ser expulso após acertar cotovelada no meia Alberto Marchetti. Mas mesmo com um a menos a Roma conseguiu segurar a vitória por 1 a 0, aumentando a vantagem na tabela para dois pontos.

E o confronto seguinte seria justamente a visita ao ainda vice-líder Verona, invicto desde o duelo contra a equipe de Liedholm no turno. Com Valigi no lugar do suspenso Falcão, a Roma saiu na frente com um belo gol de Iorio, pegando rebatida da defesa e emendando um sem-pulo de fora da área. Mas dois minutos depois, Domenico Penzo escorou cruzamento da esquerda e empatou para os anfitriões. Com excelentes defesas de Tancredi e de Alberto Torresin, goleiro reserva dos gialloblù, o placar de 1 a 1 acabaria sendo o definitivo.

Em 30 de janeiro, ainda sem Falcão, a Roma bateu a Sampdoria – 1 a 0, gol de Iorio – e aumentou para três pontos a vantagem na liderança com o 0 a 0 entre Juventus e Verona. E nem mesmo quando o time perdeu um ponto no 1 a 1 com o Ascoli fora de casa (na volta do brasileiro após a suspensão) a vantagem diminuiu: na mesma rodada, o Verona tropeçou diante do Genoa em casa, 2 a 2. Falcão também seria personagem na semana seguinte: com a pausa no campeonato para a Azzurra jogar, ele viria ao Brasil curtir o Carnaval.

A reta final

Abraço coletivo na vitória sobre o Catanzaro. O scudetto bem perto

Na volta, a Roma obteria uma de suas grandes vitórias naquela campanha, enfrentando o Napoli do holandês Ruud Krol e do argentino Ramón Díaz. Seriamente ameaçados pelo descenso mesmo com seus grandes jogadores, os partenopei jogaram a vida na primeira etapa e quase complicaram para os romanistas: saíram na frente com Díaz e mesmo após sofrerem o empate com um gol de cabeça de Nela, poderiam ter passado de novo à frente se o argentino não tivesse desperdiçado chance clara diante de Tancredi aos 40 minutos.

Foi o ponto da virada. Três minutos depois, Ancelotti pegou uma sobra de defesa napolitana e pôs a Roma em vantagem perto do intervalo. O efeito anímico foi imenso: a Roma voltou amassando e logo aos três minutos, Di Bartolomei recebeu de Falcão na intermediária e arriscou dali mesmo, anotando o terceiro. O capitão anotaria também o quarto em cobrança de falta. E Pruzzo marcaria o quinto. O Napoli, algoz romanista por um longo período, ainda descontou para 5 a 2, mas havia sido irremediavelmente batido tanto em casa quanto fora.

Tudo era festa: além da goleada enfática, naquele momento a Roma abria cinco pontos de frente para o Verona, derrotado por 3 a 0 na visita ao Avellino, e seis para Inter (batida pelo Torino em casa, 3 a 1) e Juventus (que vencera a Fiorentina por 3 a 0 e encostara no terceiro lugar). Com dois terços de campeonato já transcorridos, a caminhada romanista rumo ao scudetto parecia cada vez mais firme. E o mês de fevereiro terminaria com o empate em 1 a 1 na visita ao Cesena, com Pruzzo anotando o tento dos giallorossi.

Março, no entanto, chegaria com duplo contratempo. No dia 2, a Roma voltaria à ação pela Copa da Uefa após ter deixado pelo caminho o Ipswich (campeão do torneio em 1981), o IFK Norrköping e a forte equipe do Colônia. Agora, o adversário era o tradicional Benfica, que não se intimidou com o Estádio Olímpico e largou na frente no confronto, vencendo por 2 a 1 na capital italiana na partida de ida. Mau sinal às vésperas do embate crucial com a Juventus, também em casa, pela 22ª rodada da Serie A, marcado para o dia 6.

A equipe de Giovanni Trapattoni havia atravessado uma sequência de maus resultados entre a 11ª e a 19ª rodada, com apenas uma vitória, seis empates e duas derrotas em nove partidas. Mas reagira assim que o duelo com a líder Roma se aproximava no horizonte, impondo-se de maneira enfática sobre Fiorentina (3 a 0) e Udinese (4 a 0) em dois jogos seguidos em casa. Cauteloso em vista do tropeço europeu, Liedholm decidiu mexer na equipe, trocando três peças e encorpando a defesa e o meio-campo, buscando o controle do jogo.

Nessas trocas, Maldera deu lugar a Nappi, passando Nela para a lateral-esquerda. Prohaska deu lugar ao zagueiro Ubaldo Righetti, adiantando Di Bartolomei para a função do austríaco. E Iorio cedeu o posto ao meia Valigi, transformando o desenho tático da equipe num 4-4-2 tradicional. E no primeiro tempo, a Roma conseguiu segurar a Juventus tendo a bola no ataque, sob pressão constante, diante de uma equipe bianconera que não conseguiu chutar uma vez sequer ao gol de Tancredi. Mas o placar seguiu em branco naquela etapa.

O capitão Di Bartolomei lidera a volta olímpica

No início da etapa final, a Roma perdeu Pruzzo, lesionado em disputa com Platini. Porém, quatro minutos depois abriu o placar quando Falcão se livrou da marcação individual de Massimo Bonini para cabecear uma falta cruzada por Bruno Conti. A chance de ampliar veio em chute de Iorio que cruzou a boca do gol, mas não entrou. No fim, a frustração: aos 38, Platini empatou batendo falta na gaveta. E aos 41, o francês (em posição protestada pelos romanistas) cruzou para a cabeçada do zagueiro Sergio Brio, decretando a vitória de virada: 2 a 1.

