Serie A

Há 20 anos, a Roma vivia a inesquecível conquista do seu terceiro Scudetto, inspirada por Totti e outros gigantes

Depois de 18 anos em jejum, a Roma faturou o título da Serie A 2000/01 com um timaço dirigido por Fabio Capello

Talvez não exista data mais doce para a torcida da Roma do que 17 de junho de 2001. Aquele dia, há exatos 20 anos, marcou a conquista do terceiro Scudetto do clube. O título que encerrou um jejum de 18 anos na Serie A e que, um ano depois da conquista da Lazio, deu uma resposta saborosa aos maiores rivais. A campanha fez jus ao timaço dirigido por Fabio Capello. Nomes importantes do elenco giallorosso enfim viviam sua consagração, como Aldair, Cafu, Tommasi ou Delvecchio. Aquela campanha também recompensava o investimento feito pela diretoria naqueles anos, em especial ao tirar Batistuta da Fiorentina, mas também por adicionar talentos como Montella, Samuel, Emerson ou Nakata. De qualquer maneira, a grandiosidade daquela temporada se torna ainda maior graças a Francesco Totti.

Os romanistas não sabiam, mas aquele seria o único Scudetto de Totti. O maior título do homem que dedicou sua vida ao clube e encarna o espírito giallorosso. Olhando em perspectiva, assim, aquele troféu possui um significado especial. Seria mais que a confirmação do craque de 24 anos, empossado capitão. Aquela competição guardou o melhor futebol do camisa 10, com uma dose de fantasia misturada com sua voracidade diante do gol. Em repetidas partidas Totti foi o melhor em campo, seja pelos tentos importantes ou pelos lances que habilitaram os companheiros. Ali, sua lenda começaria a se tornar eterna. E, no fim das contas, seria o ápice de uma relação de amor tão bonita. O melhor do melhor de todos os tempos da Loba.

Os 18 anos em jejum da Roma

A Roma esteve entre os clubes que melhor aproveitaram a reabertura dos portos da Serie A a jogadores estrangeiros nos anos 1980. A contratação de Paulo Roberto Falcão impulsionou os giallorossi, que já vinham da conquista da Copa da Itália na virada da década. De 1979/80 a 1985/86, os romanistas conquistaram quatro edições da Coppa, terminaram por cinco vezes entre os três primeiros da Serie A e foram vice-campeões da Champions. O ápice, de qualquer maneira, aconteceu com o Scudetto de 1982/83 – que encerrava um jejum de quatro décadas no clube. O Rei de Roma era a grande estrela internacional naquela campanha, mas outros tantos ídolos recheavam o elenco em Trigoria – como Bruno Conti, Roberto Pruzzo, Carlo Ancelotti, Pietro Vierchowod, Agostino Di Bartolomei, Franco Tancredi e um jovem Giuseppe Giannini, que não chegou a atuar naquela Serie A.

Todavia, aquela força vista na Roma durante a primeira metade da década de 1980 não se manteve. O técnico Nils Liedholm passou o bastão a Sven-Göran Eriksson, que não foi capaz de manter o patamar, mesmo conquistando a Copa da Itália em 1986. A base italiana envelheceu e mesmo ídolos estrangeiros não conseguiriam reproduzir o impacto, a exemplo de Zbigniew Boniek e Rudi Völler. Além do mais, também rolaram contratações frustradas e nem mesmo o retorno de Liedholm salvaria a lavoura. Com a ascensão do Napoli, do Milan, da Sampdoria e da Internazionale na metade final da década, os giallorossi viraram coadjuvantes da Serie A. Conquistar a vaga na Copa da Uefa parecia de bom tamanho.

O início da década de 1990 ainda guardou um bom momento para a Roma. Em 1990/91, o clube voltou a conquistar a Copa da Itália, assim como seria vice-campeão da Copa da Uefa. Porém, seria um ponto fora da curva, num período em que os giallorossi permaneciam como coadjuvantes dentro do Calcio. Naquele mesmo ano de 1991, o presidente Dino Viola faleceu e gerou um período bastante instável no Estádio Olímpico. A chegada de novos donos alheios ao ambiente do futebol e que ainda estiveram envoltos em casos de corrupção ameaçou os romanistas de falência. O jeito seria reconstruir as bases com os pés no chão, em processo liderado pelo presidente Franco Sensi a partir de 1993.

A Roma chegou a apostar em diferentes técnicos ao longo dos anos 1990 e não chegava a fazer contratações tão midiáticas, se comparada a outros clubes fortes naquele período áureo da Serie A. Como resultado, estava acostumada a ocupar posições intermediárias na tabela e nem mesmo levaria mais a Copa da Itália. A certeza ficava ao redor dos jogadores da base que passavam a se firmar, assim como outros novatos que começavam a construir seus nomes na capital. Mesmo a vinda de Carlos Bianchi após conquistar a Libertadores com o Vélez Sarsfield se provaria infrutífera aos romanistas.

