Internazionale e Milan farão neste domingo um clássico entre líder e vice-líder pela Serie A. Pelo histórico vitorioso dos gigantes de Milão, um dérbi desta magnitude no segundo turno não é tão raro assim. A partir dos anos 1950, tal situação aconteceu oito vezes. E as duas ocasiões mais recentes possibilitaram partidas memoráveis, há cerca de dez anos. Em 2009/10, a vinha com tudo para faturar a Tríplice Coroa e reafirmaria sua força contra os rivais, vencendo por 2 a 0 no San Siro, mesmo passando grande parte do duelo com um jogador a menos – no fim, Júlio César até pegou de Ronaldinho. O troco do Milan aconteceu na temporada seguinte, em 2010/11. Os rossoneri interromperam o penta dos nerazzurri e ganharam o clássico por 3 a 0, com show de Alexandre Pato e chances de fazer até mais.

Em busca do quinto título consecutivo na Serie A, o quarto em campo, a Internazionale realizou o Derby della Madonnina na 21ª rodada de 2009/10. Os interistas já tinham goleado na segunda rodada por 4 a 0, com um gol e duas assistências de , e repetiriam a dose no returno. Àquela altura, o time de José Mourinho somava 46 pontos e vinha na liderança de maneira ininterrupta desde a sétima rodada. O Milan, ainda assim, tentava se emparelhar. Os rossoneri eram os mais próximos na perseguição e poderiam igualar a pontuação com uma vitória, somando 43 pontos.

Mourinho tinha à disposição uma máquina. A Inter ainda vinha com desfalques, a exemplo de Samuel Eto’o e Dejan Stankovic, mas impunha respeito com vários craques em sua escalação: Júlio César, , Lúcio, Walter Samuel, Davide Santon; Javier Zanetti, Esteban Cambiasso, Sulley Muntari; Wesley Sneijder; Goran Pandev e Diego Milito. No banco, ainda estavam ídolos como Francesco Toldo, Iván Córdoba, Marco Materazzi e Thiago Motta, além do promissor Mario Balotelli.

O Milan, por sua vez, vivia um momento de transição em relação à geração vitoriosa que levou duas Champions nos anos anteriores. Leonardo era o dublê de treinador no momento. Em campo, os rossoneri elencavam ainda velhas referências no fim de sua trajetória pelo clube: Dida, Ignazio Abate, Thiago Silva, Giuseppe Favalli, Luca Antonini; Andrea Pirlo, Gennaro Gattuso, Massimo Ambrosini; David Beckham, Marco Borriello, Ronaldinho . No banco, seguiam lendas como Clarence Seedorf e Pippo Inzaghi. Alessandro Nesta e Gianluca Zambrotta eram as principais ausências, além de Pato, que ainda gerava expectativas naquela época.

A Inter não esperou muito para debulhar os rivais e construir o triunfo por 2 a 0. Com dois minutos, Sneijder quase anotou um gol fabuloso e carimbou a trave de Dida. O goleiro também faria uma boa defesa, até que Milito abrisse o placar aos dez. Lançado por Pandev, o argentino aproveitou o vacilo de Abate para dominar e finalizar no canto. A superioridade dos nerazzurri, contudo, pareceu em risco aos 27 minutos. O time precisaria se virar com um jogador a menos, depois que Sneijder recebeu o vermelho direto por reclamação.

Todavia, o Milan passou longe de aproveitar a vantagem numérica. No segundo tempo, a Inter seguiu levando perigo nos contra-ataques. Pandev acertou a trave numa arrancada fantástica de Milito. Já aos 20, o macedônio guardou o seu, numa cobrança de falta primorosa que não deu chances a Dida. Júlio César teria trabalho só no fim. Realizou ótima defesa no mano a mano contra Klaas-Jan Huntelaar, antes do pênalti nos acréscimos, que deixou os interistas com nove, após Lúcio ser expulso. Ronaldinho bateu no canto e o goleiro voou para espalmar. Era uma prova irrefutável dos líderes, que abriram seis pontos naquele momento.

