Serie ASérie B

A Serie B do Italiano começou em meio ao caos das falências e com três times a menos

Um dos traços mais bacanas da Serie B italiana está na história que carrega. Se a competição se coloca entre as divisões de acesso mais interessantes da Europa, o peso das camisas influencia bastante nisso. São várias instituições notáveis tentando se reerguer e desfrutar a redenção rumo à primeira divisão, relembrando os seus melhores momentos. Na última temporada, o Parma foi o exemplo. De maneira épica, os gialloblù emendaram o terceiro acesso consecutivo e retornaram à elite três anos após a falência. Contudo, se há boas histórias daqueles que se reerguem, há também as penúrias de muitas instituições que sofrem com as dívidas e enfrentam a bancarrota. O início da atual edição da Serie B escancara isso. A competição começou nesta sexta-feira mostrando o outro lado da moeda: são apenas 19 participantes desta vez. Tudo porque Bari, Cesena e Avellino terminaram excluídos por suas dificuldades econômicas, iniciando uma longa queda de braço nos bastidores.

O histórico de falências

Antes de falar sobre o presente, é importante entender o contexto: por que os clubes italianos são tão propensos à bancarrota? Segundo levantamento feito pela Calciopedia em 2015, 40 dos 63 clubes que haviam participado da Serie A de 1929 até aquele ano haviam falido ao menos uma vez – ao menos uma, porque há casos de até mesmo três falências em diferentes períodos. Uma lista recheada de camisas pesadas, que conta com Fiorentina, Napoli, Torino e Verona. O sistema de mecenato que impulsionou o futebol italiano a partir dos anos 1980 deixou várias agremiações suscetíveis ao momento financeiro de seus donos, o que explica muitas das quebras. Criou-se uma bolha, pronta para estourar diante das crises econômicas vividas desde então. Com os clubes já fragilizados, a própria retração do Calcio como centro de interesse na indústria do esporte deixou o terreno movediço.

No entanto, as falências não se relacionam apenas à economia. Há também culpa das próprias instituições que organizam o futebol na Itália. As exigências sobre um rigor financeiro são mínimas, assim como as federações costumam ser permissivas na hora de investigar de quem é o dinheiro injetado em um clube. Explica compras e vendas feitas a preço de banana, com alguns times logo condenados à bancarrota. E, numa visão mais ampla, a politicagem na admissão de clubes de centros menores do país ao profissionalismo, sem manter um sarrafo mínimo quanto à estrutura interna, contribuiu para certo sucateamento das competições. Assim, em um país no qual a maioria das agremiações não contam com a benevolência das instituições públicas para o perdão de suas dívidas, são várias equipes que precisam recomeçar a partir do amadorismo.

Enquanto clubes enxutos e de história recente passaram a ser exemplos de gestão, gigantes do passado possuem seu entorno afundado na má administração e nas relações promíscuas com autoridades locais. Assim, por mais infeliz que seja, diversas agremiações precisam lidar com as falências a cada temporada. O processo costuma ser parecido: declaram a insolvência, têm seus direitos esportivos resguardados pela prefeitura, o município escolhe novos donos capazes de carregar aquela “herança” e a instituição acaba refundada na Serie D, amadora, para tentar galgar os degraus rumo ao profissionalismo.

Os entraves rumo a 2018/19

Foi esse mesmo processo que aconteceu com o Bari, por exemplo. Já falido em 2014, o clube voltou a entrar em bancarrota no último mês de julho. Fechou as portas e, em uma disputa concorrida pelo direito de ressuscitar a instituição, Aurelio de Laurentiis ganhou a permissão da prefeitura para assumir a equipe refundada – uma experiência que o magnata já teve anteriormente, no Napoli, e que o credenciou à escolha. Assim, a equipe que disputou os playoffs de acesso em 2017/18 recomeça nesta temporada a partir da Serie D. Deixou um dos lugares vagos na segundona. O mesmo ocorreu com o Cesena, também em julho. Por conta da existência de outra equipe da cidade nos níveis amadores, foi necessária uma fusão para a participação na próxima Serie D.

Já em agosto, o Avellino não obteve a licença para a inscrição para a Serie B por conta de uma irregularidade e, assim, também acabou refundado. O Foggia, que correu riscos parecidos por conta de irregularidades em suas garantias financeiras, foi punido com a perda de oito pontos a partir do início da temporada. De qualquer maneira, a Serie B 2018/19 teria três lacunas a preencher sem a presença dos três clubes tradicionais que recomeçariam no quarto nível.

Um procedimento comum na Itália é a admissão de clubes que ficaram próximos do acesso na Serie C ou que caíram na Serie B anterior, para aumentar o número de participantes no torneio e, assim, preencher as 22 vagas na tabela. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Brescia em 2015/16. A equipe havia caído na temporada anterior, mas terminou repescada à edição seguinte da segundona por conta da falência do Parma. Todavia, desta vez, os próprios integrantes da Serie B se mexeram para evitar que novos times fossem incluídos na atual temporada.

