Serie A

Com pior início de Italiano em 80 anos, Milan parece preso a um beco do qual não consegue sair

“Este time do Milan parece que foi a campo sem nunca ter feito uma sessão de treino junto”. A declaração, dada após a derrota para a Fiorentina, em San Siro, por 3 a 1, no último domingo, caberia na boca de qualquer comentarista italiano mais contundente ou torcedor rossonero. Quando ela é proferida pelo próprio homem responsável pelas sessões de treino, na sequência de uma exibição apavorante em casa, ganha conotações muito mais preocupantes.

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O início de trabalho de Marco Giampaolo à frente do Milan não é bom. Na realidade, quatro derrotas e duas vitórias nas seis primeiras rodadas representam o pior começo do clube no Campeonato Italiano desde 1938/39, e apenas uma vez antes disso, em 1930/31, o gigante do país teve resultados tão ruins a esta altura da liga nacional.

Nada está perdido, e a temporada é longa, mas não podemos culpar o torcedor rossonero, calejado pela mediocridade das últimas seis temporadas, nas quais o heptacampeão europeu alternou entre o meio da tabela e uma vaga da Liga Europa, por achar que vem pela frente mais uma campanha que não dará muitos motivos para comemoração.

A contratação de Giampaolo foi uma aposta calculada da diretoria do Milan. Não havia nomes muito melhores disponíveis, pelo menos nenhum particularmente disposto a assumir a batata-quente preta e vermelha. Giampolo havia surgido como um treinador muito promissor, mas teve que fazer algumas correções de curso na carreira antes de se firmar na Serie A com o Empoli e a Sampdoria.

Sua especialidade era terminar no meio da tabela, resultado inaceitável para um clube do tamanho do Milan, mas tinha bons atributos, especialmente a busca por um futebol ofensivo e o trabalho com jovens. Ambos necessitam de tempo para dar resultados concretos, e já é um mal sinal que comecem a surgir na imprensa rumores de que ele poderia ser substituído por nomes como Claudio Ranieri, Rudi Garcia, Andriy Shevchenko ou Luciano Spalletti.

Quando um clube como o Milan entra em má fase, há dois caminhos. O mais curto é conseguir convencer um treinador de renome a assumir o projeto e, por meio de um jogo coletivo superior, arrancar resultados acima das possibilidades do seu elenco. O salto que a Internazionale tenta dar nesta temporada com Antonio Conte, e se o substituto de Giampaolo acabar sendo Massimiliano Allegri, outro nome sendo ventilado, uma troca precoce pelo menos faria sentido.

O segundo caminho é ter uma filosofia de formação de time, com bons garimpos, desenvolvimento de jovens e negócios baratos de ocasião para formar uma espinha dorsal decente. É geralmente quando essa estratégia está em andamento, exalando potencial, que o tal treinador de renome aceita assumir o projeto para levar o clube a um novo patamar – mais uma vez, como a Internazionale. Como, depois de gastar € 481 milhões nos últimos três mercados, Fabio Borini continua sendo usado muito mais do que o recomendável, o Milan não vai bem em nenhuma das duas frentes.

“Escolhemos o treinador e vamos defendê-lo”, afirmou o diretor do Milan, Paolo Maldini, à Sky Sports. “É certo lhe dar algum tempo. Sabemos que haveria problemas, embora, obviamente, não esperássemos perder quatro dos primeiros seis jogos, mas também a qualidade do futebol não é satisfatória. No momento, parece que não há luz no fim do túnel, mas, como nosso treinador disse, a saída é com trabalho duro”.

O Milan começou a temporada perdendo para a Udinese, por 1 a 0, gol de cabeça de Rodrigo Becão, em cobrança de escanteio. Recuperou-se com duas vitórias seguidas pelo placar mínimo, contra o Brescia e o Verona. Foi dominado pela Internazionale e perdeu por 2 a 0 e havia feito, segundo Maldini, um bom jogo contra o Torino, apesar da derrota por 2 a 1, com dois belos gols de Andrea Belotti na metade final do segundo tempo.