Após esse balde de água fria, só restaria uma saída: vencer fora de casa o Pisa para não deixar a vantagem – agora de três pontos para a própria Juve, nova vice-líder – se diluir ainda mais. Com a volta da formação habitual (à exceção do lesionado Pruzzo), o time venceu por 2 a 1 com gols de Falcão de cabeça e Di Bartolomei de falta. Na rodada seguinte, um duplo 0 a 0: da Roma com a Udinese no Olímpico (único empate dos giallorossi em casa na campanha) e da Juventus diante do mesmo Pisa na Arena Garibaldi. Seguia tudo como antes.

Já na 25ª rodada, em 27 de março, a Roma viajaria para enfrentar a Fiorentina. Depois de sair em desvantagem com gol de Daniele Massaro, chegaria à virada com um belo gol de Pruzzo e outro de Prohaska cobrando de pênalti, mas acabaria cedendo o empate num tento contra de Ancelotti. Boas notícias, no entanto, vinham de Turim, do Derby della Mole: após abrir dois gols de frente, a Juventus permitiria uma histórica virada relâmpago do Torino, que marcaria três vezes em cinco minutos e venceria por 3 a 2, ajudando os giallorossi.

Eliminada da Copa da Uefa pelo Benfica, a Roma centrou o foco na conquista do scudetto o quanto antes: uma semana depois de ampliar a vantagem sobre a Juventus para quatro pontos, o time manteria a diferença derrotando o lanterna Catanzaro por 2 a 0 no Olímpico (gols de Pruzzo e Di Bartolomei), resultado que decretaria o descenso matemático da equipe da Calábria. Em seguida, o 0 a 0 diante da Internazionale no San Siro não chegou a ser lamentado pela força do adversário, ainda que a vantagem na ponta retorne aos três pontos.

Scudetto à vista

Falcão com os goleiros Tancredi e Superchi na festa da vitória no Olímpico

A conquista quase foi confirmada na antepenúltima rodada, no dia 1º de maio: a Roma derrotaria o Avellino em casa por 2 a 0 com Falcão e Di Bartolomei marcando. Enquanto isso, em Turim, a Juventus pegava a Inter num jogo precedido por um incidente: uma pedra atirada por um torcedor atingiu o ônibus dos visitantes, ferindo o meia Gabriele Oriali. Em campo, os nerazzurri chegaram a estar na frente por 2 a 0 e depois por 3 a 1, resultados que garantiriam o título aos giallorossi. Mas a Vecchia Signora reagiu e foi buscar o 3 a 3.

Por ironia, dentro de duas semanas o incidente seria julgado, com a Inter declarada vencedora “a tavolino” por 2 a 0. Para a Roma, porém, já não importava. Em 8 de maio, os giallorossi haviam pisado o gramado do estádio Luigi Ferraris precisando apenas de um empate contra o Genoa para confirmar o título sem depender de qualquer outro resultado. Saíram na frente quando Pruzzo cabeceou a bola alçada por Di Bartolomei encobrindo o goleiro Silvano Martina. O Genoa buscou a igualdade antes do intervalo, mas no fim, o 1 a 1 prevaleceu.

O apito final desencadeou a invasão do gramado pela massa de romanistas que haviam viajado da capital até Gênova para acompanhar in loco a conquista histórica. Outro grande grupo abraçava e carregava nos ombros o técnico Nils Liedholm. Enquanto isso, depois de terem sido despidos pelos tifosi que queriam qualquer peça do uniforme como souvenir, os jogadores eram escoltados pelas forças de segurança até o vestiário, onde a comemoração com champanhe e cânticos de vitória ecoava até às avenidas e praças da capital italiana.

Na última rodada, a equipe venceria o Torino por 3 a 1, gols de Pruzzo, Falcão e Conti, mantendo-se quatro pontos à frente da Juventus e cinco da Inter. Ao todo, foram 16 vitórias, 11 empates e só três derrotas, marcando 47 gols (segundo melhor ataque, atrás dos 49 da Juve) e sofrendo 24 (segunda melhor defesa, atrás dos 23 da Inter). Um bom equilíbrio. A tarefa de vencer em casa e buscar o empate fora foi quase sempre cumprida à risca: dos 15 jogos como mandante, ganhou 13. E nos 15 como visitante, empatou nada menos que dez.

No ano seguinte, com outro brasileiro, Toninho Cerezo, na vaga de Prohaska e o campeão mundial Francesco Graziani no lugar de Iorio, a Roma alcançaria a final da Copa dos Campeões após passar por IFK Gotemburgo, CSKA Sofia, Dynamo Berlim e Dundee United. Mas perderia o título em pleno estádio Olímpico nos pênaltis diante do Liverpool, na derrota mais dolorosa da história do clube. Liedholm voltaria ao Milan antes da discreta temporada 1984/85, que seria a última de Falcão. E em 1985/86 perderia o scudetto num tropeço incrível.

A partir de então, a Roma voltaria a se aninhar nas posições médias da classificação, contentando-se com títulos esporádicos na Copa da Itália e vagas na Copa da Uefa (da qual seria vice-campeã na decisão em ida e volta contra a Inter em 1990/91). Somente logo após a virada do século e do milênio é que os giallorossi voltariam a se redimir, levantando o scudetto na temporada 2000/01 sob o comando de Fabio Capello (ex-jogador romanista) e impulsionados pelos gols do argentino Gabriel Batistuta. Mas essa é outra história.

Na arquibancada, o scudetto dos tifosi
Foto de Emmanuel do Valle

Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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