Ainda em julho, após as falências de Bari e Cesena, uma assembleia com os representantes da Serie B votou para que o número de participantes fosse reduzido de 22 para 20 equipes. Temporariamente, a federação italiana revogou a decisão com base em seu regulamento. Já em agosto, a exclusão do Avellino aumentou o problema. As três vagas deveriam ser ocupadas por Catania e Siena, vice-campeões em suas chaves regionais na Serie C, bem como pelo Novara, antepenúltimo colocado da Serie B. Contudo, Pro Vercelli e Ternana, os outros rebaixados na segundona passada, não concordaram a escolha e ameaçaram entrar com um processo.

Para não arrastar o campeonato e ampliar o imbróglio jurídico, a Serie B anunciou em 10 de agosto que apenas 19 times disputariam a temporada, conforme votação referendada por seus participantes. Três dias depois, a federação italiana deixou de criar empecilhos e formalizou a decisão. No comunicado oficial sobre a postura, a Lega B apontou que “se reservava o direito de tomar ação contra aqueles que irão agir de maneira ilegal, ilegítima e prejudicial contra a liga ou os clubes associados”.

A decisão, vista como unilateral, não foi bem aceita por certos atores. Damiano Tommasi, atual representante dos futebolistas profissionais, disse que sua instituição havia sido “fortemente contrária” à ideia durante reunião com representantes da Serie B e mesmo assim não foi escutado. Já o presidente da Lega Pro (que organiza a terceirona) qualificou que o ato de bloquear os times pleiteando as vagas abertas foi um “ato imperdoável de falha de governança no futebol italiano”, aguardando que os organismos supervisores tomassem uma atitude para rever a postura. Fato é que, mesmo com a oposição, o pontapé inicial aconteceu nesta sexta.

Como fica o campeonato

A Serie B 2018/19 terá 38 rodadas nesta temporada. Todos os times enfrentam todos em jogos de ida e volta, enquanto um ganhará folga por rodada. Além disso, os números de vagas ao acesso e ao descenso permanecem inalteradas. Dois times sobem diretamente à Serie A, com outros seis integrando os playoffs pela última vaga. Além disso, três caem diretamente à Serie C, enquanto dois tentam sobreviver através da repescagem. O que diminui é o número de times na zona intermediária da tabela. São apenas sete posições de diferença entre o último dos playoffs de acesso e o primeiro dos playoffs de descenso. Tende a criar uma competição mais parelha.

A tabela da Serie B foi definida apenas 11 dias antes do início da competição. Nesta sexta, a abertura reuniu dois clubes tradicionais, o Brescia e o Perugia – treinados por David Suazo e Alessandro Nesta, respectivamente. Prevaleceu o empate por 1 a 1, com Luca Vido buscando o empate ao Perugia aos 48 do segundo tempo. Já na sequência do final de semana, destaque à estreia do Verona contra o Padova e à visita do Palermo à Salernitana. O Livorno é quem folga esta vez.

Apesar do início, a Serie B ainda sofre com ameaças. A associação de jogadores afirmou no início da semana que poderia convocar uma greve para interromper a competição. “A agitação permanece e temos a ideia de adiar as duas primeiras rodadas da temporada. Tememos a criação de um perigoso precedente. A mudança foi além dos limites do mandato do comissionário da federação e está em desacordo com as regulamentações. Vamos continuar providenciando o apoio necessário para resguardar os direitos os jogadores”, declarou Tommasi. No entanto, por mais que abrisse a possibilidade de convocar os atletas de Brescia e Perugia pra uma greve, o duelo aconteceu.

Já na Serie C…

Se a Serie B começou neste final de semana, a interrogação agora recai sobre o que acontecerá na Serie C. O torneio só deve ter início em 16 de setembro. Quatro times faliram ou não conseguiram suas licenças para a temporada da terceirona: Andria, Mestre, Reggiana e Vicenza. Além disso, há a queda de braço envolvendo Novara, Catania, Siena, Pro Vercelli e Ternana – todos sob a expectativa de uma reversão sobre o atual status da segundona. Como a Lega Pro é contra a Serie B com 19 times, tenta fazer pressão sobre a divisão acima.

A grande novidade na terceira divisão italiana será a participação da Juventus B. Com a abertura à criação de segundos quadros, a Velha Senhora passou a ocupar um dos lugares deixados pelos clubes falidos. Início de uma nova era que se mistura com os problemas das anteriores. Mesmo que tudo se resolva nas próximas semanas, não será surpreendente se confusões parecidas se repetirem nas próximas temporadas, com os clubes tão suscetíveis às suas fragilidades econômicas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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