Serie A

Carlo Mazzone semeou lições entre lendas do futebol e deixou um legado inquebrantável

Treinador com mais partidas na história da Serie A, Carlo Mazzone não conquistou grandes títulos, mas marcou a trajetória de muita gente - em campo e nas arquibancadas

Pep Guardiola iniciou a entrevista coletiva deste sábado usando uma camiseta que chamava atenção. A estampa trazia o desenho de um treinador em estado de transe, celebrando um gol de seu time enquanto esbravejava com a torcida adversária que o provocara. Era a imagem de Carlo Mazzone, lendário técnico do futebol italiano, em seu estado mais puro. A cena ocorrida num dérbi entre Brescia e Atalanta há duas décadas, no qual o time do veterano buscou o empate nos acréscimos do segundo tempo, virou um folclore do Calcio. Servia como retrato mais passional de Mazzone, um personagem único, que viveu o futebol como raríssimos e ensinou a tanta gente, muito além da reação carnal. O gesto de Guardiola também simboliza quantas pessoas Mazzone influenciou em seus 86 anos de vida, amplamente homenageado diante da notícia de sua morte neste sábado.

Mazzone não teve grandes conquistas no Campeonato Italiano além de classificações e salvações. Seu trabalho quase sempre se limitava aos times acostumados ao acesso e à fuga do rebaixamento na primeira divisão. Teve a grande oportunidade de dirigir a Roma, seu time do coração, mas nem foi um trabalho lembrado pelos resultados. Muito mais significativa era a capacidade de Carletto em impulsionar talentos. Francesco Totti foi um deles, transformado pelo comandante em seus primeiros anos na Loba. Mas o técnico também era capaz de valorizar até os mais tarimbados, como o Roberto Baggio que permitiu sua explosão naquele Brescia x Atalanta. Mesmo um multicampeão como Guardiola, encaminhando-se ao final da carreira no Brescia, sentia-se agraciado.

“É um dia triste para mim e para minha família. Mister Mazzone era meu treinador no Brescia e faleceu hoje. Um grande abraço em toda a sua família. Em um momento difícil para mim na Itália, ele foi como um pai. Ele é uma lenda do futebol italiano. O impacto que ele teve nas pessoas que o conheciam era enorme. Recebi essa camiseta de alguns amigos há um ano e disse que hoje eu a usaria”, relembrou Guardiola, na coletiva deste sábado. Amigo de Mazzone além dos gramados, Pep chegou a convidá-lo para acompanhar das arquibancadas a final da Champions League de 2008/09, o primeiro grande feito na vitoriosa carreira do catalão.

O fator humano sempre veio em primeiro lugar para Carlo Mazzone. Não deixava de ser um personagem turrão, um tanto quanto rústico. Entretanto, as palavras de carinho se espalharam pelo futebol italiano neste final de semana, diante de seu adeus. A reverência também reverberou nas arquibancadas, mesmo anos depois de sua aposentadoria na casamata. Vários estádios ao redor da Itália pararam e aplaudiram Mazzone antes das partidas, com um minuto em tributo à lenda. A homenagem mais calorosa aconteceu no Estádio Olímpico, da Roma que ele também amava. Independentemente das cores, Carletto era praticamente uma unanimidade, mesmo nos clubes em que não trabalhou.

Mazzone passou mais de três décadas à beira do campo na Serie A, de 1974 a 2006. Nenhum outro treinador trabalhou mais vezes na história do Campeonato Italiano, com 792 partidas dirigidas em 11 equipes distintas. A longevidade dimensiona a sua importância. Os números, contudo, são frios para representar o que era calor e troca ao redor do gramado. Muito mais sonoras são as palavras de quem exalta Mazzone e aprendeu com ele. De quem o carregará no peito para sempre, muito além do tributo.

A carreira de Carlo Mazzone

Mazzone teve uma carreira modesta como jogador. Nascido e crescido em Roma, com uma forte ligação com a capital, o defensor se desenvolveu nas categorias de base da Roma. Passou um período emprestado ao Latina, nas divisões de acesso, antes de voltar à Roma e fazer sua estreia pela Serie A em maio de 1959. Todavia, a passagem pelo clube de seu coração foi bastante curta e não durou mais do que duas partidas. O jovem só teve mais espaço quando seguiu a times mais modestos. Teve uma experiência curta na Spal, antes de defender também o Siena.

O grande clube de Mazzone em seus tempos de atleta foi o Ascoli. O defensor chegou em 1960 e passou nove anos como futebolista nos bianconeri. Superou as 200 partidas e se tornou capitão, adorado a ponto de hoje em dia dar nome a um dos setores nas arquibancadas do Estádio Cino e Lillo del Duca. Entretanto, em tempos de vacas magras, sempre esteve limitado ao futebol da Serie C. Foi por lá que também iniciou sua trajetória como técnico, antes mesmo de pendurar as chuteiras. Dirigiu primeiro as categorias de base, até de assumir a equipe principal do Ascoli em 1968. Deveria ser interino, mas agradou e ficou por seis anos no cargo.

