ItáliaSerie A

Balanço, parte 2

A temporada italiana não poderia se encerrar de forma mais melancólica. O país vive mais um capítulo da interminável novela de escândalos de apostas. Desta vez, acabou preso o capitão da Lazio, Mauri. Nomes como os de Milanetto, Sculli e Criscito também aparecem nas investigações. Até a casa de Antonio Conte, treinador da Juventus, acabou vasculhada na madrugada. Se há luz no fim do túnel, ela vai ser vista dentro de campo. Afinal de contas, a reputação do futebol da Velha Bota tem sido manchada várias vezes por década, mas, pelo menos durante os 90 minutos de cada partida, o torcedor tenta deixar isso de lado. Para que a paixão continue acesa, as autoridades terão de trabalhar  para encerrar a impunidade não só daqueles que entregaram o resultado de seus jogos. Prender os corruptores também será essencial para tirar a Itália futebolística da lama. Enquanto isso não acontece, fique com a segunda parte do nosso tradicional balanço de fim de temporada.

CHIEVO
Colocação final: 10º lugar
Treinador: Domenico Di Carlo
Maior vitória: Chievo 2×0 Cagliari
Maior derrota: Milan 4×0 Chievo
Melhor jogador: Michael Bradley, meia
Pior jogador: Paolo Sammarco, meia
Revelação: Francisco Acerbi, zagueiro
Artilheiro: Sergio Pellissier, 8 gols
Outras competições: eliminado nas quartas de final da Copa da Itália, pelo Siena
Nota da temporada: 7,5

O time mais “sem sal” do futebol italiano manteve o ótimo trabalho que tem realizado nos últimos anos e, sem muitas dificuldades, conseguiu outro ano de permanência na primeira divisão. O meio-campo sólido, comandado pelos recém-chegados Hetemaj e Bradley, guiou a boa campanha deste ano. A linha de defesa viu seus titulares mudarem a cada semana, sem deixar a peteca cair – o zagueiro Acerbi foi o destaque da turma. Tão bem na destruição das jogadas, o ataque clivense pôde ser pífio à vontade. Em sua pior temporada na Série A, Pellissier fez só oito gols e, ainda assim, marcou mais do que todos os parceiros de ataque. Se não foi desta vez que vimos o salto de qualidade de Paloschi, pelo menos Théréau apresentou-se como ótima surpresa.

BOLOGNA
Colocação final: 9º lugar
Treinadores: Pierpaolo Bisoli (até 6ª rodada); Stefano Pioli (a partir da 7ª)
Maior vitória: Inter 0x3 Bologna
Maiores derrotas: Bologna 1×3 Inter; Bologna 1×3 Palermo; Palermo 3×1 Bologna
Melhor jogador: Jean-François Gillet, goleiro
Pior jogador: Robert Acquafresca, atacante
Revelação: Saphir Taïder, meia
Artilheiro: Marco Di Vaio, 10 gols
Outras competições: eliminado nas oitavas de final da Copa da Itália, pela Juventus
Nota da temporada: 8

Só o torcedor mais lunático poderia apostar que seu time passaria sete rodadas invicto na reta final do Campeonato Italiano. E olha que ele acertaria. O melhor Bologna dos últimos anos conseguiu até golear a Inter em Milão, graças a um show de Di Vaio. As intervenções da direção no mercado foram essenciais. As duas únicas perdas pesadas foram bem cobertas – Gillet e Raggi se deram ainda melhor do que Viviani e Britos – e ainda descobriram o talento do jovem francês Taïder, que arregalou os olhos da Juventus. A temporada acima da média fará com que o problema seja o mesmo na próxima temporada. A missão será repetir a boa campanha sem Di Vaio e Mudingayi, que já foram embora, e talvez também sem os ótimos Ramírez e Diamanti.

