Se em seu auge físico, mais de dez anos atrás, Ibrahimovic começasse uma temporada com dez gols em seis jogos na Serie A italiana, já estaríamos diante de um feito de destaque, números de um fenômeno. Que isso esteja acontecendo agora, com o sueco tendo recentemente completado 39 anos, é ainda mais impressionante. Algo que exige não só muito talento e preservação, mas também uma motivação especial.

Em entrevista ao site da Uefa, Ibra elucidou de onde vem esse combustível e como fez para, por meio de muita cobrança, instigar novamente um espírito altamente competitivo no , que vinha de anos seguidos de fracassos a nível doméstico e continental.

“Eles (jornalistas) estavam discutindo todos os ex-jogadores que jogaram no Milan, voltaram e não corresponderam ao seu padrão da primeira vez em que estiveram aqui, haviam falhado, e a primeira pergunta que recebi quando voltei para o Milan foi o que seria diferente entre eu e eles? Minha resposta foi simples: eu nunca perdi a paixão pelo que faço”, começou a explicar o veterano.

“Sempre que vou ao campo, me sinto como uma criança que come doce pela primeira vez. Eu entendi que a bola é minha melhor amiga, e eu quero estar com minha melhor amiga pelo resto da minha vida.”

Tendo vencido tanto em sua vida, incluindo títulos dos Campeonatos Italiano, Espanhol, Neerlandês e Francês, do Mundial de Clubes e da Liga Europa, Ibrahimovic encontrou uma nova motivação para seguir em frente ao decidir retornar à Europa depois de brilhar nos Estados Unidos: devolver o Milan à prateleira de cima do futebol italiano e europeu.

“Na vida, tudo é sobre desafios. Senti que eu havia feito o bastante e cheguei a um momento em que precisava decidir se continuaria a jogar ou não. Era um grande desafio voltar e tentar mudar a mentalidade, a situação, e tentar fazer os jogadores entenderem o que é o Milan. O Milan que eu conheço e que todo o mundo conhece.”

Parte disso implica se envolver para além de suas obrigações pessoais, elevando o nível de cobrança sobre todos ao seu redor. Algo que, revela Ibra, impulsiona alguns, mas incomoda outros: “Quando eu jogo, eu trago meu caráter, trago minha personalidade e minha qualidade, óbvio. Eu coloco muita pressão nos meus companheiros, tento tirar o esforço máximo dos meus companheiros. Alguns encaram isso de uma maneira boa, outros, menos, e alguns não conseguem lidar com isso. Eles acham muito difícil, no sentido de que você tem que ir bem quando decidimos que você tem que ir bem, e eu decido que nós temos que ir bem todos os dias. Porque, para mim, o jeito como você treina é o jeito como você joga”.

Apesar de toda essa cobrança, Ibrahimovic sabe diferenciar contextos de vida e espera mais dos mais velhos e experientes do que dos jovens, que ainda estão aprendendo com os seus erros. Isso, é claro, até todos entrarem em campo. Lá dentro, não há diferenças entre os companheiros.

“Independentemente de você ser jovem ou velho, eu coloco a mesma pressão sobre você. Porque, se você está aqui, significa que você está aqui por um motivo: você é bom o bastante. Mas aí, fora do campo, obviamente você é jovem, e então eu te trato de uma maneira diferente, o comportamento é diferente em comparação com os mais velhos. Mas, no campo, eles são todos a mesma coisa para mim”, apontou.

Repetindo uma frase que passou a usar bastante nos últimos anos, e que tem justificado sempre que entra em campo, Ibrahimovic afirmou se sentir como Benjamin Button, de David Fincher. Atrevimento e exagero à parte, garante estar sempre ouvindo todos os sinais de seu corpo para saber quando parar. A questão é que, até agora, seu corpo – e seus números, francamente – não dá indícios de estar perto de parar.

“Eu nunca estou satisfeito, eu sempre quero mais, e talvez seja por isso que estou aqui hoje, podendo ter um bom desempenho e fazer o que estou fazendo. Não conheço muitos jogadores que tiveram ou estão tendo um desempenho como eu. Eu me considero como Benjamin Button, eu rejuvenesço a cada ano que passa, a cada dia que passa, então, enquanto eu puder jogar, eu vou jogar, isso eu prometo. E, enquanto eu tiver um bom desempenho, eu jogarei em (um futebol de) alto nível”, garantiu.

“No dia que eu não tiver mais um bom desempenho, não irei jogar mais, porque eu preciso me sentir vivo, preciso sentir que estou dando algo em troca”, encerrou.

Pergunte a qualquer torcedor do Milan, e ele confirmará que, até agora, o saldo desta troca é extremamente positivo. Isso para não dizer que o sueco é quem mais está trazendo coisas para a balança.