Imagine que seu time tenha que jogar de portões fechados em metade de suas partidas no campeonato nacional. Imagine, ainda, que seu time acabou de construir seu novo estádio com arquibancadas móveis e que, pela interdição, terá de devolver o dinheiro dos que compraram carnês de ingressos para a temporada e que não ganhará mais com bilhetes avulsos. Imagine, ainda, que o clube passa por problemas financeiros, que o presidente do clube foi preso por envolvimento em caso de peculato, e que o elenco é modesto e comandado por um treinador sem experiência na primeira divisão. Para o Cagliari, que vive este insólito panorama, o que poderia ser um convite ao rebaixamento se transformou em uma campanha heroica. Tão heroica quanto a que levou os sardos ao seu único título italiano em 1970, com a genialidade de Luigi Riva.
Já na temporada passada, o Cagliari teve de se privar de seu antigo estádio, o Sant’Elia, que foi interditado por problemas estruturais. Os rossoblù, então, mandaram seus últimos quatro jogos da temporada no estádio Nereo Rocco, em Trieste – distante pouco mais de 1.000 quilômetros da sua sede. A partir daí, o clube assinou um convênio com a comunidade de Quartu Sant’Elena, vizinha a Cagliari, e recuperou um estádio utilizado para futebol amador. A construção de arquibancadas móveis, muito próximas ao campo, transformou a Is Arenas , cujo nome nada tem a ver com arena: em sardo, significa “As dunas”. O local, reconhecido pelos montes de areia, agora abrigava um estádio à inglesa, com capacidade para 16.500 pessoas e ótimo gramado. Mas, por outro lado, muitos problemas.
Depois de abrir o estádio com apenas parte dos requisitos necessários, o Cagliari mandou seu primeiro jogo na Serie A, contra a Atalanta, com os portões fechados. No jogo seguinte, contra a Roma, o presidente Massimo Cellino resolveu desobedecer a comissão de segurança da cidade e incitou os torcedores que tinham o carnê de ingressos para a temporada, o chamado abbonamento, para ir ao jogo. A partida foi cancelada e, no tapetão, os romanos acabaram com os três pontos, já que o Cagliari foi considerado culpado pela não realização. Até aquele momento, estava claro: a má administração do Sant’Elia, de responsabilidade estatal, acabava por dificultar a vida cagliaritana. O presidente Cellino, fanfarrão como sempre, também.
A partir dali, o Cagliari conseguiu liberar seu estádio, mas por pouco tempo: Cellino foi preso no final de fevereiro por ter se envolvido em um escândalo com a prefeitura de Quartu Sant’Elena, que havia liberado o estádio de maneira irregular, e a partir de então nenhum torcedor entrou mais no estádio. Novamente, a equipe se mudou para Trieste. Até agora, a equipe teve 16 mandos de campo e apenas seis destes jogos com torcida plena, na Is Arenas. Em outros três jogos, a capacidade máxima do estádio era de 5.000 pessoas. Ao todo, foram 7 vitórias, 4 empates e 5 derrotas – 25 dos 42 pontos da equipe foram conquistados em casa e a maior parte deles sem que qualquer torcedor visse os jogos das arquibancadas.
Os méritos são todos do modesto elenco e do técnico Ivo Pulga, que substituiu o fraco Massimo Ficcadenti a partir da 7ª rodada, em uma dobradinha com o auxiliar Diego López, histórico jogador da equipe sarda. Pulga, sem experiência como técnico de times profissionais, deu jeito na equipe, implantando um moderno 4-3-3, com meio-campo forte e criativo ao mesmo tempo. Os resultados são inversamente proporcionais aos gastos da equipe com transferências e salários. A base cagliaritana é a mesma há três anos e são feitas apenas contratações pontuais – Nainggolan, três anos atrás, Ibarbo, Thiago Ribeiro e Ekdal, há dois, Pinilla e Rossettini, neste ano.
As categorias de base também são importantes: a equipe revelou o vice-capitão Pisano, o artilheiro Sau (12 gols) e o novo titular da lateral esquerda, Murru, de 19 anos. Sem falar nas evoluções de Conti (contratado junto à Roma quando tinha 20 anos) e Astori, que chegou do Milan com 21. Hoje, com a segunda folha salarial mais baixa da Serie A (15,9 milhões de euros anuais, segundo dados da Gazzetta dello Sport), quase 10 vezes menor que a do Milan, e com nenhum salário superior a 750 mil euros anuais, os sardos ocupam a 9• colocação no campeonato, igualando sua classificação em 2008-09, quando Max Allegri, atualmente no Milan, treinava o time. É o melhor desempenho desde 1992-93, época em que o genial Enzo Francescoli jogava pelo clube e levou o clube à 6ª posição e à Copa Uefa. É para aplaudir.
Pallonetto
– Seleção Trivela da 33ª rodada: Handanovic (Inter), Benatia (Udinese), Capuano (Pescara), Chiellini (Juventus); Cuadrado (Fiorentina), Behrami (Napoli), Kovacic (Inter), Santana (Torino), Armero (Napoli); Di Natale (Udinese), Pandev (Napoli). Técnico: Francesco Guidolin (Udinese).