Foi com Mazzone de técnico que o Ascoli deixou para trás a pequenez da Serie C e conquistou dois acessos, rumo à estreia na Serie A em 1974/75. Carletto ainda dirigiu os bianconeri por uma temporada na elite e conseguiu a manutenção na primeira divisão. Ao mesmo tempo, recebeu uma proposta excelente para dirigir a Fiorentina. Não teria como recusar. Foram duas temporadas completas à frente da Viola, onde dirigiu Giancarlo Antognoni, uma das maiores lendas do clube. Conquistou a antiga Copa Anglo-Italiana e conseguiu um honroso terceiro lugar na Serie A.

(Icon Sport)

Mazzone cruzou o caminho de outro personagem carismático do futebol italiano a partir de 1978, quando comandou o Catanzaro. Estava à frente de Claudio Ranieri, histórico jogador do clube, após o acesso à Serie A. Conseguiu auxiliar na permanência em duas temporadas. O comandante então voltou ao Ascoli, que preservava o seu status como time de primeira divisão. Conseguiu sucessivas permanências numa equipe de condições modestas, em tempos nos quais o Calcio abria as portas para o talento estrangeiro. Dois brasileiros, inclusive, passaram sob seu comando – Juary e Dirceu. Depois dirigiu o Bologna, sem conseguir o acesso na Serie B.

Outro clube no qual Mazzone é muito querido é o Lecce. O treinador conseguiu levar os giallorossi à Serie A e preservou o status na elite até sua saída em 1990. Antonio Conte era o atleta mais notável daqueles tempos, ainda um garoto que aprendeu um bocado com Carletto. Sairia de lá para uma rápida passagem no Pescara, antes de emplacar mais um sucesso no Cagliari. Os sonhos na Sardenha foram até maiores, em duas temporadas marcantes. Mazzone substituiu Claudio Ranieri logo após o acesso na Serie B e alcançou uma histórica sexta colocação na Serie A 1992/93, num time que depois faria bonito na Copa da Uefa. Tempos em que Enzo Francescoli desfilava sua cátedra com os rossoblù.

Mazzone não ficou tanto tempo no Cagliari porque a Roma o convidou para dirigir seu time. O veterano não tinha como negar seu coração. Assumiu os giallorossi em 1993/94, em tempos nos quais o elenco reunia feras como Giuseppe Giannini, Aldair, Thomas Hässler, Ruggero Rizzitelli, Abel Balbo, Claudio Caniggia e Sinisa Mihajlovic. Mesmo assim, o técnico resolveu promover um garoto da base chamado Francesco Totti. Deu confiança ao novato e inclusive o mudou de posição, para jogar como um camisa 10. Nascia uma lenda. Carletto ficou três temporadas na Loba e teve resultados não mais que razoáveis, com uma sétima colocação na primeira empreitada na Serie A, antes de acabar em quinto nas duas campanhas seguintes. Seu legado através do Capitano, contudo, é inoxidável.

A partir de então, Mazzone teve experiências mais efêmeras. Ficou um curto período no Cagliari, sem evitar o rebaixamento. Depois dirigiu um Napoli em declínio por míseras quatro rodadas em 1997. Teve um pouco mais de sucesso no Bologna, capitaneado por Giuseppe Signori, que alcançou as semifinais da Copa da Uefa de 1998/99. No Perugia, em 1999/00, conseguiu um honroso décimo lugar na Serie A. Mais honroso ainda porque, na rodada final, derrotou a Juventus num jogo de extremo interesse que definiu o campeonato. Um resultado que, por tabela, beneficiou a Lazio, sua rival de infância, como campeã nacional.

(Icon Sport)

O último grande trabalho de Carlo Mazzone aconteceu de 2000 a 2003. Dirigiu um Brescia que se negou a ser rebaixado e até se classificou à Copa Intertoto. Carletto tinha como seu camisa 10 ninguém menos que Roberto Baggio, em seu empenho no final da carreira para disputar a última Copa do Mundo – o que não conseguiu. Outros talentos ascendentes como Andrea Pirlo e Luca Toni passaram por suas mãos, assim como um veterano Pep Guardiola. A energia dos biancazzurri se concentrava entre o pulso firme de Mazzone e os pés divinos de Baggio. Foram tempos de sonhos e também de paixão aflorada, como aquela história contra a Atalanta não deixa mentir. Outro clube que se tornaria eternamente grato a Carletto.