Um nome importante no restabelecimento da Roma foi Zdenek Zeman. O treinador famoso por sua filosofia ofensiva chegou em 1997/98, logo depois do ano conturbado com Carlos Bianchi e da volta de Liedholm de maneira interina. O comandante chegou a conseguir um quarto lugar na sua primeira campanha, a melhor colocação do clube em mais de dez anos. Mais importante, aprimoraria a base à disposição e impulsionaria o desenvolvimento de alguns jogadores – com destaque ao jovem Francesco Totti. No entanto, sem que o elenco fosse totalmente mantido para o segundo ano, o futebol feroz não foi suficiente para melhorar o rendimento e, com a perda de posições na tabela, a direção resolveu apostar num novo comandante a partir de 1999/00. Havia um nome perfeito no mercado.

A chegada de Fabio Capello

A Roma apostou sua grande cartada em Fabio Capello. O treinador representava o tamanho da ambição dos giallorossi naquele momento, em que as contas estavam restabelecidas e era possível fazer investimentos mais altos no futebol. A trajetória do técnico, ex-jogador do clube em seus tempos de meio-campista, falava por si. Capello tinha pendurado as chuteiras no Milan e por lá começou dirigindo as categorias de base. Chegaria a treinar o time principal brevemente antes da chegada de Arrigo Sacchi, até passar um período como dirigente. Já em 1991, seria ele o substituto de Sacchi quando este saiu à seleção. Manteve o patamar altíssimo dos rossoneri.

Capello conquistou um tricampeonato italiano e também levou a Champions League em 1994. Não conseguia aplicar um futebol tão dinâmico quanto o de Sacchi, mas montou um time suficientemente seguro e, de certa maneira, até mais competitivo dentro da Serie A. Deixou o San Siro apenas para comandar o Real Madrid e, mesmo sendo campeão, ficou apenas uma temporada por conta de conflitos com a direção. Depois disso, também retornou ao Milan por alguns meses, mas longe de repetir o desempenho. Quando a Roma contratou Capello, o técnico não estava exatamente no auge da fama, após um ano sabático como comentarista na televisão. Em compensação, vinha mordido para recuperar seu prestígio na capital, dentro de um clube que fazia parte de sua própria história.

Capello aplicaria um estilo de jogo menos agressivo que o 4-3-3 preferido de Zeman. Ainda assim, aproveitaria mecanismos e peças deixadas por seu antecessor, montando uma equipe mais equilibrada. Também ganharia novidades. Vincenzo Montella e Hidetoshi Nakata foram os reforços mais estelares para aquela temporada de 1999/00. O goleiro Francesco Antoniolli e o volante Cristiano Zanetti também seriam importantes para encorpar um pouco mais o grupo. Também chegavam apostas do Brasil, como Marcos Assunção e Fábio Júnior – este, sem emplacar. Num grupo que já via Aldair, Cafu, Damiano Tommasi, Marco Delvecchio e Francesco Totti formando uma espinha dorsal, os romanistas se permitiam aumentar suas expectativas para a Serie A.

Todavia, o primeiro ano de Capello não seria tão bom quanto o planejado. O time até conquistou alguns resultados significativos, com destaque aos 4 a 1 no dérbi contra a Lazio, que chegaram a botar os giallorossi na liderança em meados do primeiro turno. Contudo, faltou regularidade e o clube não disputaria o Scudetto até o fim. Terminou num modesto sexto lugar, que rendeu apenas uma vaga na Copa da Uefa. Muito pior, o título ficou exatamente com os maiores rivais. Impulsionada pelo dinheiro da Cirio, a Lazio reunia um verdadeiro esquadrão e já vinha de anos mais vitoriosos no fim da década de 1990, erguendo outras taças como a Copa da Itália e a Recopa Europeia. De qualquer maneira, o ápice ocorreu mesmo com o Scudetto de 1999/00, encerrando um jejum de 26 anos dos biancocelesti no Campeonato Italiano.