O diretor credita a oscilação à juventude de parte da equipe, nomes como Lucas Paquetá (22 anos), Davide Calabria (22), Theo Hernández (21), Ismaël Bennacer (21) e Rafael Leão (20). “Explicar um recuo tão grande em desempenho em coisa de três dias é difícil, a menos que você perceba que havíamos jogado em Turim e depois no San Siro”, começou Maldini. “Esta é uma camisa com muito prestígio, cheia de história por trás, e alguns desses jogadores são muito jovens, ainda incapazes de lidar com as comparações com os times do passado. Isso pode ser difícil”.

Giampaolo tem armado o Milan com sua formação favorita, com uma linha de quatro formada por Calabria, Musacchio, Romagnoli e Ricardo Rodríguez ou Theo Hernández, e três meias centrais à frente deles. Calhanoglu é o único que jogou todas as seis partidas nesse setor, acompanhado geralmente por Kessié e Bennacer. O trio de ataque varia um pouco entre dois meias ofensivos e um centroavante ou apenas um jogador na ligação para dois atacantes. Suso e Piatek sempre jogam. O terceiro nome foi Castillejo nos primeiros jogos e Rafael Leão nos últimos. Contra a Fiorentina e o Torino, o treinador testou o 4-3-3.

Os gols sofridos nesta temporada mostram que o Milan é muito facilmente pego nos contra-ataques, que acontecem com frequência porque se trata do quarto time da liga que mais perde posse de bola a cada 90 minutos, e uma frouxidão na marcação que permite cruzamentos e chutes com muita facilidade. À frente, a pontaria está um horror. É o décimo time que mais finaliza na Serie A, com 13,8 chutes por partidas, mas o que menos acerta o alvo, com média de apenas 2,7 arremates por jogo. Não à toa, fez apenas quatro gols e dois foram de pênalti.

“Há alguns jogadores que são jovens e podem tentar jogadas individuais, mas eles conseguem nos levar apenas até certo ponto. Quando as coisas não estão indo bem, você precisa ter força para se segurar à sua identidade como time. Se tentarmos resolver as coisas individualmente, nós corremos o risco de nos afundar em dificuldades e foi o que aconteceu (contra a Fiorentina)”, disse Giampaolo.

“O time jogou com muito caráter três dias atrás e vi momentos do futebol que gosto. Esta noite, ele foi jogado mal, em um nível individual, sem organização ou senso de responsabilidade coletiva. Três dias atrás, gostei do desempenho e vi boas respostas contra o Torino. Nesta noite (de domingo), a pressão atingiu-os, eles sentiram a necessidade absoluta de vencer e eu lhes disse para jogar com os ingredientes certos para vencer, sem esperar os eventos acontecerem. Precisávamos criá-los nós mesmos.  Ao contrário, a pressão pesou sobre nós. Estávamos tensos, não reagimos com a velocidade necessária e evidentemente sentimos a pressão”, completou.

O elenco do Milan não é dos melhores, mas também não é um desastre. Além dos jovens de potencial, conta com Franck Kessié e Suso, um bom zagueiro como Romagnoli e o goleiro Gianluigi Donnarumma. Essa desculpa não cola considerando que, nos últimos seis anos, ficou atrás de times como Parma, Torino, Fiorentina, Genoa, Sampdoria, Sassuolo, Lazio e Atalanta, que conseguiu até uma vaga na Champions antes dele nesse período.

Com todo o dinheiro que foi gasto recentemente, era para o Milan estar em um momento melhor em termos de qualidade e, principalmente, de projeto. Mas sofre com uma propriedade que assumiu o clube de um dono caloteiro, aceitou ser excluído da Liga Europa por irregularidades financeiras para não sofrer uma punição maior e tem em Giampolo o seu sexto treinador desde a saída de Allegri, em 2014

Todo clube do tamanho do Milan passa por períodos de dificuldade e eventualmente ressurge, mas, acima de tudo, o que o Milan precisa é de um rumo, encontrar o caminho para sair do beco ao qual parece indefinidamente preso, seja com Marco Giampaolo no banco de reservas, seja com outra pessoa.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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