Serie A
Tendência

De carro roubado e ameaça da torcida a um lugar na história: Spalletti conduziu o Napoli ao sonhado scudetto

Spalletti começou a temporada sob ameaças da torcida do Napoli, mas termina como aquele que conseguiu o tão sonhado scudetto depois de mais de 30 anos

Todo time campeão tem um comandante. O técnico mais marcante do Napoli nos últimos anos, provavelmente desde que Diego Maradona parou de jogar, era Maurizio Sarri. O verbo já indica que ele não é mais. Luciano Spalletti deixa o seu nome na história do Napoli para sempre como o técnico que acabou com um jejum que durou 33 anos. Uma trajetória que começa com ameaças criminosas da torcida contra o técnico e termina com a conquista do título mais esperado pela mesma torcida desde 1990.

Primeiro, voltemos a Maurizio Sarri. Foi com ele que o Napoli chegou mais perto de conquistar o scudetto, na temporada 2017/18. Foram 91 pontos dos Partenopei, que só não levaram o título porque aquela Juventus de Massimiliano Allegri fez incríveis 95 pontos. Foi a temporada que deixou para o torcedor do Napoli a sensação que ele não voltaria a ser campeão, porque nem quando jogava o melhor futebol e atingia uma pontuação recorde conquistava o título.

A sua saída do Napoli foi um tanto traumática. Os desentendimentos com a diretoria, especialmente com o presidente Aurelio de Laurentiis, fizeram com que a sua permanência se tornasse quase insustentável. Só que antes mesmo de achar uma saída jurídica para demitir o treinador, o presidente já tinha contratado Carlo Ancelotti. Por 13 dias, o clube manteve dois técnicos, de 1 a 13 de julho, data que, enfim, Sarri foi demitido. A torcida acabaria, depois, tendo raiva de Sarri, que assumiu o Chelsea e, em seguida, foi treinar a Juventus. Algo considerado imperdoável. Tanto que ele é vaiado quando volta a Nápoles, agora como técnico da Lazio.

Se alguém dissesse que sonhava com Ancelotti conquistando scudetto pelo Napoli, não seria uma loucura. Apesar de vir do trabalho que não tinha funcionado tão bem no Bayern de Munique, Carletto era um nome de peso, tarimbado, capaz de grandes conquistas. O elenco era bom, com nomes interessantes e um time forte. Só que ele duraria um ano e meio, antes de ser substituído por Gennaro Gattuso, e sem ter conseguido o que se esperava. Gattuso também não durou muito e ficou um ano e meio no cargo, com uma conquista de Copa da Itália, mas sem entregar um bom desempenho.

A chegada de Spalletti aconteceu em julho de 2021. Não era uma chegada badalada, apesar de Spalletti ser um técnico de muita experiência e com sucesso considerável em seus trabalhos. Então com 62 anos, ele vinha de um trabalho consistente na Inter, mesmo sem títulos. O time voltou à Champions League sob o seu comando, depois de seis anos de ausência. Foram dois quartos lugares sob o comando do treinador. A missão tinha sido cumprida, embora houvesse uma insatisfação porque o time não conseguia passar da fase de grupos.

Antes da Inter, Spalletti trabalhou na Roma pela segunda vez na temporada 2016/17. O treinador levou a Roma ao segundo lugar na Serie A, em uma época que a Juventus dominava amplamente a liga. Ele dirigiu antes do Zenit, onde conquistou o título russo duas vezes, uma Copa da Rússia e uma Supercopa da Rússia. Ficou por lá por cinco anos, de 2009 a 2014. Antes, teve a sua primeira passagem pela Roma, onde conquistou duas vezes a Copa da Itália, além de uma Supercopa da Itália.

A sua carreira é marcada por muitos bons trabalhos, mas também por embates com jogadores, como foi com Francesco Totti, por exemplo, que se sentiu forçado a se aposentar. Os embates com estrelas poderiam ser um problema no clube. Sua primeira temporada no comando da equipe, porém, passou muito longe disso. O resultado foi bastante razoável.

Em um mercado modesto, chegou Juan Jesus, que estava sem contrato na Roma. Frank Anguissa chegou por empréstimo do Fulham. Perdeu apenas Konstantinos Manolas, que não era um jogador tão fundamental. Se apoiando em uma base já conhecida do time, Spalletti conseguiu conduzir a equipe ao terceiro lugar na Serie A, o que foi um bom resultado.