A Roma não abriria mão de Capello por causa da temporada agridoce. Pelo contrário, o clube tentaria chegar ainda mais forte para a Serie A 2000/01, segurando o seu treinador e apostando em mais reforços. A entrada dos romanistas no mercado de ações permitiu um novo aporte financeiro de primeiro momento e isso levaria a diretoria a ter melhores possibilidades na janela de transferências. E, de fato, as movimentações seriam essenciais para que os giallorossi recebessem a pecha de favoritos, independentemente do sexto lugar. A principal aquisição seria de Gabriel Omar Batistuta, lendário na Fiorentina, mas ainda em busca de seu primeiro Scudetto. Por mais que a idade do veterano fosse uma questão, aos 31 anos, não dava para refutar o poder de fogo do argentino e sua trajetória como um dos maiores goleadores do Calcio nos anos 1990.

Batigol não chegava sozinho. Outro reforço argentino era Walter Samuel, campeão da Libertadores com o Boca Juniors e que também custava caro, considerando seu potencial. O novato daria mais firmeza ao sistema defensivo de Capello. O treinador também encontraria seu homem de confiança, o volante Emerson, contratado junto ao Bayer Leverkusen. Embora assumisse uma função mais ofensiva na Bundesliga, o Puma viraria um verdadeiro cão de guarda na meia-cancha romanista. Contudo, com uma séria lesão ligamentar, ainda demoraria a estrear no Estádio Olímpico.

O pacote de novidades da Roma incluía ainda Jonathan Zebina, vindo do Cagliari, que seria útil como uma opção tanto na zaga. Gianni Guigou desembarcava do Nacional de Montevidéu e seria uma alternativa a mais no meio-campo, após ser vice-campeão da Copa América com a seleção do Uruguai. E ainda havia um fator emotivo no retorno de Abel Balbo. O atacante argentino foi um dos maiores símbolos das vacas magras romanistas durante os anos 1990, mesmo empilhando gols no Estádio Olímpico. Voltava já longe de seu melhor, depois de passagens por Parma e Fiorentina, mas ao menos com o gosto de reintegrar o grupo em busca de um merecido título com a camisa que tanto honrou.

O time da Roma

Capello não abria mão de sua segurança defensiva. E isso vinha com um sistema muito bem montado com seus três zagueiros. A partir disso, o treinador tinha mais elementos para variar seu jogo e garantir as vitórias. Contava com alas ofensivos, combinando a energia de Cafu com a classe de Candela. Também podia montar uma cabeça de área mais combativa, a depender do confronto. E, principalmente, via seus virtuosos se entenderem à perfeição no ataque. Enquanto Totti servia de maestro naqueles tempos gloriosos dos giallorossi, a combinação de Batistuta e Delvecchio na frente, além da alternativa sempre efetiva de Montella, costumava render muitos frutos. Mais madura e com as peças certas, a Loba cumpriu as expectativas.

Antonioli não era um goleiro badalado, mas conhecia Capello desde os tempos de Milan, quando era reserva de Sebastiano Rossi. Teve uma passagem marcante pelo Bologna, até se transformar numa liderança na capital. Era uma das principais referências da equipe assim como Aldair, o mais antigo do elenco. O zagueiro já somava uma década na capital e era o único remanescente da Copa da Itália conquistada em 1991, o último título dos giallorossi até então. O Pluto completou 35 anos no meio daquela temporada e a idade custava seus minutos em campo, mas nem por isso deixava de ser um exemplo de qualidade técnica e dedicação à instituição.

Enquanto Aldair saía de cena, Antônio Carlos Zago era brasileiro de carreira experimentada presente e que desembarcou no Calcio depois de acumular títulos com as camisa de São Paulo e Palmeiras. Tinha um papel importante na construção de jogo. Os veteranos contrastavam com a ascensão de Zebina e principalmente Samuel, dois atletas que não passavam dos 23 anos e aumentaram a combatividade na linha defensiva dos romanistas. O argentino, em especial, se mostrou mais do que pronto para se adaptar às exigências do Calcio e se confirmar como um dos melhores beques em atividade no mundo por sua marcação cerradíssima. O Scudetto teria um papel importante nesta sua afirmação, como o nome mais presente entre os quatro zagueiros principais.

A legião brasileira da Roma se ampliava com Cafu na ala direita. O paulista já tinha duas finais de Copa do Mundo no currículo a esta altura e estava mais do que acostumado ao alto nível de exigência. Suas escapadas pela lateral eram um respiro fundamental aos giallorossi. Era incansável durante os 90 minutos e ainda incutia uma mentalidade positiva nos vestiários. Na esquerda, aparecia Vincent Candela, com um estilo de jogo mais técnico, proporcionando uma boa saída por seu lado graças à qualidade com a canhota. O francês seria, inclusive, o atleta que acumulou mais minutos em campo durante aquela Serie A.

