Serie A

Numa emotiva carta, Prandelli deixa a Fiorentina e anuncia seu provável adeus do futebol: “Algo não está no lugar dentro de mim”

Cesare Prandelli anunciou nesta terça-feira sua despedida da Fiorentina, após quatro meses à frente do clube. O treinador de 63 anos desembarcou no Artemio Franchi como um nome respaldado para dirigir o novo momento do time, de grandes investimentos recentes. Além de uma carreira cheia de experiência, incluindo a seleção, Prandelli também teve uma participação muito significativa na reconstrução da Viola entre 2005 e 2010. No entanto, mesmo que os resultados não fossem tão bons, o técnico decidiu pedir demissão por questões pessoais. Numa emotiva carta, o veterano descreveu seus sentimentos e explicou que não vê o futebol da mesma maneira como antes, por isso resolveu se afastar do cargo – naquela que é provavelmente sua aposentadoria do esporte.

Prandelli dirigiu a Fiorentina durante 23 jogos nesta segunda passagem pelo clube. O treinador assumiu o cargo em novembro, substituindo Giuseppe Iachini, à frente de uma equipe que pela segunda temporada consecutiva rendia abaixo dos maciços investimentos realizados pelo empresário Rocco Commiso, seu dono desde junho de 2019. O desempenho não melhorou tanto assim, com a Viola permanecendo na parte inferior da tabela, apesar de algumas boas atuações – em especial a vitória por 3 a 0 sobre a Juventus. No final de semana, a equipe toscana protagonizou uma partida emocionante contra o Milan, apesar da derrota por 3 a 2. Mas não foi isso, ou o 14° lugar no campeonato, que motivou a saída de Prandelli.

Em sua carta, Prandelli deixa explícitos seus sentimentos e certa desilusão com o futebol. O treinador confessa que o passado na Fiorentina motivou sua chegada, mas a partir de então passou a ter uma relação diferente com o esporte e deixou de se reconhecer no meio. O treinador não especificou o que o deixou descontente, mas fica claro seu abatimento dentro do ambiente geral – e não necessariamente por uma quebra de relação com os donos da Viola ou mesmo com o elenco. Diante de tudo o que foi colocado, resta o desejo de que Prandelli cuide de sua saúde mental. Apesar do adeus, a gratidão de Florença permanece por aquilo que o técnico construiu em sua primeira estadia no Artemio Franchi.

Prandelli foi um meio-campista de relativo sucesso nas décadas de 1970 e 1980. Não chegou à seleção principal, mas defendeu por seis temporadas a Juventus, de 1979 a 1985. Era um coringa na equipe que dominava a Itália, participando também da conquista da Copa dos Campeões em seu ano de despedida. Depois disso, ainda defenderia a Atalanta, parte de times marcantes em Bérgamo, finalista da Copa da Itália e semifinalista da Copa da Uefa. Em 1990, pendurou as chuteiras e logo iniciou sua caminhada como treinador.

Prandelli dirigiu as equipes de base da Atalanta no início da carreira. Passou também pelo Lecce, antes de ter trabalhos expressivos no Verona e no Venezia, conquistando o acesso por ambos. Ficou duas temporadas no Parma e, quando tinha uma enorme oportunidade na Roma em 2004, rompeu seu contrato com os giallorossi semanas após assinar, por conta da doença grave de sua esposa. Apesar disso, um ano depois Prandelli voltaria à ativa e viveria o melhor momento de sua trajetória à frente da Fiorentina, que tinha sofrido sua falência pouco antes e voltara à Serie A na temporada anterior, mas também se envolveu no escândalo do Calciopoli.

Prandelli dirigiu a Fiorentina por cinco temporadas completas, a partir de 2005/06. O clube não apenas se restabeleceu na Serie A, como chegou a disputar a Champions League. Passou a ser considerado um dos melhores treinadores do Calcio por seu trabalho consistente e muitos jogadores se impulsionaram com a camisa violeta. Não só eles, afinal. Graças ao reconhecimento recebido em Florença, Prandelli acabou escolhido para dirigir a seleção italiana. Tinha a missão de reerguer os azzurri após a fraca campanha na Copa de 2010 e teve bons resultados, incluindo o vice na Euro 2012. O problema seria a eliminação precoce em 2014.

Desde sua demissão na seleção, Prandelli não fez mais trabalhos longos. Dirigiu Galatasaray, Valencia e Al Nasser-EAU sem emplacar. Em 2018/19, também teria uma passagem breve pelo Genoa. A Fiorentina parecia mesmo o ambiente mais propício para recuperar o prestígio de outrora e conseguir reconduzir o clube à parte de cima da tabela. Entretanto, o rompimento indica que o caminho ao veterano será outro durante os próximos meses. Abaixo, a tradução da carta assinada por Prandelli no site da Fiorentina:

*****

Florença, 23 de março de 2021. É a segunda vez que eu deixo a Fiorentina. A primeira foi por outros, hoje por minha decisão. Na vida de todo mundo, além das coisas belas, se acumulam detritos, venenos que por vezes apresentam a você a conta.

Neste momento da minha vida, eu me encontro num desconforto absurdo que não me permite ser quem eu sou. Eu embarquei nesta nova experiência com alegria e amor, também levado pelo entusiasmo dos novos donos. E foi provavelmente por muito amor pela cidade, pelas lembranças dos bons momentos esportivos que vivi aqui, que não vi os primeiros sinais de que algo estava errado, de que alguma coisa não estava no lugar dentro de mim.

Minha decisão é ditada pela responsabilidade enorme que primeiro tenho com os jogadores e com o clube, mas não por último pelo respeito que devo aos torcedores da Fiorentina.

Quem entra em campo neste nível sem dúvidas possui um talento específico, quem tem talento é sensível e eu não gostaria que meu desconforto fosse percebido e condicionasse o desempenho da equipe.

Nos últimos meses cresceu dentro de mim uma sombra que mudou minha própria maneira de ver as coisas. Vim aqui para dar 100%, mas assim que eu tive a sensação de que isso não seria mais possível, pelo bem de todos eu decidi dar um passo para trás.

Agradeço Rocco Commiso e toda a sua maravilhosa família; Joe Barone e Daniele Pradè, sempre próximos de mim e do time, mas acima de tudo agradeço a Florença, que sei que será capaz de entender.

Estou consciente de que minha carreira como treinador pode se acabar aqui, não tenho arrependimentos e não quero ter nenhum. Provavelmente este mundo que tenho feito parte por toda a minha vida não seja mais para mim e eu não me reconheço mais nele. Seguramente eu mudei e o mundo vai mais rápido do que eu pensava. É por isso que acredito que chegou o momento de parar de se deixar levar por essa velocidade, para descobrir quem realmente sou.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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