A Ópera Fiorentina tem drama e o rebaixamento como o fim provável
Diante de uma crise institucional, financeira e esportiva, a Fiorentina caminha para o rebaixamento que mais do que provável, parece inevitável
Desde o final da temporada passada que a Fiorentina trocou de lugar nas manchetes dos jornais. Ao invés das notícias sobre reforços, contratações, esquemas e craques, tudo o que se fala do time ‘viola’ (que significa ‘violeta’, em italiano) diz respeito à insolvência do clube, das dívidas, das ameaças de falência e dos jogadores vendidos para remediar as finanças da sociedade.
Mergulhada na maior crise financeira de sua história, a Fiorentina agoniza longamente durante a atual temporada rumo à Série B. O sofrimento da torcida e dos moradores da cidade se encaixaria no enredo de uma ópera italiana, que desvela os dissabores da vida e a vocação humana para a dor.
A queda da Fiorentina para a divisão inferior será uma perda importante para o futebol italiano, dada a tradição de rebeldia e de não aceitação às imposições do poder que tem Firenze, além de seu óbvio interesse como clube. Mas não há como escapar de uma gestão irresponsável e criminosa como a que o dono do clube, Vittorio Cecchi Gori, conduziu nos últimos anos em busca de promoção.
Firenze: rebeldia contra o poder italiano
Firenze foi fundada por volta do século XI, à margem do Rio Arno, e se tornou um dos principais pólos econômicos da Idade Média. O sistema bancário europeu teve suas raízes em Firenze, cujos mercadores ricos dispunham de dinheiro para fazer empréstimos. A prática era proibida pela Igreja Católica, o que dispôs a cidade contra o poder vindo do Vaticano, Roma e outros reinos católicos como Nápoles e Navarra.
A vocação rebelde da cidade parte daí. Na sua história, Firenze sempre foi oposição (até hoje, os partidos mais ligados à esquerda têm votações mais expressivas na cidade). Guerras contra os exércitos do Papa e de Roma foram constantes, bem como a luta pela hegemonia na região da Toscana. A herança vem até hoje. A partida de maior risco em Firenze é contra a Roma, cuja torcida vai em massa a Firenze e é odiada pela ‘Curva Fiesole’, arquibancada de uma parte do estádio (que canta: “Raça romana, filhos de putanas”).
A rebeldia se reflete nas rivalidades do time ‘Viola’. Além da já citada Roma, há também a Juventus, equipe aristocrática e profundamente ligada com o poder, dada a sua propriedade pela família Agnelli, descendentes de nobres do país. Nada é mais importante para a Fiorentina que prejudicar a Juventus num campeonato.
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História de poucos títulos e muito orgulho
Em sua história, a Fiorentina nunca teve uma grande quantidade de títulos. A cidade é relativamente pequena (cerca de 300 mil habitantes fixos) e não tem a mesma representatividade de Milão, por exemplo. Mas ao longo da história, a ‘Fiore’ sempre causou dores de cabeça para as grande equipes, além de ter revelado diversos jogadores para o futebol mundial.
O primeiro ídolo inesquecível é o sueco Kurt Hamrin, que era o dono do recorde de gols na Série A usando a camisa da Fiorentina. Em 290 partidas, Hamrin marcou 151 gols e só foi superado por Batistuta na sua última temporada com a malha viola. Juntamente com ele, um brasileiro, Julinho Botelho, ex-ponta da Portuguesa de Desportos e que abriu mão da Copa de 1958, abrindo caminho para Garrincha. Botelho foi um dos heróis do ‘scudetto’ de 1955 e até hoje é ídolo na cidade, além de ser sempre consultado sobre a contratação de algum brasileiro.
Algumas idas para a Série B sempre desgraçaram a vida dos fiorentinos, não obstante a paixão do público que esgota os ingressos do campeonato antes que ele comece. Nem assim diminui o calor. Nos anos 70 e 80, outra grande bandeira do clube foi Giancarlo Antognoni, meio-campista classudo e que foi símbolo da cidade, sempre recusando ofertas de times maiores para permanecer às margens do Arno. Antognoni foi dirigente até três anos atrás, quando pediu demissão por causa da gestão desastrosa de Cecchi Gori.
Na última grande conquista do time, a Copa Itália de 2001, a cidade parou em festa pelo novo troféu. Os jogadores comemoraram com a cidade, que soube ser grata. O calor dos torcedores é intenso. Edmundo, que foi tratado como rei em Firenze, teve uma amostra disso. Ao dirigir descuidadamente na cidade, o desequilibrado craque atropelou um motociclista que quebrou a perna. Enquanto era removido, o torcedor berrava para o atacante: “Edmundo, me desculpe, não quero que você fique preocupado. Me perdoe…” A pesar disso, o ‘Animal’ jamais retribuiu seu carinho. O apelido não há de ser todo carinhoso.
Batistuta, Rui Costa e o amor de Firenze
Se Firenze tem devoção religiosa a alguém é a Gabriel Batistuta. Em nove anos no clube (incluindo um na Série B), Batistuta deixou uma marca tão profunda na cidade que jamais será esquecido por uma torcida que o idolatra. O atacante argentino foi durante quase uma década a salvação da lavoura para um time que não dispunha de grandes recursos. A torcida sempre contava com aquele que poderia, do nada, criar um gol. E ele sempre o fez, estabelecendo a marca histórica de 152 gols pela Série A com a camisa do clube – um recorde!
Um episódio dá a idéia da adoração pelo argentino. Na partida contra o Milan, em 1999, em Firenze, o estádio lotado empurrava a Fiorentina líder. No segundo tempo, Batistuta cai no chão e pede ajuda, depois de um pique sozinho. A torcida sente a gravidade da situação (uma lesão no joelho que arrancou o título do time) e imediatamente começa a cantar: “Bati-Bati-Bati-Batigol”, para seu herói caído, durante cerca de dez minutos. Cena de arrepiar.
Nas orações dos fiorentinos sempre vai existir um espaço também para Manuel Rui Costa, atualmente no Milan. O português jogou sete temporadas na Fiorentina, tornando-se outra unanimidade. Rui Costa cobriu todas as posições do meio-campo em Firenze e sua despedida foi dolorosa para ambos os lados. Depois da saída de Batistuta do time, Rui virou o capitão e venceu a Copa Itália, antes de rumar para Milão.
A devastação de Cecchi Gori rumo à Série B
O produtor cinematográfico Cecchi Gori é o responsável pela ruína da Fiorentina. Baladeiro assumido e acusado pela torcida se abusar dos entorpecentes, Gori assumiu o clube depois da morte de seu pai, no início dos anos 90. A sanha do ex-senador por visibilidade enterrou o clube num sem-fim de dívidas, causadas pela ostentação do cartola. Um exemplo? A Fiorentina assumiu uma dívida de milhões de dólares pela compra de um mega-apartamento em Roma. Que não é do clube, mas sim de Cecchi Gori.
A bancarrota forçou uma intervenção no clube por meio de um administrador delegado que tenta preparar a sociedade para ser vendida para um grupo que possa bancar o que o falido Gori não pode. Mas Cecchi Gori insiste em não vender a Fiorentina a nenhum custo, prisioneiro de sua egolatria. Enquanto isso, a equipe rola rumo à Série B. E a ópera vai ter um fim triste. Como sempre.