Pelo meio, Damiano Tommasi garantia o equilíbrio e era a peça principal na proteção da trinca de zaga. O volante tinha grande presença física e acumulava uma boa experiência na Roma, após ser trazido do Verona aos 20 anos. Ao seu lado, o parceiro mais costumeiro foi o novato Cristiano Zanetti, que tinha chegado a pouco do Cagliari e se firmaria com a camisa dos giallorossi. De qualquer maneira, seria também importante a entrada de Emerson na virada dos turnos. Mesmo que tenha jogado pouco naquela temporada por conta dos problemas físicos, o brasileiro apresentaria os predicados que o tornaram um dos jogadores favoritos de Capello, por sua pegada e sua eficiência. Marcos Assunção e Guigou foram outros a participarem no setor, com as famosas faltas do brasileiro rendendo alguns tentos.

A ligação da Roma tinha à disposição Nakata, talvez o mais habilidoso dos jogadores asiáticos na história, que tinha experiência na Serie A mesmo aos 24 anos. Ainda assim, o homem responsável por criar e por organizar as ofensivas romanistas se chamava Francesco Totti. O Capitano ostentava a braçadeira aos 24 anos e era imprescindível ao estilo de jogo aplicado por Capello. Além de sua capacidade na definição, também fazia a diferença por explorar os espaços e também abrir brechas aos seus companheiros com seus passes cirúrgicos. Não foi o momento mais prolífico da lenda, mas certamente foi o mais importante de sua belíssima trajetória no Estádio Olímpico. Exibia um futebol mais instintivo e mais requintado nesta época, atuando um pouco mais no papel de trequartista.

Tal liberdade de Totti era importante, porque Batistuta tinha a missão de preencher a área adversária e segurar os zagueiros oponentes. O argentino preservava a explosão de seus arremates, combinada com o faro de gol para se posicionar à espreita e garantir os tentos. Delvecchio costumava completar uma trinca ofensiva dando mais mobilidade e abrindo o jogo pelos lados do campo. Era um incômodo cortando para dentro, além de participar bastante na criação. De qualquer forma, seria importante também a ascensão de Montella. Muitas vezes saindo do banco de reservas (o que gerava críticas sobre Capello), o camisa 9 era uma arma extra ao desempenho da equipe e acumulou gols decisivos, especialmente no segundo turno, quando se tornou mais frequente no 11 inicial dos giallorossi.

A concorrência

A Roma claramente entrava forte na Serie A com Fabio Capello e tantos jogadores de qualidade. Ainda assim, era difícil de considerar os giallorossi como únicos favoritos ao Scudetto. Afinal, o Calcio ainda vivia a bonança iniciada na década de 1980 e permanecia considerado como o campeonato nacional mais poderoso do mundo. Bastava ver a quantidade enorme de craques à disposição.

A Lazio começou a campanha dirigida por Sven-Göran Eriksson e mantinha a base campeã na temporada anterior, mas com algumas alterações sensíveis. Nomes como Roberto Mancini, Alen Boksic, Attilio Lombardo, Néstor Sensini e Matías Almeyda saíram do Estádio Olímpico. Porém, a endinheirada diretoria não deixou por menos e também trouxe Dino Baggio, Hernán Crespo, Claudio López, Karel Poborsky e Angelo Peruzzi. Dentre os remanescentes do Scudetto apareciam Pavel Nedved, Alessandro Nesta, Sinisa Mihajlovic, Diego Simeone, Marcelo Salas, Dejan Stankovic e Juan Sebastián Verón. No papel, dava até para argumentar que o lado mais forte da capital ainda era o biancoceleste.

A Juventus de Carlo Ancelotti tinha o craque da Euro 2000, Zinédine Zidane. Ainda era a espinha dorsal que rendeu tanto à Velha Senhora naquela virada de século. Alessandro Del Piero se impunha como o outro grande protagonista, acompanhado por Edgar Davids, Ciro Ferrara, Filippo Inzaghi, Antonio Conte, David Trezeguet e Gianluca Zambrotta. Já a Inter tinha Marcello Lippi de início no banco de reservas, mas as turbulências internas o queimariam na primeira rodada. O clube abriu mão de Roberto Baggio, enquanto o mercado de transferências movimentado garantia Hakan Sükür e Robbie Keane – que não emplacariam em Milão. O craque Ronaldo lidava com seu drama pelas seguidas lesões e sequer entrou em campo em 2000/01. Mas havia outras tantas peças para estrelar os nerazzurri: Christian Vieri, Clarence Seedorf, Álvaro Recoba, Javier Zanetti e Iván Córdoba.