Só que após a temporada 2021/22, houve uma grande mudança no elenco do Napoli, que gerou uma série de incertezas. Jogadores que eram verdadeiras bandeiras do clube deixaram a equipe, como Lorenzo Insigne, capitão do time, Dries Mertens, um jogador que chegou ao mais alto nível saindo de ponta para centroavante, o zagueiro Kalidou Koulibaly, há anos um dos melhores do mundo na sua posição, o goleiro David Ospina, que passava segurança, e o meio-campista Fabián Ruiz.

Spalletti perdeu jogadores importantes nos quatro setores do time: gol, defesa, meio-campo e ataque. Jogadores que escreveram grandes histórias pelo clube. A previsão era que o Napoli sofreria muito sem eles, porque as contratações foram modestas. Conseguiu manter Frank Anguissa, comprado em definitivo e que se firmou no meio-campo, levou nomes como Tanguy Ndombélé, em baixa nas últimas temporadas, apostas, como Kim Min-jae, Mathías Olivera, Khvicha Kvaratskhelia e Leo Ostigard, jogadores para compor elenco, como Giovanni Simeone, além de Giacomo Raspadori, um nome badalado.

As reposições pareciam pequenas para o tamanho dos jogadores que saíram. A relação da torcida com o técnico Luciano Spalletti não era boa. E quando digo que não era boa, o fato que exemplifica isso é que roubaram o seu Fiat Panda, um automóvel que era seu xodó, e estenderam uma faixa no Centro de Treinamento do clube, ainda em maio de 2022, ao final da temporada passada, dizendo que o carro só seria devolvido se ele deixasse o clube.

O técnico não se intimidou. Em uma coletiva de imprensa, ele até brincou com o assunto. “Antes de tudo, temos que ver em que condições o Panda será devolvido, quantos quilômetros ele percorreu, se há CDs de Pino Daniele dentro. Vamos avaliar quando isso acontecer”, afirmou o técnico, ainda de ressaltar que não tinha qualquer plano de deixar o Napoli. Os torcedores continuaram furiosos.

O ninguém poderia esperar é que os reforços chegaram voando ao time. Spalletti montou um time que é muito parecido com o da temporada anterior, que teve sucesso, mas trocando alguns jogadores. E nomes como Kim Min-jae e Kvaratskhelia tiveram um desempenho absolutamente espetacular. Nomes que já estavam por lá, como Anguissa e Osimhen, passaram a ter um papel ainda mais importante, e outros, como Stanislav Lobotka, ganharam importância que não tinham.

O técnico, acostumado a montar times bastante consistentes, viu que tinha uma equipe voraz nas mãos e não teve qualquer pudor em soltar as amarras da equipe. Aproveitando a instabilidade de rivais, o Napoli não deu a menor chance para a concorrência, atropelando desde o começo e abrindo uma vantagem que, pouco a pouco, foi se tornando instransponível.

Spalletti é um técnico de personalidade forte, inventivo e que sempre coloca seus times no ataque. O seu 4-3-3 é bastante conhecido por seus trabalhos na Itália, ainda que com variações entre si. O time se tornou envolvente, forte e teve uma ótima campanha também na Champions League, eliminado diante do Milan em um duelo local.

O técnico era odiado por parte da torcida antes da temporada. O trabalho que tinha feito na sua primeira temporada não foi visto como nada espetacular. Mesmo perdendo muitos jogadores, ele montou um time coletivamente ainda mais sólido do que era com os jogadores veteranos que tinha, fez a equipe ser envolvente e abusar da velocidade sempre que precisou. Quando não tinha espaço, aproveitava os passes curtos e bons cruzamentos para um Osimhen dos mais inspirados na área.

Mais do que devolver o Fiat Panda do técnico, a torcida deveria é dar um carro novo a ele, pelo que ele conseguiu devolver ao clube e à cidade. Foi Spalletti o nome a entrar na história como o técnico que, enfim, acabou com o jejum de títulos da Serie A do Napoli. Será, para sempre, uma figura celebrada em Nápoles e, certamente, ninguém mais irá roubar o seu carro como forma de ameaçá-lo na cidade. Se não é uma figura endeusada como Maradona, e ninguém nunca será, estará no panteão dos que fizeram o clube chegar ao topo, o que não é pouco. É o primeiro técnico a ser campeão italiano pelo Napoli sem ter Maradona. Mas tinha Kvaradona.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo