Serie A

Marcos Antônio teve postura exemplar contra racismo de torcedor da própria Lazio

Atacado nas redes sociais, Marcos Antônio foi firme e combateu o racismo publicamente, com apoio do clube

Marcos Antônio chegou à Lazio na última temporada e deu mostras de qualidade. O meio-campista de 23 anos geralmente saiu do banco de reservas, mas teve boas atuações na reta final da Serie A. Seu futuro no clube, entretanto, é incerto. E, diante da possibilidade de sua venda, o jovem precisou lidar nesta semana com um ataque racista de um torcedor nas redes sociais. Posicionou-se de maneira firme contra o agressor, ao rechaçar o racismo, e recebeu o apoio do clube.

O ataque foi realizado por um usuário avulso no Twitter, covarde, que sequer mencionou o perfil de Marcos Antônio diretamente. “Com as últimas contratações e a iminente venda de Marcos Antônio, teremos mais uma vez um elenco sem jogadores negros: bom dia”, escreveu o racista, usando emojis de um coração preto e de uma mão espalmada, além de hashtags da Lazio e da Curva Nord – o principal grupo de ultras biancocelesti.

Marcos Antônio não se calou. O meio-campista possui postagens antirracistas em sua conta no Twitter. Além de falar sobre sua carreira e sobre a Lazio, o brasileiro também apoiou anteriormente Vinícius Júnior contra os ataques recebidos na Espanha. Desta vez, Marcos Antônio replicou a mensagem do racista para expô-lo e expressou sua indignação.

— É inacreditável e inaceitável que ainda tenhamos que ler esse tipo de situação hoje em dia. Então saiba que você não vai me abalar em nada. Minha cabeça estará sempre erguida e ansiosa para combater esse absurdo. A torcida da Lazio não é como você, não aceito o que você escreveu e nunca vou aceitar. — escreveu Marcos Antônio, com a hashtag em inglês No To Racism.

Lazio se manifesta, mas precisa fazer mais

Marcos Antônio recebeu apoio de diferentes usuários, sobretudo de torcedores da Lazio. Alguns grupos da torcida também se posicionaram ao lado do brasileiro. Mais importante, a própria Lazio não se calou. O clube se posicionou através de sua conta oficial, em resposta à mensagem do meio-campista.

— Marcos, sua luta contra o racismo é a nossa luta. Toda a S. S. Lazio está com você. Para esse comentário, fruto da incivilidade, só há uma palavra: vergonha. — escreveram os laziali.

Neste sábado, a Lazio também postou uma foto do elenco com Marcos Antônio ao centro. “Toda a Lazio é orgulhosa de ter Marcos Antônio na equipe”, dizia a mensagem, com a presença de outros jogadores negros no grupo. Além disso, o clube retuitou uma postagem de Felipe Caicedo, um dos jogadores negros mais importantes dos biancocelesti nos últimos anos.

— Esse cara não representa os muitos torcedores da Lazio que respeitam e não olham a cor da pele, somos todos iguais! Força, Marcos Antônio. — escreveu o equatoriano.

O posicionamento público da Lazio é importante, diante do racismo atrelado ao clube há décadas. Os biancocelesti possuem um histórico de manifestações preconceituosas nas arquibancadas, com movimentos internos que reverberam o fascismo. Tantas vezes, a Lazio como instituição agiu de maneira branda e atenuou a dimensão do problema. O caso de Marcos Antônio não deixa de refletir a omissão dos laziali, mesmo com promessas de mais combatividade nos últimos anos. A resposta atual, ao menos, reitera outra direção, que depende também de ações.

A Lazio poderia inclusive tornar o episódio de Marcos Antônio exemplar. O racista que atacou o brasileiro se identifica como “Marco Rango” e possui sua foto no perfil. Não seria difícil para os biancocelesti banirem o agressor de suas partidas e também encaminharem o caso para as autoridades, a fim de medidas cabíveis no âmbito criminal.