Do trio de ferro da Serie A, quem vivia o momento de maior desconfiança era o Milan, dirigido de início por Alberto Zaccheroni. Mas não que faltasse talento com Andriy Shevchenko, Paolo Maldini, Demetrio Albertini, Alessandro Costacurta, Oliver Bierhoff, Zvonimir Boban, Gennaro Gattuso e Leonardo – além do recém-contratado Fernando Redondo, que sequer pôde estrear naquele ano por conta das contusões. Quem se metia entre os grandes e inspirava respeito era o Parma, dirigido por Alberto Malesani. A fonte da Parmalat logo secaria, mas aquele grupo ainda incluía Gianluigi Buffon, Fabio Cannavaro, Lilian Thuram, Néstor Sensini, Matías Almeyda, Johan Micoud e Marco Di Vaio.

Os seis primeiros da temporada 1999/00 se repetiriam também em 2000/01. De resto, os demais clubes pareciam um patamar abaixo. A Fiorentina tinha perdido Batistuta, mas ainda reunia Francesco Toldo, Rui Costa, Moreno Torricelli, Enrico Chiesa, Nuno Gomes e Angelo Di Lívio. O clube ainda tirou o técnico Fatih Terim do Galatasaray, após a conquista da Copa da Uefa, para substituir Giovanni Trapattoni. O Brescia de Carlo Mazzone daria um salto com Roberto Baggio, acompanhado pelo artilheiro Dario Hübner e por Andrea Pirlo na metade final da campanha. A Atalanta teria um bom rendimento com Cristiano Doni e Nicola Ventola estrelando a linha ofensiva. Também vale citar o Bologna, que trazia veteranos como Gianluca Pagliuca e Giuseppe Signori.

Mesmo a parte inferior da tabela incluía suas estrelas. O Perugia era capitaneado por Marco Materazzi, que foi até artilheiro do time. A Udinese contava com a grande forma de Stefano Fiore com a camisa 10. O Lecce desfrutava dos gols de Cristiano Lucarelli. O Verona reunia Mauro Camoranesi e Adrian Mutu, o Vicenza via despontar Luca Toni, o Bari contava com Antonio Cassano. Até o Napoli, rebaixado e à beira do caos, trazia um craque do calibre de Edmundo – já abaixo de sua melhor forma, porém.

O primeiro turno

A Roma precisou de poucos jogos para apresentar suas reais intenções naquela Serie A de 2000/01. Desde as primeiras partidas, ficou claro o potencial dos giallorossi para ambicionarem o Scudetto. E a campanha começou com uma boa vitória no Estádio Olímpico, 2 a 0 sobre o Bologna. Antes que o resultado se encaminhasse, Antonioli precisou realizar boas intervenções. Mas não demorou para que o triunfo fosse definido. Totti marcou o primeiro de cabeça, aproveitando uma falta cobrada por Marcos Assunção, antes de Marcello Castellini contribuir com um gol contra no segundo tempo.

A Roma tomaria a liderança logo na terceira rodada, garantindo 100% de aproveitamento neste bom início. A tabela também ajudou, botando adversários mais modestos no caminho. Batistuta abriria sua contagem pelo novo clube com dois gols nos 4 a 0 sobre o Lecce, enquanto Totti foi o grande nome nos 3 a 1 sobre o Vicenza. A primeira derrota dos romanistas ocorreu na quarta rodada, durante a visita à Internazionale. Os nerazzurri venceram por 2 a 0, com Sükür e Recoba balançando as redes no San Siro. Com isso, a Udinese saltava de maneira surpreendente à primeira colocação.

Não demorou para que a Roma retomasse a dianteira e não saísse mais de lá. Foram mais quatro vitórias consecutivas até o fim de novembro. A série começou com os 4 a 2 sobre o Brescia, em que uma tripleta de Batistuta valeu a virada. Depois, Totti e Montella deram conta nos 2 a 1 sobre a Reggina na capital. No Marcantonio Bentegodi, Batistuta guardou mais dois (com direito a um míssil cobrando falta) nos 4 a 1 em cima do Verona. E o reencontro do artilheiro com a Fiorentina no Estádio Olímpico seria amargo para os torcedores da Viola: o próprio Batigol determinou o triunfo por 1 a 0 dos romanistas. Aos 38 do segundo tempo, o craque mandou uma pancada de primeira de fora da área e encobriu Toldo, naquele que foi um dos tentos mais emblemáticos de sua carreira.

A esta altura, a Roma liderava a Serie A com 21 pontos. Atalanta, Udinese e Bologna completavam a zona de classificação à Champions. O primeiro turno, além de contar com uma ótima arrancada dos romanistas, ainda viu largadas claudicantes dos outros concorrentes. Juventus, Parma, Milan, Lazio e Inter tinham no máximo 15 pontos, concentrados entre a quinta e a décima posição. Lippi já tinha sido trocado por Marco Tardelli na Internazionale. Eriksson não demoraria a ser suplantado por Dino Zoff na Lazio, quando o Parma também abriu mão de Alberto Malesani para um curtíssimo retorno de Arrigo Sacchi, que durou apenas duas rodadas no cargo. Já no início do segundo turno, Fatih Terim deixou a Fiorentina e Alberto Zaccheroni se despediu do Milan. Dos principais concorrentes, só mesmo Ancelotti durou até o fim na Juventus, e sem ficar para a campanha seguinte.

