Serie A

A Cremonese finalmente volta à Serie A e relembramos 16 grandes nomes de seus anos áureos

De volta à primeira divisão após 26 anos, a Cremonese disputou seis temporadas da Serie A entre as décadas de 1980 e 1990

Para quem lembra com saudades do Campeonato Italiano nas décadas de 1980 e 1990, a rodada final da Serie B de 2021/22 ofereceria sua dose de felicidade. Um dos times a subir é a Cremonese, equipe tradicional que não disputava a primeira divisão desde 1995/96. Os grigiorossi eram figurantes durante o auge do Calcio. A partir de 1984/85, a equipe disputou seis edições da elite nacional num intervalo de 12 anos. Não aguentava muito tempo antes de cair, mas pôde marcar sua história com grandes nomes e também vitórias memoráveis contra alguns dos favoritos.

Desde a queda há 26 anos, a Cremonese sofreu um bocado. Teve problemas econômicos, emendou novos descensos, disputou até a quarta divisão. Porém, desde o acesso para a segundona em 2016/17, os grigiorossi tinham se estabelecido na Serie B. A volta para a elite se confirmou numa noite emocionante, com a ultrapassagem sobre o Monza na última rodada. E o feito tão aguardado pela torcida abre o baú de lembranças, que inclui aqueles outros momentos já distantes na Serie A.

Abaixo, recontamos as histórias de 16 personagens importantes da Cremonese naquele período dourado entre os anos 1980 e 1990. Nem todos disputaram necessariamente a elite, mas auxiliaram os grigiorossi a chegar lá. A lista inclui jogadores marcantes e também os principais técnicos. O clube auxiliou muitos jogadores de relevo a deslancharem, bem como abrigou estrangeiros renomados.

Gianluca Vialli

O filho mais querido de Cremona não disputou a Serie A, mas foi responsável direto por levar a Cremonese para a elite do Campeonato Italiano depois de uma espera de 54 anos – algo que mesmo outros bons jogadores que passaram pelo time antes dele, como Antonio Cabrini e Aristide Guarneri, não conseguiram. Gianluca Vialli era diferente. Nascido numa família rica da região, o prodígio seguiu seu sonho de virar jogador de futebol. Sorte dos grigiorossi, que viram o garoto chegar às suas categorias de base quando tinha 14 anos. O atacante estreou no time principal durante o acesso na Serie C1, em 1980/81, aos 16 anos. Depois, foram três campanhas na Serie B, até que se tornasse um dos artífices do acesso em 1983/84, com 10 gols em 37 aparições. Esbanjava categoria, especialmente na hora de finalizar. Todavia, o jovem de 20 anos deixou a Cremonese antes da reestreia na elite. Viraria lenda na Sampdoria, antes de ser ídolo em Juventus e Chelsea. Permanece reconhecido como um dos maiores atacantes da história do Calcio e também como o mais apaixonado torcedor da Cremonese.

Alviero Chiorri

A venda de Vialli para a Sampdoria teve como compensação a chegada de Alviero Chiorri. O meia de 25 anos surgiu como uma grande promessa nos blucerchiati e era conhecido por uma qualidade técnica acima do comum, mas não costumava ser dos jogadores mais compromissados em campo e chamava atenção pela boemia fora dele. Na Cremonese, o armador acabaria lembrado pelos lampejos de craque que permearam sua trajetória de oito temporadas com a equipe. Seus números são mais impactantes na Serie B do que na Serie A, e de fato Chiorri contribuiria na conquista de dois acessos. Mais impressionante, ainda assim, era a maneira como tratava a bola com sua canhota – a ponto de ser apelidado de “Marciano”. Chiorri costumava dizer que “seu objetivo era entreter as pessoas”. Durante o fim da carreira, lidou com a depressão, farto da pressão do futebol de alto nível, e pendurou as chuteiras aos 32 anos, antes de se mudar para Havana em 1994.

Mario Montorfano

Quinto jogador com mais aparições na história da Cremonese, Mario Montorfano é homem de uma camisa só. Chegou ao clube nas categorias de base e iniciou sua trajetória na equipe principal em 1978. Foram 16 temporadas ininterruptas com o clube, quase sempre como titular, sendo o único que participou dos quatro acessos à Serie A acumulados no período. O zagueiro disputou 61 partidas na elite e usou a braçadeira de capitão ao final de sua carreira, até se aposentar em 1993/94. Depois disso, virou treinador das categorias de base dos grigiorossi. Também teve quatro passagens como comandante da equipe principal, a última delas em 2014. A conquista do novo acesso acontece na véspera de seu aniversário de 61 anos.

Wladyslaw Zmuda

Wladyslaw Zmuda é uma lenda da seleção polonesa, com quatro Copas do Mundo no currículo. Após conquistar títulos nacionais com Slask Wroclaw e Widzew Lódz em seu país, o zagueiro chegou à Serie A através do Verona em 1982. Defendeu os gialloblù em duas temporadas e, após uma rápida passagem pelo New York Cosmos, assinou com a Cremonese depois do acesso em 1984. O veterano atuou apenas 12 vezes naquela campanha pela Serie A de 1984/85 e não abandonou a equipe mesmo depois do rebaixamento. Jogou duas temporadas na Serie B, sem subir, e aposentou-se após disputar o Mundial de 1986 como atleta grigiorosso.

Juary

Na época do primeiro acesso da Cremonese, a Serie A permitia a presença de dois estrangeiros por clube. Além de Zmuda, a diretoria contratou o ponta-de-lança Juary. O antigo Menino da Vila estourou no Santos e passou brevemente pelo futebol mexicano, antes de desembarcar na Itália durante a reabertura da liga a atletas de outros países. Já era um veterano no Calcio, com bons momentos pelo Avellino, antes de defender também Internazionale e Ascoli. Seu impacto na Cremonese não seria tão grande, com apenas dois gols em 19 partidas pela Serie A de 1984/85. Acabaria vendido ao Porto, onde conquistou a Champions com papel decisivo.

Luigi Gualco

Quarto jogador com mais partidas pela Cremonese, Luigi Gualco chegou ao clube em 1985, contratado da pequena Sanremese. O zagueiro participou de três acessos do clube e esteve presente em cinco das seis campanhas na Serie A naquele período. Seu ápice aconteceu em 1994/95, quando os grigiorossi pegavam o Milan de Fabio Capello, atual tricampeão nacional e vencedor da Champions anterior. Gualco anulou Ruud Gullit e ainda marcou o gol da vitória por 1 a 0, com uma cabeçada. Aposentou-se no clube e virou presidente em 2002. Foram cinco anos no cargo, chegando a tirar a equipe da quarta divisão e a conquistar dois acessos consecutivos, mas saiu de cena com uma queda à Serie C1.

Michelangelo Rampulla

Michelangelo Rampulla foi contratado pela Cremonese para a Serie B, em 1985, após defender o Cesena. O goleiro se manteve como titular dos grigiorossi por sete temporadas e auxiliou em dois acessos para a Serie A, sustentando a fama de pegador de pênaltis. Seu grande momento aconteceu na temporada de 1991/92, quando subiu ao ataque e se tornou o primeiro goleiro a marcar um gol com bola rolando na Serie A. Aos 47 do segundo tempo, executou uma cabeçada para arrancar o empate contra a Atalanta em Bérgamo. Nada que evitasse o rebaixamento, porém. Também por suas defesas, Rampulla se destacou o suficiente para ser contratado pela Juventus em 1992. Virou o reserva de Angelo Peruzzi na maior parte do tempo e aposentou-se em 2002, participando da conquista de uma Champions e de quatro Scudetti. Foi presidente da Cremonese por alguns meses entre 2016 e 2017.