A Inter encerrou a Serie A de 2009/10 com 82 pontos, dois a mais que o vice – no caso, a Roma. O Milan acabou na terceira colocação, com 70 pontos. No entanto, muito mudaria em Milão para a temporada seguinte. Mourinho aceitou a proposta do Real Madrid e Rafa Benítez o substituiu. O espanhol ficou apenas alguns meses, trocado exatamente por Leonardo. Muitos destaques cairiam de rendimento e os nerazzurri passavam longe de inspirar o mesmo respeito. Já o Milan também tinha novidades, a começar pela contratação de Massimiliano Allegri para assumir o comando técnico. Ronaldinho saiu, mas Zlatan Ibrahimovic chegava para se reerguer após a passagem apagada pelo Barcelona. Mark van Bommel, Antonio Cassano, Kevin-Prince Boateng e Robinho eram outros reforços.

A situação na tabela se inverteu. O Milan chegou à ponta com 11 rodadas e se consolidou inclusive com a vitória no dérbi do primeiro turno, 1 a 0, gol de Ibra. Já a Inter atravessava uma campanha bem mais instável e passou um tempo fora da zona de classificação à Champions. No segundo turno, ao lado do Napoli, a equipe era a principal ameaça aos milanistas. O novo confronto direto aconteceu pela 31ª rodada, quando os rossoneri apareciam apenas dois pontos à frente, 62 a 60.

Para ajudar os interistas, o Milan tinha os desfalques de Ibrahimovic e Pirlo – este, perdendo espaço no clube. Allegri escalou o seguinte time: Christian Abbiati, Ignazio Abate, Alessandro Nesta, Thiago Silva, Gianluca Zambrotta; Clarence Seedorf, Mark van Bommel, Gennaro Gattuso; Kevin-Prince Boateng; Alexandre Pato e Robinho. Já na Inter, Milito e Stankovic seriam relegados ao banco por Leonardo. Os interistas estavam alinhados com: Júlio César, Maicon, Andrea Ranocchia, Cristian Chivu, Javier Zanetti; Thiago Motta, Esteban Cambiasso, Wesley Sneijder; Goran Pandev, Giampaolo Pazzini e Samuel Eto’o. A equipe não funcionaria, perdendo força no meio-campo.

Na entrada em campo, as atenções se voltavam a Leonardo. Os ultras milanistas prepararam até um bandeirão com a imagem da Santa Ceia para criticar o “Judas interista”, que aceitou a proposta dos maiores rivais. E a vingança aconteceu com bola rolando, numa jornada infeliz do treinador. Logo no primeiro minuto, o Milan iniciou a vitória por 3 a 0. Júlio César bloqueou Robinho na área, mas Alexandre Pato marcou no rebote. Os rossoneri permaneceram em cima, com direito a uma bola de Van Bommel no travessão. No entanto, Abbiati também era exigido do outro lado e faria uma defesa fantástica em cabeçada de Thiago Motta. Eto’o ainda perderia uma chance claríssima dentro da área. Os erros custaram caro, com o segundo tempo ficando nas mãos dos rossoneri logo cedo.

Aos nove minutos, Chivu matou um contra-ataque puxado por Pato e recebeu o vermelho direto. Iván Córdoba até entrou para recompor a zaga, mas o Milan daria um vareio a partir de então – orquestrado por Seedorf, inspirado em seus lançamentos. Pato aumentou a conta aos 17, concluindo de cabeça uma batida cruzada de Abate. Depois disso, os milanistas desperdiçaram uma vastidão de finalizações, com Júlio César se desdobrando na meta. Mathieu Flamini teve um gol anulado, até o terceiro aos 45. Cassano sofreu pênalti e converteu. Curiosamente, o veterano acabaria expulso. Recebeu o amarelo por tirar a camisa na comemoração e logo depois cometeu uma falta que culminou no vermelho. Nada que atrapalhasse os planos dos rossoneri.

O Milan não deixaria mais a liderança naquela Serie A. Fechou a campanha com 82 pontos, seis a mais que a Inter, vice-campeã na ocasião. Aquela temporada seria um ponto final ao sucesso da dupla milanesa na competição. Turbinada pela transferência sem custos de Pirlo, a reconstruída Juventus voltaria ao topo em 2011/12 e não sairia mais, emendando seu eneacampeonato. A maior chance de derrubar a hegemonia vem agora, com os dois rivais de Milão se mostrando prontos ao Scudetto. O deste domingo poderá ser essencial, como aqueles ocorridos uma década atrás.