A sequência de vitórias da Fiorentina foi quebrada na nona rodada, com o empate por 0 a 0 fora de casa contra o Perugia. Mas a recuperação teria triunfos importantes. Primeiro, os 2 a 1 sobre a Udinese no Olímpico, com gols de Batistuta e Totti – além de um pênalti perdido pelo Capitano. Depois, veio o triunfo por 1 a 0 no Dérbi contra a Lazio, que antecedeu a demissão de Eriksson. O primeiro tempo foi amarrado, deixando as emoções para a segunda etapa. Peruzzi salvava os biancocelesti, até que um gol contra de Paolo Negro abrisse o marcador. Nedved ainda carimbou o travessão, mas não evitou o revés diante dos rivais, que pareciam prontos a tomar o Scudetto.

A Juventus era a adversária na rodada seguinte, numa altura em que havia subido à vice-liderança, mas permanecia seis pontos atrás da Roma. O empate por 0 a 0 no Estádio Olímpico preservou a diferença, com os bianconeri até levando mais perigo. Aquele jogo foi o último antes da pausa de inverno. Na volta às atividades, a Roma bateu por 2 a 0 a Atalanta, sua algoz na Copa da Itália ainda na primeira fase. Delvecchio e Tommasi marcaram os gols. O empate por 1 a 1 na visita ao Bari não foi o melhor dos resultados, enquanto os giallorossi sofreram sua segunda derrota de novo no San Siro, batidos pelo Milan por 3 a 2. Shevchenko marcou dois e Leonardo fez o outro, com Totti descontando duas vezes para a Roma.

No fim do primeiro turno, a Roma se recuperou com duas importantes vitórias. Fez 3 a 0 sobre o Napoli, numa atuação imparável de Cafu, e também 2 a 1 em cima do Parma, com Batistuta balançando as redes ambas as vezes para garantir a virada. Aldair e Samuel também ajudaram muito, com duas assistências magistrais para o artilheiro. Os giallorossi fecharam a primeira metade da campanha com 39 pontos conquistados em 51 possíveis. Mesmo o período mais instável não tirou a vantagem dos romanistas na ponta. Lazio e Juventus vinham logo atrás, mas com seis pontos a menos. De resto, ninguém parecia ter qualidade para uma reviravolta àquela altura – com destaque negativo às campanhas de meio de tabela da Inter e do Parma.

O segundo turno

A tabela do início dos turnos ajudava. Mais uma vez, a Roma tirou proveito da fragilidade dos oponentes para disparar. Ganhou os cinco primeiros compromissos do returno e chegou a sete vitórias consecutivas. O momento positivo começou com os 2 a 1 sobre o Bologna fora de casa. Na sequência, a Loba fez 1 a 0 no Lecce e 2 a 0 no Vicenza. A recuperação de Emerson, após romper os ligamentos, tinha muito peso. O meio-campista assinalou gols decisivos contra Bologna e Vicenza.

O jogo mais duro da Roma naquela série ocorreu diante da Inter, no Olímpico. A revanche viria num movimentado 3 a 2, com um primeiro tempo eletrizante e o triunfo só carimbado no fim. Vieri abriu o placar para os nerazzurri, antes de Marcos Assunção empatar numa cobrança de falta que ninguém desviou. Montella deu a virada aproveitando mais uma falta de Assunção que bateu no travessão, enquanto Vieri voltaria a deixar tudo igual antes do intervalo. A indefinição permaneceu até os 41 do segundo tempo, quando Samuel ajeitou uma cobrança de escanteio e Montella se confirmou como herói. Uma rodada depois ainda rolaram os 3 a 1 sobre o Brescia, com Assunção repetindo a dose de falta e Montella deixando mais dois.

A Roma voltou a tropeçar na sexta rodada do segundo turno, ao empatar por 0 a 0 com a Reggina. Recuperou-se com os 3 a 1 sobre o Verona no Olímpico, quando Montella marcou o sexto gol numa sequência de cinco partidas. O time fechava 24 rodadas com 58 pontos, nove a mais que a Juventus e 12 à frente da Lazio. Paralelamente, a Serie A virava único objetivo na temporada: os romanistas tinham caído nas oitavas de final da Copa da Uefa contra o Liverpool, numa eliminação que acabou marcada por uma arbitragem absurda do espanhol José María García Aranda em Anfield. O espanhol cancelou um pênalti marcado, em tempos bastante anteriores ao uso do VAR. Apesar da revolta pelo ocorrido, os italianos poderiam se concentrar apenas na liga.