PARMA
Colocação final: 8º lugar
Treinadores: Franco Colomba (até 17ª rodada); Roberto Donadoni (a partir da 18ª)
Maior vitória: Parma 3×0 Cagliari
Maior derrota: Inter 5×0 Parma
Melhor jogador: Sebastian Giovinco, atacante
Pior jogador: Daniele Galloppa, meia
Revelação: ninguém
Artilheiro: Sebastian Giovinco, 15 gols
Outras competições: eliminado na 4ª eliminatória da Copa da Itália, pelo Hellas Verona
Nota da temporada: 7,5

Quando a temporada acabou, Giovinco brincou que poderia jogar mais algumas semanas, sem problemas. Com sete vitórias seguidas nas últimas rodadas do campeonato, fica fácil dizer. No início da temporada, o diretor esportivo Pietro Leonardi decidiu apostar todas as fichas no baixinho. A ideia funcionou. A Formiga Atômica colecionou 15 gols e 15 assistências, voltou à seleção e terminou entre os melhores italianos do ano. E muito disso é mérito de Donadoni, que montou um time para que Giovinco tivesse total liberdade, algo que seu antecessor ainda não havia feito. Se o dinheiro queimado em Blasi, Pellè, Santacroce e Okaka tivesse sido mais bem investido, quem sabe o sonho europeu não estivesse de volta?

ROMA
Colocação final: 7º lugar
Treinador: Luis Enrique
Maior vitória: Roma 4×0 Inter
Maior derrota: Juventus 4×0 Roma
Melhor jogador: Daniele De Rossi, meia
Pior jogador: José Ángel, lateral esquerdo
Revelação: Federico Viviani, meia
Artilheiro: Pablo Osvaldo, 11 gols
Outras competições: eliminada na 4ª fase eliminatória da Liga Europa, pelo Slovan (Eslováquia); eliminada nas quartas de final da Copa da Itália, pela Juventus
Nota da temporada: 5

A Roma terminou a temporada com um passivo de 70 milhões de euros. Tudo isso para terminar na sétima posição. Exista ou não o tal projeto em longo prazo tão prometido pela nova direção norte-americana do time, fato é que o campeonato custou caro demais. Pressionado, Luis Enrique entregou o cargo logo depois da última rodada. O time da capital iludiu os torcedores mostrando um bom futebol em raras oportunidades e fazendo um jogo de posse de bola mais próximo do Brasil de 1994 do que o Barcelona atual, mas colecionou decepções durante o ano. Duas goleadas sofridas para a Juventus, uma para a Atalanta e outra para a Fiorentina não foram nada perto das duas derrotas para a arquirrival Lazio e da eliminação na preliminar da Liga Europa.

INTER
Colocação final: 6º lugar (vaga na Liga Europa)
Treinadores: Gian Piero Gasperini (até 4ª rodada); Claudio Ranieri (até 30ª); Andrea Stramaccioni (a partir da 31ª)
Maior vitória: Inter 5×0 Parma
Maior derrota: Roma 4×0 Inter
Melhor jogador: Diego Milito, atacante
Pior jogador: Lúcio, zagueiro
Revelação: Davide Faraoni, lateral direito
Artilheiro: Diego Milito, 24 gols
Outras competições: eliminada nas oitavas de final da Liga dos Campeões, pelo Olympique de Marselha; eliminada nas quartas de final da Copa da Itália, pelo Napoli; vice-campeã da Supercopa Italiana
Nota da temporada: 4,5

A saída de Samuel Eto'o foi a senha para que o pesadelo da Inter começasse. Ninguém poderia imaginar um campeonato tão fraco: quase todas as contratações fracassaram, de Palombo e Zárate a Gasperini e Ranieri. A chegada de Forlán, contratado como reforço para a Liga dos Campeões e que não pôde ser inscrito por causa de uma falha da diretoria interista, foi o emblema de uma temporada sem planejamento e que só viu os primeiros raios de sol quando o jovem Stramaccioni, até então treinador das categorias de base do clube, assumiu a bronca no profissional. Zárate continuou nulo, Pazzini não conseguiu ultrapassar a marca de cinco gols, Lúcio seguiu falhando e Cambiasso se manteve uma nota abaixo do habitual. Mas pelo menos uma vaga europeia a Inter conseguiu.

