
Poucos jogadores na história dominaram tão bem a arte de defender quanto Paolo Maldini. Não há uma lista com os melhores defensores de todos os tempos que não inclua o italiano – e, se ela existe, não merece créditos. Difícil encontrar um craque que enfrentou o camisa 3 e não o considere como oponente mais duro que já teve pela frente. E isso sem precisar apelar, impondo-se apenas pela técnica, não pela violência.
Quando olha para o futebol atual, entretanto, Maldini sente que a sua arte se perdeu. Em entrevista ao jornalista Grant Wahl, o veterano falou sobre as transformações que o jogo passou nos últimos anos. E as atribuições de um defensor mudaram. Com equipes mais compactas, a rotina de um jogador de sua posição é diferente daquela com a qual o gênio conviveu ao longo de seus tempos como profissional – ainda que, neste intervalo de mais de duas décadas, também tenha lidado com suas próprias adaptações.
“O jogo mudou. Os zagueiros atuam mais com a bola e tudo se inicia a partir do goleiro. Há 20 anos, eles eram apenas defensores e somente alguns tinham confiança com a bola. Mas os zagueiros também estão deixando de lado o hábito de marcar nos cantos ou no um contra um. A arte de defender vem perdendo algumas das características dos anos 80. Isso me incomoda. Especialmente no nível mais alto, porque não estou falando de times de segunda divisão, mas de seleções e de Liga dos Campeões”, afirmou.
Maldini, todavia, ressaltou a essencialidade dos sistemas defensivos para o sucesso de uma equipe, independentemente das transformações: “O esporte mudou muito, mas eu continuo achando que ter uma grande defesa cria um time melhor a longo prazo. Isso depende da maneira como você treina. Conte é ótimo, Allegri também. Vamos dizer que a tradição italiana está mantida no topo com estes dois grandes técnicos”.
Questionado sobre o porquê sempre foi tão admirado, o italiano analisou as próprias características: “Quando eu era criança, queria ser jogador, então alcancei meu sonho, o mais importante. Eu tentava jogar limpo, ir na bola e não nas pernas. Além disso, eu gostava de sair para o jogo, não era o defensor que só queria defender. Você precisa ser forte e agressivo, mas a diferença entre ser agressivo e ser sujo é mínima. Às vezes você cruza os limites”.
Por fim, Maldini se debruçou sobre o talento dos jogadores. Pensando nos dias atuais, apontou que Sergio Ramos e Thiago Silva são os seus dois zagueiros favoritos – embora tenha dado uma dura no espanhol, declarando que ele “às vezes se esquece de defender”. Já entre os homens de frente, indicou que seu predileto é Messi, por ser “único”, por ter “algo especial”. Mas o eterno camisa 3 não se esqueceu de reconhecer os melhores com quem jogou, seja no mesmo time ou no contrário.
“Franco Baresi foi o jogador que mais admirei, um capitão de verdade. Servia de exemplo para todos. Não falava muito, mas em campo e no treino ele era o número um. Já Van Basten foi o jogador mais completo com quem joguei. Também teve o Kaká, o Shevchenko… Como melhor oponente, tenho que dizer Maradona. Porque ele era Maradona. Além disso, era um ótimo cara em campo, respeitava muito. Depois dele, talvez Ronaldo. Nos dois anos em que ele jogou na Inter antes da lesão, foi muito, muito, muito bom. Eu também enfrentei Zidane, Platini… todos ótimos!”, concluiu. A recíproca certamente é verdadeira.



