O futuro de Donnarumma pede resiliência, mas sua novela deve mesmo ter um final feliz

Foram semanas bastante turbulentas. Dias de negação, protestos, camisas rasgadas e pragas rogadas. Mas, ao final, ainda assim, devem prevalecer as juras de amor – amor à camisa e, diga-se, também ao dinheiro. Tente se esquecer de tudo o que foi falado recentemente sobre Gianluigi Donnarumma e o Milan. Porque, afinal, tanto o clube quanto o goleiro parecem dispostos a se esquecer. Apesar de todo o imbróglio que se desenrolou diante da renovação de contrato do prodígio com os rossoneri, a imprensa italiana dá a assinatura como praticamente certa. Sky Sport Italia, Gazzetta dello Sport, Corriere della Sera, Tuttosport e todos os outros principais veículos do país noticiaram as boas novas aos milanistas, antes que o jovem saísse de férias, após disputar o Campeonato Europeu Sub-21 com a seleção.
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Segundo Gianluca Di Marzio, Donnarumma assinará um contrato pelos próximos cinco anos. Ganhará €6 milhões por temporada, um salário 40 vezes maior que os €150 mil atuais, e €1 milhão a mais do que na oferta anterior feita pelo Milan. O camisa 99 será o dono do terceiro maior salário do futebol italiano, assim como se tornará o terceiro goleiro mais bem pago do mundo. Sua cláusula de rescisão se estabelecerá em €100 milhões, caindo para €50 milhões caso os rossoneri não se classifiquem para a Liga dos Campeões. Além disso, o acordão ainda inclui Antonio Donnarumma. Irmão mais velho do garoto, o arqueiro de 27 anos foi formado na base milanista e influenciou a torcida de Gigio pelo clube. Desde 2012, rodou por diversos times da Serie B e na última temporada disputou o Campeonato Grego pelo Asteras Tripolis. Receberá €1 milhão por ano em salários.
A família de Donnarumma, aliás, teria sido decisiva para a provável permanência do goleiro. O técnico Vincenzo Montella foi pessoalmente à casa de seus pais conversar sobre o projeto do Milan para o garoto. Depois, viajaram a Milão para tomar parte nas negociações com o prodígio após retornar da Euro Sub-21. A insatisfação dos familiares recairiam sobre Mino Raiola, responsável por gerir a carreira do novato e por cuidar das tratativas. Teria sido ele quem fez a cabeça de Gigio para recusar as ofertas da diretoria rossonera, enfadado pela demora a iniciarem as conversas. E o empresário também adotou uma postura um tanto quanto beligerante diante do conflito de interesses que pintou na imprensa durante as últimas semanas. Diante disso, persistem temores de que o agente possa travar a assinatura, buscando uma transferência ao Real Madrid ou ao Paris Saint-Germain. A proposta dos franceses, inclusive, bateria os €13 milhões, mas o arqueiro recusou.
Se nenhuma nova reviravolta acontecer, Donnarumma deve reiterar o seu compromisso e a sua vontade de continuar defendendo o Milan – mesmo desmentido a declaração de amor postada durante o Europeu Sub-21 em suas redes sociais, quando afirmou que sua conta havia sido “hackeada”. E, apesar de todos os pesares, o final da história parece positivo às duas partes. O goleiro ganhará um salário inimaginável para um jogador de sua idade, encabeçando o projeto de um novo time para o futuro. As expectativas dos rossoneri em voltarem ao topo começam por ele. Estará em um ambiente no qual já está aclimatado, sem precisar passar novamente por etapas iniciais de adaptação, e com moral para recobrar rapidamente uma idolatria que já começava a lhe ser destinada.
O clube, por sua vez, gastará acima da média de sua política de mercado sob a nova gestão. Os ganhos do prodígio são altíssimos, especialmente se comparados às movimentações feitas pela diretoria até o momento, em uma janela que se aponta bastante promissora. De qualquer maneira, os milanistas seguem contando com aquele que, hoje, é o goleiro de maior potencial do mundo. Que já se colocou entre os melhores de sua posição na Serie A e ainda pode seguir evoluindo. E, na pior das hipóteses, ele não mais sairá de graça, como corria-se o risco.
A questão maior se concentra na maneira como as diferentes partes lidarão com a sequência da carreira de Donnarumma no Milan. A torcida pode ficar agradecida pela escolha do jovem e pelo fato de que ele realmente ouviu os seus protestos. Não há dúvidas de que a pressão dos rossoneri afetou a renovação. Todavia, até que ponto a corda esticou? Será, antes de mais nada, um exercício de resiliência e de perdão. Ainda assim, ao que tudo indica, o goleiro será muito mais cobrado agora, especialmente pelo polpudo salário que ganhará. Grandes poderes trazem grandes responsabilidade. E sua responsabilidade aumentou exorbitantemente depois de tamanho desgaste. Precisará se reafirmar como o melhor de sua geração carregando também o fardo nas costas.
Por mais que tenha se mostrado despreocupado à imprensa, ignorando as perguntas sobre o episódio nas últimas semanas, Donnarumma não se saiu bem no Campeonato Europeu Sub-21. Falhou em alguns lances, se mostrou desatento e demorou a reagir em bolas defensáveis. Terá que dar a volta por cima também no aspecto técnico. Terá que voltar a ser o goleiro que voou sob as traves nos meses em que ganhou a confiança do Milan, transformando-se logo em um dos mais valorizados da posição. Talento, sem dúvida, não falta. O diferencial precisa ser a cabeça. A cabeça que (até pelos conselhos de Raiola) Gigio não teve no início das discussões e que é exatamente uma das virtudes que o Milan espera com este novo contrato. A prometida braçadeira depende das lições aprendidas pelo garoto de 18 anos em meio a toda essa história.



