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O gol sobre o Milan reforça ainda mais a imagem de Lautaro como símbolo da Inter e carrasco nos clássicos

Lautaro Martínez já anotou oito gols no Derby della Madonnina e é o maior artilheiro da Inter neste século dentro do clássico

Lautaro Martínez pode não ser unanimidade como atacante, mas poucos jogadores simbolizam tanto a Internazionale nos últimos anos quanto o argentino. A promessa contratada do Racing se tornou protagonista dos nerazzurri. Virou um dos heróis na reconquista do Scudetto e passou a acumular gols nas últimas temporadas. A ligação é tão forte, afinal, que Lautaro pode disputar a decisão da Champions League como capitão dos interistas – um feito antes limitado aos lendários Armando Picchi, Sandro Mazzola e Javier Zanetti. O camisa 10 reforça seu destaque. E coube ao ídolo terminar de enterrar o Milan nas semifinais da Champions League, com o gol que valeu a vitória por 1 a 0.

Lá se vão cinco temporadas desde que Lautaro Martínez desembarcou em Milão. O atacante carregava enormes expectativas, até pelas pitadas de arte que exibia nos tempos de Racing. Era um jogador que claramente precisava amadurecer e, até por isso, ficou à sombra de Mauro Icardi em seu primeiro ano com a Inter. Porém, não demorou para que Lautaro criasse as próprias asas. Para que o argentino se tornasse uma referência no clube em reconstrução. Houve uma aposta dos interistas no futebol do jovem e não se nega que ele correspondeu ao investimento, pela maneira como se fincou como uma referência dentro do San Siro.

A dupla de Lautaro Martínez com Romelu Lukaku já está na história da Internazionale. A conquista da Serie A 2020/21 contou com apresentações maravilhosas dos atacantes, depois de já terem feito bastante na caminhada à final da Liga Europa de 2019/20. Lukaku até brilhou mais no Scudetto, pela maneira como entregou gols com constância. De qualquer forma, Lautaro sempre foi o complemento perfeito. É um jogador de ótima movimentação, boa leitura dos espaços, agressividade. O time de Antonio Conte se fez tão forte muito por conta do entrosamento e do entendimento da dupla ofensiva. Mesmo como coadjuvante, o argentino era parte inerente do título.

Depois da conquista, a responsabilidade de Lautaro Martínez aumentou. Lukaku saiu, assim como Conte e outros personagens centrais daquela Internazionale. O atacante chegou a balançar meses antes, diante de uma proposta do Barcelona, mas o negócio não se concretizou por entraves financeiros. Então, ele preferiu ficar em Milão e liderar o novo momento. Às vezes pecou pelo individualismo, mas a quantidade de gols aumentou. De qualquer forma, os nerazzurri estavam enfraquecidos como equipe. Não seria o mesmo time com um aproveitamento tão alto na Serie A quanto o da temporada anterior. Restaram sucessos nos torneios de mata-matas. E a conquista da Copa da Itália em 2021/22 teve Lautaro fazendo a diferença, em especial na atuação de gala durante as semifinais contra o Milan. Marcou dois gols no triunfo por 3 a 0, que selou a passagem à decisão.

Nesta temporada, Lautaro Martínez ganhou novas atribuições. Nas ausências de Samir Handanovic e Marcelo Brozovic, passou a usar a braçadeira de capitão com mais frequência. Lukaku estava de volta, assim como Edin Dzeko seguia como um parceiro importante desde antes. E, mesmo inconstante, Lautaro teve bons momentos na primeira meta de 2022/23. A Inter não exibia fôlego suficiente para brigar pela Serie A, mas o atacante teve brilhos pontuais na campanha. Mais importantes ainda foram as participações na fase de grupos da Champions, sobretudo no jogo que eliminou o Barcelona. Foi personagem central nos 3 a 3 decisivos do segundo turno.

A Copa do Mundo foi um ponto de inflexão para Lautaro Martínez. Um dos principais nomes da Argentina no ciclo, o atacante fez uma campanha ruim e acabou mais marcado pelos gols perdidos. Até deu sua contribuição nas disputas por pênaltis, especialmente por fechar a vitória sobre a Holanda, e também entrou bem na decisão contra a França. Independentemente disso, o retorno à Inter necessitava de uma resposta do atacante aos críticos. E ela veio com uma sequência muito consistente no início do ano, com gols frequentes. O Milan já tinha sofrido. Tomou um gol de Lautaro na derrota por 1 a 0 na Serie A e também outro nos 3 a 0 da Supercopa.

Dentro das oscilações de Lautaro Martínez, seus gols fizeram falta na má fase da Internazionale entre março e abril. O atacante, ao menos, cumpriu sua parte nas quartas de final da Champions contra o Benfica. Desde então, não só os interistas melhoraram, como o atacante também se tornou insaciável. São oito gols e três assistências nas últimas nove partidas do argentino. Ele seria um coadjuvante na ida das semifinais contra o Milan, com muita luta, mas não participação direta nos tentos. Isso até que cravasse a eliminação dos rivais no Derby della Madonnina desta terça-feira.

Numa partida em que a Inter administrou a vantagem da ida, Lautaro ofereceu um toque de qualidade. Chegou a puxar bons ataques no primeiro tempo e era um dos homens mais ativos na linha de frente nerazzurra. Arriscava e criava lances para o time que precisava de apenas uma estocada. Quando surgiu a chance de decidir, então, Lautaro garantiu a vitória por 1 a 0. Tabelou com Lukaku e aproveitou a passividade do Milan dentro da área. Mesmo com pouco ângulo, o artilheiro queimou o chute para cima de Mike Maignan e o goleiro aceitou. O resultado a 15 minutos do fim confirmava a classificação dos interistas. Colocava o capitão também como um personagem central nessa história, com a volta à final da Champions após 13 anos.

A comemoração explosiva de Lautaro Martínez, junto à torcida, reforçava mais a ligação do atacante com a equipe. É sua casa há cinco temporadas e, com 25 anos, o argentino pode construir uma história muito maior se quiser. Uma final de Champions abrilhanta tudo isso. Além disso, a esta altura, Lautaro pode até pensar em se tornar o maior artilheiro do Derby della Madonnina. O atacante possui oito gols em 14 aparições no clássico. Nesta terça, ultrapassou ídolos como Alessandro Altobelli e Roberto Boninsegna. Neste momento, ele já é o nerazzurro com mais gols neste século. Fica a quatro tentos de alcançar Giuseppe Meazza como atleta com mais gols pela Inter no confronto e a seis de igualar Andriy Shevchenko no geral. Nessa conta toda, o gol na semifinal de Champions representa algo especial.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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