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Bilhete azul

Nove meses é tempo suficiente para a gestação de um bebê. Nesse período, dá para montar um equipe de futebol convincente, que consiga resultados em curto prazo e traga expectativas para o futuro, adaptando-se às ideias da comissão técnica recebida menos de um ano antes?

Se sua resposta for um óbvio “não”, já começou a entender a atual situação caótica do futebol italiano. Cada um dos 20 treinadores que atualmente comandam os times da Serie A está no emprego há 9 meses e 20 dias, em média. Só Walter Mazzarri (Napoli) e Edy Reja (Lazio) se mantiveram na mesma equipe por mais de dois anos.

Os resultados da rodada do último fim de semana derrubaram mais um comandante. O terrível Davide Ballardini encerrou sua terceira passagem pelo Cagliari com uma derrota para o Napoli por 6 a 3, no sábado. Caiu por causa das escolhas absurdas que fez para a partida: manteve Cossu e Nenê no banco por 90 minutos e voltou a escalar Thiago Ribeiro como armador quando o brasileiro foi a campo, aos 31 minutos do primeiro tempo. Técnico de belo discurso e pouco trabalho, Ballardini não costuma durar muito tempo nos empregos, o que até configura essa demissão como “aceitável”.

Mas nem todas as dispensas no Campeonato Italiano são assim. Das 15 mudanças de treinador na temporada, só uma ocorreu porque foi o técnico a pedir demissão – Daniele Arrigoni, no Cesena. Para não dizer que nunca antes na história daquele país tanta gente recebeu seguro-desemprego, há um antecedente. Em 1951-52, o mesmo número de “professores” pegaram o boné. O Bologna, por exemplo, teve quatro comandantes diferentes em menos de 12 meses. Portanto, força, presidentes! Ainda há tempo para superar essa marca.

Nada gera tanta demissão de treinadores quanto erros graves de planejamento. Analisemos o Palermo. O ano começou com Stefano Pioli no comando. A meta era beliscar uma vaga em qualquer competição europeia, com uma boa classificação na Serie A. Antes de a temporada começar, no entanto, os rosanero deveriam jogar a preliminar na Liga Europa contra o suíço Thun. Os jogos ocorreram no meio das negociações do mercado. Pastore, Bovo e Sirigu haviam saído. Nenhuma boa contratação havia chegado. Portanto, gente como Benussi, Zahavi, Muñoz e Mantovani fez as duas partidas, por falta de opções melhores. O Palermo perdeu, Pioli caiu.

A contratação de Devis Mangia para o lugar de Pioli trazia boas perspectivas. Dar espaço a um técnico jovem, vindo da base do clube, sem vícios e com novas ideias é no mínimo interessante. A meta ainda era beliscar uma vaga em qualquer competição europeia – ou seja, chegar entre os cinco ou seis primeiros colocados. Missão praticamente impossível depois da saída de Pastore, o melhor do time. Mangia durou 15 jogos antes de ser demitido. O Palermo estava na 10ª posição, mas havia passado as cinco rodadas anteriores entre os seis primeiros. A saída do jovem treinador é uma mistura perigosa de erro de planejamento com afobação.

Pois bem, 12 rodadas se passaram e o Palermo está na mesma 10ª posição. Não evoluiu sob o comando de Bortolo Mutti, o novo treinador. Zamparini, comandante-em-chefe do clube, afirmou nesta semana ter se arrependido da demissão de Pioli. Com um elenco muito mais modesto em mãos, o cidadão que ele mandou embora em agosto tem comandado a reação do Bologna. E o Bologna, na última rodada, ultrapassou justamente o Palermo. Em resumo: foram duas demissões evitáveis, muita bagunça e nenhum resultado.

Quem dera só o Palermo fosse assim. No Cagliari e no Novara, a situação é pior: os dois times substituíram o técnico A com o B, demitiram o B e chamaram o A de volta. Nos dois casos, o cidadão A (Massimo Ficcadenti, no Cagliari; Attilio Tesser, no Novara) sempre era o mais indicado para estar no cargo, mesmo nos momentos de crise. Em diversos outros times, as mudanças de técnico romperam filosofias de forma abrupta, no meio da temporada. Na Inter, Claudio Ranieri assumiu o posto de Gian Piero Gasperini. No Genoa, Alberto Malesani deu lugar a Pasquale Marino. No Lecce, Serse Cosmi entrou no lugar de Eusebio Di Francesco. Em comum entre eles, apenas o branco dos olhos. E olha lá.

Pallonetto

 

– A gestão do Siena merece elogios. O time toscano entrou na Serie A para lutar contra o rebaixamento e sua direção nunca se afobou, mesmo estando sempre à porta da zona. Mesmo com jogadores nefandos, o ótimo Giuseppe Sannino montou uma equipe sólida. Recém-promovido, o Siena nunca esteve entre os três últimos colocados.

– Se é que serve como dado comparativo, na Itália 0,56 treinadores perderam o emprego por rodada, até agora. Outras médias: Portugal 0,41; Espanha 0,35; Alemanha 0,28; Holanda 0,24; França 0,15; Inglaterra 0,14.

– Os erros de arbitragem voltaram a assombrar a Juventus. Contra o Genoa, um gol de Pepe foi anulado por um impedimento mal marcado. E a culpa pelo 14º empate em 27 jogos é de quem? Da imprensa, pelo jeito. O único autorizado a dar entrevistas é o presidente Andrea Agnelli.

– Seleção Trivela da 27ª rodada: Gillet (Bologna); Rossi (Genoa), Portanova (Bologna), Samuel (Inter), García (Novara); Lodi (Catania), Nocerino (Milan), Diamanti (Bologna); Lavezzi (Napoli), Ibrahimovic (Milan), Jeda (Novara).

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Equipe Trivela

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