As passagens efêmeras, mas goleadoras, de Vieri por Juventus e Atlético de Madrid
O duelo entre Atlético de Madrid e Juventus, pela Liga dos Campeões, guarda possibilidades razoáveis de que a “Lei do Ex” prepondere. Afinal, os caminhos cruzados colocarão frente a frente Álvaro Morata e Mario Mandzukic. Enquanto o espanhol tenta se firmar com os colchoneros, após ser herói de Champions à Velha Senhora no passado, o croata deu um salto imenso com os bianconeri após sua apagada passagem pelo Atleti. De certa maneira, ambos são herdeiros do primeiro jogador a fazer a conexão direta entre os clubes Turim e Madri: Christian Vieri. O veterano defendeu ambos os clubes durante os primórdios de sua carreira. E, apesar das estadias efêmeras e conturbadas, deixou boas lembranças em ambas as torcidas.
O desembarque de Vieri em Turim aconteceu na temporada 1996/97. Após iniciar a carreira no Torino, o atacante passou a ganhar destaque jogando a Serie B, com o Venezia. Depois, viveu um bom ano com a Atalanta, finalista da Copa da Itália. A forma insaciável do centroavante garantiu a aposta da Juventus, então campeã europeia. Aos 23 anos, o reforço vinha como um nome ao futuro em um elenco recheado de estrelas. Ainda assim, estabeleceu o seu nome em pouco tempo.
Vieri deixou uma ótima impressão em sua estreia pela Serie A com a Juventus. Chegou em anotou o gol de empate contra a Reggiana, compondo a linha ofensiva com Alen Boksic e Alessandro Del Piero. Todavia, seria um mero substituto durante o primeiro turno do campeonato. Tinha problemas com o técnico Marcello Lippi, a ponto de sair no soco com o comandante. Depois de pedir desculpas e aparar as arestas, recobrou a confiança do treinador e se tornou frequente no time titular durante o segundo turno da liga, contribuindo com gols em grandes jogos. Anotou dois tentos na vitória por 3 a 0 sobre a Roma e, duas rodadas depois, foi um dos carrascos na histórica goleada por 6 a 1 sobre o Milan no San Siro. Somou oito gols e três assistências em 23 aparições, 15 delas como titular. Longe do protagonismo, ao menos teve sua parte na conquista do Scudetto.
As melhores marcas de Vieri com a Juve, todavia, aconteceram nas competições europeias. Participou da Supercopa contra o Paris Saint-Germain e deixou o seu, em duelos que terminaram com o placar agregado de 9 a 2 para os juventinos. Já pela Liga dos Campeões, virou destaque nos mata-matas. Anotou o gol do empate fora de casa contra o Rosenborg nas quartas de final, abrindo caminho à classificação em Turim. Já pelas semifinais, balançou as redes tanto na ida quanto na volta diante do Ajax, fundamental para derrubar os favoritos ao título. Só não teria a mesma sorte na decisão contra o Borussia Dortmund, com os aurinegros levando a taça.
Até pela idade, era de se imaginar que Vieri pudesse construir sua carreira na Juventus. Naquela mesma temporada, o atacante ganhou sua primeira convocação à seleção italiana e começaria a acumular partidas com a camisa azzurra. No entanto, o Atlético de Madrid apareceu com uma proposta irresistível. Os colchoneros viviam também um bom momento, campeões espanhóis duas temporadas antes. Os rojiblancos desembolsaram o equivalente a €17,5 milhões pela contratação do italiano, recorde do clube e quinto negócio mais caro da história até aquele momento. A Juve até queria segurar Vieri, mas não podia competir com os números colocados na mesa pelo Atlético. O artilheiro tomou sua decisão.
“Um dia, [o diretor] Luciano Moggi me chamou em seu escritório com meu empresário. Ele disse que o clube não poderia me oferecer mais que dois milhões de liras por temporada, mas sabia que o Atlético estava preparado para pagar 3,5 milhões de liras. Quando ouvi isso, eu disse imediatamente que estava indo para a Espanha e esse foi o fim do encontro. Admito que minha motivação era puramente econômica. Se eu pudesse voltar no tempo, permaneceria em Turim”, relembrou Vieri, em sua biografia. Na mesma época, os madrilenos também quebraram a banca para acertar com Juninho Paulista.
Ao menos diante das redes, o investimento foi recompensado. A boa forma no Atlético de Madrid não apenas afirmou Vieri como um dos melhores centroavantes da Europa, como também garantiu sua titularidade na seleção italiana. Bobo anotou respeitáveis 29 gols em 31 partidas com a camisa colchonera. Pela Copa da Uefa, somou cinco tentos na caminhada até as semifinais, nas quais os rojiblancos foram eliminados pela Lazio. Naquela campanha, seu destaque ficou sobretudo ao gol espírita antológico contra o PAOK. Já no Campeonato Espanhol, o goleador levou o Troféu Pichichi. Terminou com a artilharia de La Liga, assinalando 24 gols em 24 aparições. Uma pena que o seu time não correspondesse em campo, fechando a campanha na modesta sétima colocação.
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O problema de Vieri na Espanha não era exatamente sua fome de gols, mas sua indisciplina. Entrou em rota de colisão com o técnico Radomir Antic e saiu no braço também com ele. Por isso, esteve ausente em parte considerável dos compromissos na Liga. Além do mais, as noitadas constantes logo criaram atritos com o presidente Jesús Gil. Se havia algo que aliviava a barra ao italiano, era a forma em campo. Chegou a notar quatro gols contra o Salamanca (num jogo em que o Atleti perdeu) e na antepenúltima rodada carimbou a faixa do campeão Barcelona, com dois gols no triunfo dos madrilenos por 5 a 2. Como jogador colchonero, o matador apareceu pela primeira vez entre os votados à Bola de Ouro – décimo colocado em 1997. O sucesso evidente também confirmou a posição intocável do centroavante no Mundial da França. Seria o vice-artilheiro da Copa, com cinco gols em cinco partidas.
A valorização paulatina de Vieri permitiu que ele voltasse à Itália em 1998. A Lazio, impulsionada pelo dinheiro da Cirio, resolveu pagar o equivalente a €28,4 milhões pelo artilheiro. Bobo aceitou a oferta e se mudou à capital, deixando ainda uma margem de lucro aos colchoneros, apesar das dores de cabeça. Naquele momento, protagonizava a segunda transferência mais cara da história, abaixo apenas de Denilson. Um ano depois, mesmo com os gols pelos biancocelesti, o italiano movimentaria mais dinheiro. A Juve chegou a oferecer uma troca envolvendo Davids, mas o centroavante optou por firmar sua parceria com Ronaldo na Internazionale. Transformaria-se no jogador mais caro do mundo e viraria ídolo naquele que, enfim, se tornou o grande clube de sua vida. Mas, independentemente dos anos de andarilho, o veterano deixou saudades em suas temporadas efêmeras por Turim e Madri.