Mazzone ainda teria sua terceira passagem pelo Bologna entre 2003 e 2005. Reencontrou-se com Signori, num time que ainda contava com Gianluca Pagliuca e Hidetoshi Nakata. Porém, não evitou o rebaixamento no confronto de desempate com o Parma. Por fim, assumiu o Livorno numa breve passagem em 2005/06. Tinha sob suas ordens o idolatrado Cristiano Lucarelli, assim como Marco Amelia e Francesco Coco. Só ficou até o final da temporada, mas conseguiu uma histórica sexta colocação, que valeu vaga na Copa da Uefa. Apesar do feito inédito aos grenás, Carletto optou por aposentar a prancheta, aos 69 anos. E aquelas últimas partidas permitiram que ultrapassasse Nereo Rocco como treinador que mais trabalhou na Serie A, com cinco jogos a mais que o antigo recordista. Seu lugar na história tinha se ratificado.

A partir de então, as aparições de Mazzone no futebol se tornaram esporádicas. A mais notável se deu em 2009, nas tribunas a convite de Pep Guardiola para ver o Barcelona conquistar a Champions League. O veterano não negou a torcida por seu antigo pupilo, que consagrava um dos melhores times de todos os tempos. Enquanto isso, na entrevista coletiva, o catalão dedicou a vitória ao seu “professor Mazzone”, dizendo-se orgulhoso por ter Carletto como sua influência como treinador. É o símbolo de um legado que se refletiria em tantos nomes, pelas tantas lições que ficaram. Mazzone será lembrado por sua história e por aqueles que fizeram sua influência florescer.

A carta de despedida de Antonio Conte

(Icon Sport)

Antonio Conte foi outro treinador de sucesso que passou pelas mãos de Carlo Mazzone em seus tempos de jogador, quando ainda dava seus primeiros passos no Lecce. Neste domingo, o comandante escreveu uma bonita carta de despedida na Gazzetta dello Sport, que resume a personalidade e as marcas de Carletto:

“Mazzone foi um grande treinador e uma pessoa extraordinária, que deixou uma marca no futebol italiano nos últimos 50 anos e na minha carreira também. Eugenio Fascetti, meu primeiro treinador no Lecce, me permitiu estrear na Serie A aos 16 anos, mas Mazzone me fez crescer como futebolista. Nossos três anos juntos foram cheios de experiências, lições e crescimento humano e profissional. É por isso que, para mim, Mazzone não foi apenas um treinador, mas, de alguma forma, um pai. Áspero, às vezes grosseiro, mas também dotado de uma humanidade extraordinária”

“Esse homenzarrão, com seu dialeto romano, falava direto, causando certo temor reverente em nós, jogadores jovens. Esse time do Lecce conseguiu um acesso e sobreviveu duas vezes ao rebaixamento. Eu era parte do time também. Éramos caras inteligentes e extrovertidos, que nasceram na região e cresceram em campos empoeirados, acostumados sempre a se superar. Mazzone sabia disso e sabia como alternar cobrança com afago. Era um grande motivador e não temíamos ninguém quando jogávamos em casa. O problema só começava quando errávamos”.

“Agora todo mundo menciona histórias engraçadas sobre ele, mas posso assegurar que não havia piadas antes, durante e depois dos jogos. Não havia sorrisos nos vestiários, tínhamos que nos preparar para uma batalha. Ele não gostava de cumprimentar os adversários. Eu me lembro de uma vez que um dos meus companheiros abraçou um oponente no túnel e ouvimos uma voz de longe, gritando se ele queria beijá-lo também. Ele era duro e às vezes começávamos a concentração na terça-feira. Era outro futebol”

“Ser direto e apaixonado, muitas vezes vestindo agasalhos e chuteiras, talvez tenha afetado sua imagem. Parecia que ele só era capaz de assumir clubes menores. Não era verdade. Eu sempre digo que um chefe prepara uma sopa com os ingredientes que tem, e ele era um treinador prático. Para mim, o melhor treinador é aquele que atinge os objetivos do clube, e quase sempre ele conseguiu isso. Todo mundo o amava, jogadores e torcedores, porque ele dava seu máximo por seus clubes. O ápice de sua carreira foi treinar a Roma, para a qual ele torcia”.

“Eu o enfrentei muitas vezes durante minha carreira. Ele comandava o Perugia quando meu time da Juventus perdeu a Serie A na última rodada. Quando o jogo parou por causa da chuva forte, esperamos dentro do túnel, mas ele voltou para os vestiários para não perder o foco. Ele tinha fogo nos olhos, talvez até mais que o normal, porque alguns duvidavam de seu compromisso com o jogo. Essas coisas o enfureceram. Ele era um homem leal e profissional”.

“Querido Mister, obrigado por aquilo que me deu, pelo homem e treinador que você foi. Você deu muito ao futebol. Torcedores e jogadores, incluindo seus adversários, amavam você. Este é o Scudetto mais importante e você o venceu”.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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