O problema para a Roma é que a reta final do Campeonato Italiano não seria tão tranquila quanto se prometia. A equipe voltou a perder fôlego e acumulou uma série de tropeços, com os empates permitindo que Juventus e Lazio reduzissem as distâncias. A terceira e última derrota naquela campanha ocorreria no 25° compromisso. Na visita ao Artemio Franchi, a Fiorentina teve seu troco contra Batistuta e ganhou por 3 a 1 – com Chiesa anotando dois gols, incluindo uma pintura cobrando falta. Logo depois, a Loba empataria por 2 a 2 no Olímpico contra o Perugia, com um gol contra nos acréscimos evitando o pior aos anfitriões – depois que Antonioli já tinha tomado um frangaço do outro lado.

O respiro aconteceu com os 3 a 1 diante da Udinese no Friuli. Montella, Tommasi (num belíssimo chute de primeira) e Nakata fizeram os gols num triunfo que providenciou um pouco mais de tranquilidade à Roma para encarar a sequência decisiva. Afinal, o time pegaria a Lazio e depois visitaria a Juventus em Turim. Os bianconeri tinham reduzido a distância para seis pontos, contra cinco dos laziali.

O empate por 2 a 2 contra a Lazio soou como oportunidade desperdiçada. Afinal, a Roma chegou a abrir dois gols de vantagem no dérbi durante o início do segundo tempo. Batistuta marcou o primeiro, aproveitando um cruzamento de Delvecchio, e o próprio Delvecchio não demorou a ampliar. Porém, Nedved descontou aos 33 com um chutaço de fora da área e a igualdade foi arrancada aos 50, quando Lucas Castromán pegou na veia uma sobra de bola. Pelo menos a pressão não aumentava tanto assim, já que a Juventus só empatou com o Lecce em Turim. O confronto direto a seis rodadas do fim seria essencial para mostrar quão aberta ainda estava a Serie A.

De novo, a Roma empatou por 2 a 2. Porém, o resultado no Estádio Olímpico de Turim guardou a história inversa, com os giallorossi arrancando na unha o ponto contra a Juventus, já nos acréscimos do segundo tempo. A Velha Senhora até ensaiou um baile, com gols de Del Piero e Zidane anotados em apenas seis minutos. Demorou para os romanistas reagirem e a substituição de Totti por Nakata deve ter feito muitos torcedores xingarem Capello. O treinador, no entanto, sabia o que fazia. Nakata descontou aos 34 do segundo tempo, num chutaço da intermediária que saiu do alcance de Edwin Van der Sar. Já aos 46, o substituto tentou de novo. Chutou de longe, desta vez para Van der Sar espalmar, mas Montella escorar no rebote. Os romanistas celebravam feito uma vitória.

A Lazio até diminuiu a vantagem da Roma para cinco pontos, mas os giallorossi cumpriram sua parte nas duas partidas seguintes. Derrotaram a Atalanta por 1 a 0, com mais um gol de Montella, e golearam o Bari por 4 a 1, com destaque aos dois tentos de Batistuta, mas também à pintura de Candela. Com mais nove pontos em jogo nas três rodadas finais, a gordura de cinco pontos se preservava aos romanistas. Só uma romada gigantesca negaria o Scudetto depois de 18 anos. Apesar dos deslizes, o clube da capital acabaria por consumar o título.

A consagração

Na antepenúltima rodada, a Roma recebeu o Milan. Não conseguiu o troco pelo primeiro turno, mas o empate por 1 a 1 não era tão ruim assim. Os rossoneri fecharam o primeiro tempo em vantagem, graças a uma cabeçada de Francesco Coco. Na volta ao segundo tempo, os romanistas provocaram uma blitz no Olímpico. O empate saiu da maneira mais sublime, com um golaço de Montella, encobrindo o goleiro Rossi com um toque sutil de fora da área. Pouco antes, uma confusão havia rendido as expulsões de Candela e Kakha Kaladze. Serginho também iria para o chuveiro mais cedo, mas o time da casa não aproveitou a vantagem numérica. A Loba via sua vantagem cair para quatro pontos, depois que a Juve venceu o Perugia. Já a Lazio ficava para trás, ao empatar com a Inter.

