A alma do Napoli campeão: Tommaso Starace, o roupeiro presente nos três títulos da Serie A
Tommy está no Napoli desde 1977 e se tornou roupeiro em 1986 - talismã exatamente na temporada do primeiro Scudetto
No último domingo, o Napoli preparou uma enorme festa no Estádio Diego Armando Maradona para celebrar a conquista do Scudetto. Um a um, os jogadores eram chamados ao palco montado no centro do gramado e recebiam os aplausos das arquibancadas abarrotadas. Um dos nomes mais aclamados, porém, é pouco conhecido do público em geral. Em contrapartida, raros personagem são mais amados em Nápoles do que Tommaso Starace. O roupeiro dos partenopei é o único que pode se dizer verdadeiramente três vezes campeão: está no clube há tanto tempo que comemorou também os primeiros títulos da Serie A, em 1987 e 1990. Tommy é a alma dos celestes e o fiel representante dos napolitanos nos vestiários. Aliás, não gosta nem de se definir apenas como roupeiro: é também o “barista”, que recebe a todos com um café e um sorriso. Um pai e um amigo.
Starace nasceu na cidade de Sorrento e conseguiu seu primeiro emprego no Napoli em 1977. De início, atuava como auxiliar na cozinha do clube. A confiança nos serviços do rapaz aumentaram até que, em 1986, ele assumisse o posto de roupeiro do elenco principal dos celestes. Percebe o ano? Tommy logo virou um talismã, como “reforço” do grupo que conquistou o inédito Scudetto na temporada 1986/87. A partir de então, experimentou as mais diferentes glórias com os partenopei, em especial na reconquista da Serie A em 1989/90 e também no título da Copa da Uefa em 1988/89. Seu humor deixava o ambiente melhor e mais leve.
A relação de Starace com os jogadores era bastante próxima desde sempre, muito querido por cada um dentro do plantel do Napoli. Maradona era exatamente um daqueles que mais levava o roupeiro em consideração. Não à toa, o carregou consigo para a Copa do Mundo de 1990. Durante dois meses, Tommy trabalhou também como roupeiro da seleção da Argentina no Mundial da Itália. Quando o cozinheiro ficou doente, ainda quebrou um galho na cozinha albiceleste. Não são poucas as fotos em que o italiano aparecia ao lado de Diego nos campos de treinamento – em Nápoles ou na concentração da seleção.

“Metade da história do Napoli é minha vida. A diferença em relação aos tempos de Diego é que eu era um irmão para os jogadores, enquanto agora eles são minhas crianças, a quem eu amo e merecem a satisfação”, definiu Starace, em entrevista concedida para a Gazzetta dello Sport, em 2019. Mesmo quando os anos de ouro do Napoli acabaram, Tommy continuou a serviço do clube nos vestiários. Entretanto, a falência dos celestes em 2004 levou o roupeiro a ficar brevemente sem emprego. Uma das principais decisões do presidente Aurelio de Laurentiis quando assumiu o controle do clube foi exatamente recontratar Starace. Sabia como a história dos celestes estaria preservada com ele.
Desde então, Starace também testemunhou o renascimento do Napoli. Viu a equipe escalar divisões até retornar à Serie A. Experimentou as primeiras conquistas dessa nova era e as participações constantes na Champions League. Ganhou novos pupilos, entre tantos craques que passaram pelo San Paolo – Marek Hamsik, Edinson Cavani, Ezequiel Lavezzi, Kalidou Koulibaly, Jorginho. Dries Mertens criou uma relação muito próxima com o roupeiro, de imenso carinho e até comemoração de gol em referência ao amigo. Lorenzo Insigne, a quem Tommy viu desde cedo, dedicou vitórias e gols ao veterano. Um reconhecimento ao funcionário que, mesmo morando a 89 quilômetros do centro de treinamentos, continua fazendo a jornada com prazer todos os dias, independentemente dos anos que se passam.

Starace também esteve ao lado dos muitos técnicos de peso que o Napoli contratou: Walter Mazzarri, Rafa Benítez, Maurizio Sarri, Carlo Ancelotti, Luciano Spalletti. Virou um escudeiro não apenas por proteger os jogadores, mas por oferecer mais energia graças ao seu famoso café. É comum ver Tommy caminhando à beira do gramado no Estádio Diego Armando Maradona com sua cafeteira italiana, pronto para servir qualquer um. Até mesmo jornalistas e torcedores costumam ser agraciados. O roupeiro tem fama de fazer o melhor café de Nápoles – forte e com muito açúcar, como manda a tradição local. “O segredo é fazer o café com o coração, como os rapazes jogam com o coração”, definiria Starace, durante a festa do último domingo.
Starace estava mais solto e mais sorridente nesta temporada. Sabia que seus rapazes ficavam cada vez mais próximos de repetir aquilo que conseguira o “irmão” Diego. Seria ele a testemunha da nova glória, vivendo a euforia por dentro dos vestiários. Assim, não surpreende a explosão que a aparição de Tommy causou no palco durante o último domingo. O veterano carregava um Scudetto com os anos das três conquistas. Nenhum outro teria mais autoridade que ele para fazer aquilo. Dançou e se divertiu com os jogadores, em especial com Victor Osimhen. Mostrou como o coração celeste pulsa neste momento – e raras vezes tão feliz.
Ao longo de sua passagem pelo Napoli, Starace trabalhou com nove presidentes e 43 treinadores. O roupeiro, no entanto, foi uma certeza dos celestes independentemente do momento. Dos 14 troféus conquistados pelos napolitanos em sua história, 11 tinham Tommy nos bastidores. Era o homem que amaciava as chuteiras, que organizava os uniformes, que aquecia seus pupilos com copos de café. Que sempre ofereceu um ombro amigo e um sorriso franco. Que carregou a essência napolitana para transformar um clube campeão também numa grande família.