NAPOLI
Colocação final: 5º lugar (vaga na Liga Europa)
Treinador: Walter Mazzari
Maior vitória: Napoli 6×1 Genoa
Maior derrota: Juventus 3×0 Napoli
Melhor jogador: Edinson Cavani, atacante
Pior jogador: Eduardo Vargas, atacante
Revelação: ninguém
Artilheiro: Edinson Cavani, 23 gols
Outras competições: eliminado nas oitavas de final da Liga dos Campeões, pelo Chelsea; campeão da Copa da Itália
Nota da temporada: 7

Será difícil para o torcedor do Napoli ver de longe a Liga dos Campeões, depois de ter vivido as noites europeias como protagonista, na última temporada. Novamente, a equipe campana pecou pela falta de profundidade do elenco, mal reforçado na pré-temporada. Talvez a animação de contar com os sul-americanos Lavezzi e Cavani tenha feito com que o diretor esportivo Bigon não avaliasse tão bem aqueles que veio buscar de cá do oceano: Chávez inexistiu, Vargas decepcionou e tanto Fideleff quanto Fernández acabou fazendo a reserva do medíocre Aronica. O dinheiro torrado nos suíços Inler e Dzemaili mostram que o clube também apostou demais onde não devia. E assim o Napoli terá o desprazer de voltar à Liga Europa. Menos mal que tenha vencido a Copa da Itália.

LAZIO
Colocação final:
4º lugar (vaga na Liga Europa)
Treinador: Edoardo Reja
Maiores vitórias: Cagliari 0x3 Lazio; Chievo 0x3 Lazio
Maior derrota: Palermo 5×1 Lazio
Melhor jogador: Miroslav Klose, atacante
Pior jogador: Luciano Zauri, lateral direito
Revelação: Senad Lulic, meia
Artilheiro: Miroslav Klose, 12 gols
Outras competições: eliminada na fase de 16 avos de final da Liga Europa, pelo Atlético de Madri; eliminada nas quartas de final da Copa da Itália, pelo Milan
Nota da temporada: 7

O enésimo fim de temporada abaixo das expectativas voltou a custar à Lazio uma vaga na Liga dos Campeões, mas a boa campanha durante o ano faz com que o time da capital mereça uma nota maior do que a da direção do clube. A falta de reforços durante o mercado de janeiro e a indecisão em aceitar a demissão de Reja foram fundamentais para os seguidos fracassos – vide a inacreditável goleada sofrida para o Palermo, na qual Zauri e Ledesma acabaram improvisados como zagueiros. A contratação de Klose permitiu que a Lazio decidisse a seu favor grandes jogos, como o dérbi de Roma vencido nos acréscimos, mas a falta de profundidade do elenco jogou tudo isso no lixo. Além de reservas decentes, faltou alguém que pudesse colocar Hernanes no banco. Vários jogos do brasileiro foram lastimáveis.

UDINESE
Colocação final: 3º lugar (vaga na Liga dos Campeões)
Treinador: Francesco Guidolin
Maior vitória: Udinese 4×1 Cesena
Maiores derrotas: Roma 3×1 Udinese; Udinese 1×3 Inter
Melhor jogador: Antonio Di Natale, atacante
Pior jogador: Gabriel Torje, meia
Revelação: Roberto Pereyra, meia
Artilheiro: Antonio Di Natale, 23 gols
Outras competições: eliminada nos play-offs da Liga dos Campeões, pelo Arsenal; eliminada nas quartas de final da Liga Europa, pelo AZ Alkmaar (Holanda); eliminada nas oitavas de final da Copa da Itália, pelo Chievo
Nota da temporada: 9