A Roma flertou com o perigo na penúltima rodada. O Napoli vinha ameaçado pelo rebaixamento e conseguiu arrancar o empate por 2 a 2 no San Paolo. Nicola Amoruso abriu o placar aos celestes, antes de Batistuta empatar aos 42. Na volta ao segundo tempo, Totti virou, mas os romanistas não preservaram a vantagem, já que Fabio Pecchia deixou tudo igual a dez minutos do fim numa cobrança de falta que passou no meio da barreira. Com a vitória da Juventus sobre o Vicenza por 3 a 0, a definição ficaria para a rodada final. A Lazio também corria por fora, ao bater a Fiorentina. De qualquer maneira, a Loba ainda dependia apenas de si, fechando sua campanha contra um Parma que estava distante de intimidar tanto quanto em outras temporadas.

O jogo do título aconteceria no Estádio Olímpico. E não haveria outro palco para aquela partida, considerando o furor entre os torcedores romanistas. As arquibancadas pulsavam com 75 mil pessoas. Havia um clima fantástico que raras vezes se viu no estádio, com milhares de bandeiras criando uma atmosfera impressionante. Pois os giallorossi não decepcionariam toda aquela gente. A vitória por 3 a 1 encerrou com chave de ouro a caminhada, garantindo o terceiro título do clube no Campeonato Italiano.

A pressão da Roma era imensa desde os primeiros minutos. O primeiro gol, de qualquer maneira, parecia reservado a ele: Francesco Totti. Candela dominou com categoria pela esquerda e cruzou rasteiro. Batistuta deu o corta luz e o Capitano chegou rasgando, mandando uma pancada que deixou Buffon imóvel. A certeza de que o Scudetto viria aumentava. O relógio marcava 19 minutos e, aos 39, a tranquilidade aumentou. Batistuta arrancou e, diante de Buffon, o goleiro defendeu. Na sobra, Montella apareceu e se provou mesmo como um dos protagonistas daquela campanha, ao deixar sua marca no jogo do título.

Faltava o gol de Batigol. Deixou de faltar aos 33 do segundo tempo, quando o argentino sacramentou o feito. Num lançamento longo, o artilheiro deu um drible seco em Cannavaro e bateu rasteiro, no cantinho de Buffon. Era o 20° tento do Rei Leão naquela Serie A, rendendo o seu tão sonhado Scudetto. Na comemoração, já aconteceu uma invasão para celebrar com o veterano. Di Vaio até descontou, mas seu gol virou uma nota de rodapé. Nos minutos finais, a pista de atletismo ao redor do campo já estava cheia de gente. O apito final desencadeou uma enlouquecida invasão de campo da multidão. A espera de 18 anos, enfim, estava encerrada. Totti ergueria o troféu.

A comemoração não se conteve ao Estádio Olímpico, obviamente. A insanidade tomou também as ruas de Roma. Pontos históricos da Cidade Eterna foram pintados com as cores giallorossi. Os méritos do time de Fabio Capello eram incontestáveis. A campanha se encerrou com 75 pontos, dois a mais que a Juventus. Os romanistas tiveram a terceira melhor defesa, com 33 gols sofridos, enquanto emplacaram o melhor ataque, com 68 tentos marcados. Além do mais, a regularidade fez a diferença, com 22 vitórias e apenas três derrotas em 34 rodadas. O time permaneceu invicto no Estádio Olímpico. Destaque também à média de 64 mil presentes nos jogos da Loba em casa, a maior média daquela competição.

O sucesso, todavia, não se repetiria nestes últimos 20 anos. A Roma permaneceu com um time competitivo e seria duas vezes vice até a saída de Fabio Capello em 2004. O problema estava no fortalecimento dos concorrentes, com as equipes montadas por Juventus, Milan e Internazionale naquela sequência de década. Com o passar dos anos, a competitividade dos romanistas se esfarelou – até pelas consequências dos gastos e pela forma como a entrada no mercado de ações não gerou mais do que uma onda. Totti seguia elevando o nível do clube, mas não necessariamente conseguia botá-lo no topo. A Copa da Itália seria a glória restante, com o bicampeonato em 2007 e 2008.

Depois de Capello, a Roma ainda seria vice-campeã da Serie A outras sete vezes. Nem sempre conseguiu se equiparar realmente a Internazionale e Juventus nestas campanhas, porém. E se a saída de Totti deixou uma lacuna impossível de se preencher no coração dos romanistas, os últimos anos acabaram marcados por má gestões que afastaram a torcida de vez de seus melhores sonhos. O momento é ruim a um clube que sequer consegue reaparecer na Champions. Assim, aquela erupção ocorrida há exatos 20 anos se torna mais importante para alimentar esperanças. Esperanças de dias que, hoje, parecem um bocado distantes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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