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A trajetória de Marcos Antônio

Formado pelo Athletico Paranaense, Marcos Antônio nunca atuou profissionalmente no Brasil. O meio-campista teve uma passagem pelo Estoril, mas estourou mesmo no Shakhtar Donetsk. Ganhou espaços no clube a partir de 2019 e despontava com os ucranianos quando ocorreu a invasão da Rússia em 2022. Diante da situação excepcional, o jovem preferiu deixar o time e assinou com a Lazio no início da última temporada, por €7,5 milhões.

Marcos Antônio disputou 22 partidas pela Lazio, 16 delas pela Serie A. O meio-campista não foi muito utilizado por Maurizio Sarri, geralmente limitado ao banco de reservas ou entrando apenas no segundo tempo das partidas. Sua melhor sequência aconteceu justamente na reta final da temporada, entre abril e maio. Teve boas atuações contra Spezia e Sassuolo, com gol e assistência, e acumulou uma sequência como titular. Porém, se lesionou e voltou para o banco nos últimos jogos.

Marcos Antônio, porém, também teve dificuldades para se encaixar como primeiro volante. Defensivamente, o meio-campista não apresentou o melhor rendimento. Por conta disso, nas últimas semanas surgiram rumores na imprensa italiana de que a Lazio poderia negociá-lo. Foi a porta aberta para que o racista destilasse sua ignorância publicamente.

Winter e outros negros históricos da Lazio

O elenco principal da Lazio conta com outro jogador negro, o meio-campista Jean-Daniel Akpa Akpro, que voltou de empréstimo do Empoli. Além disso, nomes importantes da história recente dos biancocelesti são negros. Um jogador fundamental nesse sentido é o volante Aron Winter, contratado pelo clube no início dos anos 1990. Filho de um surinamês com uma indiana, o holandês ainda tinha ascendência chinesa. Em seu início na capital, viu os muros do clube serem pintados com o termo “negro judeu”, num ataque também à origem do seu nome e ao Ajax de onde veio.

— Eu não estava preparado para o que me aguardava em Roma. Quando eu fiz minha estreia, fiquei chocado com as vaias porque eu era negro. Normalmente, qualquer pessoa nesta situação teria pedido para sair, mas eu não estava preparado para desistir. Eu queria mostrar a essas pessoas que elas estavam erradas. Eu queria sair de campo e provar que a cor da pele é irrelevante. O clube e meus companheiros me deram muito apoio e os torcedores logo deixaram de me perseguir — afirmou Winter ao site da Fifa, em 2013.

Winter permaneceu por quatro temporadas na Lazio, de 1992 a 1996, e completou 156 partidas pelo clube. O holandês ficou um tempo sem falar com a imprensa, que insistia em destacar o fato de ser negro mesmo quando os intolerantes se calaram. O meio-campista deixou sua marca em campo acima dos ataques e, de certa maneira, abriu o caminho para outros jogadores negros no elenco biancocelesti. Seu reconhecimento permanece mesmo três décadas depois.

— O jogador deixou uma grande memória entre os torcedores da Lazio por sua seriedade e seu rendimento. Afável e paciente, respondeu com fatos à aberrante contestação que recebeu de alguns setores dos ultras no seu primeiro ano, por ser negro e pelo nome hebreu. Winter não venceu com a Lazio, mas contribuiu com o crescimento do potencial técnico — analisa a Enciclopédia da Lazio.

Outros jogadores negros importantes defenderam a Lazio neste século, embora o recorte não seja tão numeroso quanto nos demais clubes italianos. Fabio Liverani atuou pelos biancocelesti por cinco anos, de 2001 a 2006, num momento em que se tornou o primeiro jogador negro a ser convocado pela seleção italiana. O ponta Christian Manfredini é outro atleta relevante no início do século, marfinense de origem italiana. Os franceses Ousmane Dabo e Abdoulay Konko superaram os 100 jogos, assim como o nigeriano Ogenyi Onazi. Mais recentemente, o supracitado Felipe Caicedo anotou gols frequentes, mesmo na reserva de Ciro Immobile. Entre os brasileiros, além de Marcos Antônio, outro negro que defendeu a Lazio nos últimos anos foi o zagueiro Wallace. Disputou 67 partidas entre 2016 e 2019, antes de rumar ao Braga.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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