A classificação para a Liga dos Campeões é um belo prêmio para um time que sempre esteve os cinco primeiros colocados do campeonato. No início da temporada, a Udinese ganhou quase 50 milhões de euros só com as vendas de Zapata, Sánchez e Inler, mas não fez grandes contratações. O clube voltou a investir no que já tinha em casa (fruto do trabalho extensivo dos olheiros friulanos), contratou apenas apostas e conseguiu aquilo que parecia impossível: melhorar a quarta colocação de um ano atrás. Nenhuma equipe italiana se valorizou tanto de três anos para cá. Até então obscuros, Isla, Benatia, Asamoah, Armero e Basta, hoje, valem várias notas. E, caso saiam, a Udinese sabe que ainda poderá confiar em Di Natale e Handanovic para segurar uma base já vitoriosa. Resta apenas saber quais serão os próximos jovens promissores a encantar a Europa.

MILAN
Colocação final:
2º lugar (vaga na Liga dos Campeões)
Treinador: Massimiliano Allegri
Maiores vitórias: Milan 4×0 Catania; Milan 4×0 Chievo; Palermo 0x4 Milan
Maior derrota: Inter 4×2 Milan
Melhor jogador: Zlatan Ibrahimovic, atacante
Pior jogador: Alexandre Pato, atacante
Revelação: Stephan El Shaarawy, atacante
Artilheiro: Zlatan Ibrahimovic, 28 gols
Outras competições: eliminado nas quartas de final da Liga dos Campeões, pelo Barcelona; eliminado nas semifinais da Copa da Itália, pela Juventus; campeão da Supercopa Italiana
Nota da temporada: 7,5

Em um clube acostumado a vencer, não existe resultado pela metade: ou se vence, ou se perde. E o Milan perdeu um título que por muito tempo parecia garantido, parte disso por causa de uma aparente rivalidade entre Massimiliano Allegri e Adriano Galliani, mandachuva rubro-negro. As decisões de um parecem sempre esbarrar na do outro. Os problemas na lateral esquerda são o melhor exemplo. O dirigente contratou Taiwo e Mesbah e ambos acabaram ignorados – no dérbi, jogou improvisado o jovem De Sciglio. O contrato renovado de Inzaghi fez só com que o artilheiro encerrasse sua passagem em Milão melancolicamente. Assim como se foram Gattuso e Nesta, desanimados por conta de um relacionamento ruim com o comandante. Some tudo isso a uma péssima fase do departamento médico do clube e a escolhas duvidosas, como a insistência em Robinho e van Bommel, e descubra como o Milan deixou o título escapar, mesmo com 28 gols e 10 assistências de Ibrahimovic.

JUVENTUS
Colocação final:
1º lugar (campeã)
Treinador: Antonio Conte
Maior vitória: Fiorentina 0x5 Juventus
Maior derrota: não perdeu
Melhor jogador: Andrea Pirlo, meia
Pior jogador: Milos Krasic, meia
Revelação: Luca Marrone, meia
Artilheiro: Alessandro Matri, 10 gols
Outras competições: vice-campeã da Copa da Itália
Nota da temporada: 10

Depois de atirar o trabalho da última temporada ao fogo, a Juventus conseguiu renascer das cinzas e tirou do limbo Pirlo, que vinha de tristes temporadas com a camisa do Milan. O camisa 21 guiou as manobras ofensivas da Velha Senhora, com mais de 80 passes e 10 lançamentos certos por rodada. Esta nova Juventus começou a apostar na posse de bola e venceu quem não acreditou no trabalho de Antonio Conte, que conseguiu formar, com Vidal e Marchisio, o melhor trio de meio-campo do futebol italiano, seja no 4-3-3 ou no 3-1-4-2. Além de abastecer o ataque (que contou com um Vucinic em estado de graça nas últimas partidas), o meio-campo também fortaleceu a defesa, vazada apenas três vezes nos últimos 12 jogos do campeonato. Para uma Juventus que passou perto da perfeição, o título não poderia ter sido tão justo.

 

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