
Fosse a atual Roma um episódio de desenho animado, seria aquele da bruxa que tenta enganar o Pica-Pau e acaba trapaceada de volta (relembre aqui). Em um minuto, a velha senhora diz “E lá vamos nós” pelo menos dez vezes. É a frase que embala a temporada da torcida romanista, que não consegue ver o time engrenar.
A vitória convincente sobre o Parma, no último domingo, colocou a equipe a quatro pontos da zona da Liga dos Campeões, pronta para sonhar. Apesar do 1 x 0 no placar, foram dois pênaltis não marcados, 14 finalizações, 27 faltas sofridas e 64% de posse de bola. Excelente, mas o que pesa é a continuidade. Após 24 rodadas do Campeonato Italiano, a mais longa série de resultados da Roma foram as três vitórias contra Napoli, Bologna e Chievo, entre dezembro e janeiro. Tirando essa sequência, o time da capital faz um campeonato irregular, passando de vitórias impressionantes a derrotas vexatórias – o 4 x 0 em cima da Inter seguido do 0 x 1 para o Siena é o melhor exemplo.
Por se tratar de uma temporada de reconstrução forçada após a a troca na presidência, essas mudanças de rumo se tornam mais aceitáveis. O risco já era esperado ao se alterar a política do futebol romanista tão drasticamente. Contra o Parma, por exemplo, seis dos titulares haviam sido contratados no início da temporada e os três que entraram no segundo tempo também são recém-chegados. Sem falar em Taddei, que inexistia como lateral esquerdo até pouco tempo atrás.
Fazer tantas mudanças sem ter à disposição um orçamento como o do Paris Saint Germain gera riscos. O elenco romanista possuía diversos problemas que só foram resolvidos em parte. A correção da rota mal traçada nos últimos anos da gestão da família Sensi causará transtornos e só na próxima temporada a Roma de Luis Enrique poderá ser mais bem entendida. Terá um bom grupo que já se conhece e contará com reforços em todos os setores.
Fato é que, desde o ínicio da temporada, a Roma nunca pareceu estar em um rumo tão certo. Os jogadores se conhecem, Luis Enrique sabe o elenco que tem em mãos e todos parecem motivados, do interminável Totti ao novato Viviani. E, mais importante que isso, o 4-3-3 que Luis Enrique vinha sofrendo para emplacar desde agosto finalmente ganhou forma nas últimas semanas. Desde a humilhante goleada sofrida para a Fiorentina, na 14ª rodada, um 0 x 3 com três expulsos, foram apenas duas derrotas em dez jogos.
Para isso, foi importante Luis Enrique ter conseguido descobrir seu meio-campo titular: De Rossi, Gago e Pjanic. Os três só fizeram três partidas, juntos, compondo o trio de meias. A Roma venceu as três, com relativa facilidade. Antes, os três chegaram a jogar juntos, com o bósnio Pjanic atuando na armação, em um 4-3-1-2 em que Perrotta ou Greco completavam a linha de três meias. A escolha foi um desastre: quatro derrotas e só uma vitória, contra o vice-lanterna Novara. O meio-campo conseguia marcar, mas não jogar.
Depois de tantos testes, o torcedor romanista já consegue escalar os 11 titulares da Roma, o que é positivo. O meio-campo forte solucionou os principais problemas do time. De Rossi tem atuado bem recuado e cumpre papel semelhante ao de um líbero, permitindo que Rosi e Taddei avancem bastante pelas laterais em vez de terem que focar na defesa. O lado direito fica bem trancado quando Gago e Borini atuam. O jovem atacante tem jogado bem aberto e auxiliado bastante na marcação. No lado esquerdo, Pjanic tem conseguido compor o setor ao mesmo tempo em que faz o jogo fluir, com maestria.
O fato de jogar tão compacta e apostando em trocas rápidas de passe faz com que a Roma seja competitiva e ofensiva. O problema é que o time continua correndo muitos riscos simplesmente porque não possui um defensor veloz que lhe permita jogar com a linha de defesa tão alta como tem sido utilizada. Basta um passe errado para enterrar as habituais boas atuações. Para recuperar uma vaga na Liga dos Campeões, concentração e treinamento podem bastar. Para o próximo campeonato, será interessante ver como as intervenções no mercado farão este time evoluir. Afinal, será a hora de medir se valeu a pena a paciência dos donos norte-americanos com o diretor esportivo Sabatini e Luis Enrique. Enquanto isso, “e lá vamos nós”.
Pallonetto
– Na quinta-feira, o Milan deve descobrir se a suspensão de Ibrahimovic será revogada a tempo do confronto da próxima rodada. No sábado, o time defenderá a liderança do campeonato na partida contra a Juventus, invicta no campeonato. Ter o sueco pode fazer a diferença.
– Inzaghi jogou os 150 segundos finais da vitória do Milan contra o Cesena. É triste ver o artilheiro ser tão subaproveitado por Allegri, mendigando uma assistência a El Shaarawy com a partida já definida.
– Era de se esperar que a Lazio teria problemas contra o Palermo, mas perder por 5 x 1 é notável. Edy Reja só tinha um zagueiro à disposição (André Dias, que acabou expulso) e mesmo assim escalou o time em um 3-5-2, improvisando Zauri e Ledesma. Um fiasco.
– Com a goleada, a Lazio acabou ultrapassada pela Udinese, que assumiu a terceira posição. Os friulanos voltaram a empatar, desta vez com o Cagliari. É a segunda partida seguida que Di Natale desfalca o time e o segundo 0 x 0. Não é coincidência.
– Pela sexta vez nos últimos dez anos, a Juventus venceu o título da Copa Viareggio. Na final, bateu a Roma por 2 x 1 e levou o troféu do principal torneio italiano de categorias de base. O atacante Leonardo Spinazzola, 18 anos, destruiu no jogo e foi eleito o melhor do torneio.
– Seleção Trivela da 24ª rodada: Gillet (Bologna); Britos (Napoli), Silvestre (Palermo), Chiellini (Juventus); Donati (Palermo), Pirlo (Juventus), Gago (Roma); Di Vaio (Bologna), Robinho (Milan), Borini (Roma), Miccoli (Palermo).