Attilio Lombardo

Outro ídolo da Sampdoria que estourou em Cremona foi Attilio Lombardo. O ponta começou na Pergocrema, até ser levado pela Cremonese em 1985, aos 19 anos. Tal qual Vialli, disputou apenas a Serie B com os grigiorossi, presente em quatro temporadas consecutivas. Seria importante no acesso de 1988/89, com cinco gols marcados, inclusive o que confirmou o time nos playoffs. Então, na decisão da vaga contra a Reggina, coube a Lombardo converter o pênalti decisivo que garantiu a promoção. Na Serie A seguinte, todavia, já vestia a camisa da Samp. Teria passagens ainda por Juventus e Lazio, sendo um dos raros jogadores que foram campeões nacionais com três clubes diferentes.

Giuseppe Favalli

Cria da base da Cremonese, Favalli ganhou suas primeiras oportunidades no time principal durante a conquista do acesso em 1988/89. O lateral seria titular na Serie A seguinte e, depois do rebaixamento, ajudou a nova subida em 1990/91. A temporada de 1991/92 seria a sua última com os grigiorossi, sem evitar o novo descenso. Atuou por muitos anos na Lazio, antes de conquistar títulos também por Internazionale e Milan. Apesar da história em gigantes do país, o veterano ainda voltou à Cremonese depois de pendurar as chuteiras para se tornar treinador das categorias de base.

Gustavo Dezotti

Dezotti foi um dos estrangeiros comprados pela Cremonese depois do retorno à elite em 1989/90. O atacante foi um dos grandes nomes do Newell’s Old Boys na década de 1980 e terminou levado pela Lazio em 1988, mas ficou apenas uma temporada. Tornou-se muito mais importante nos grigiorossi, com 13 gols na Serie A 1989/90, quando garantiu vitória até contra o Milan e mesmo assim não evitou o rebaixamento. Ao menos, carimbou sua vaga na Copa de 1990 pela seleção argentina e seria inclusive titular na final, ocupando o lugar de Claudio Caniggia. El Galgo fez 11 gols na campanha do acesso em 1990/91 e outros nove gols na Serie A 1991/92, dois deles em vitória sobre a Inter no San Siro. Depois, seriam 12 gols na Serie B de 1992/93, providenciando mais um acesso. A sua última temporada pelo time veio na Serie A 1993/94, com mais seis tentos. Depois disso, transferiu-se para o México, onde defendeu León e Atlas. Permanece como o maior artilheiro da Cremonese na Serie A.

Anders Limpar

Mais um estrangeiro na Cremonese de 1989/90 era o sueco Anders Limpar. O meio-campista surgiu no Brommapojkarna e passou pelo Örgryte, antes de ter a primeira experiência fora do país com o Young Boys. Ficou uma temporada na Suíça, até ser contratado pela Cremonese. Titular dos grigiorossi, disputou 24 partidas e marcou três gols, sem impedir o descenso. Presente na Copa de 1990, despediu-se da Itália logo depois do torneio, sem jogar a segundona. Passaria a vestir a camisa do Arsenal e também jogou pelo Everton, enquanto esteve presente como reserva na epopeia sueca durante o Mundial de 1994.

Gustavo Neffa

Gustavo Neffa era uma das grandes figuras do Olimpia que disputou a final da Libertadores em 1989 e também teve seu destaque na Copa América daquele ano. O atacante paraguaio seria comprado pela Juventus nesse momento, mas acabou repassado por empréstimo para a Cremonese. Teve um desempenho tímido na Serie A de 1989/90, mas ficou para a Serie B seguinte e contribuiu um pouco mais para o acesso. Entretanto, pouco jogou na Serie A 1991/92 e fez as malas de volta para a América do Sul. Teria seu principal momento pelo Boca Juniors.

Enrico Chiesa

A Cremonese teve a sorte de contar com Enrico Chiesa na temporada 1994/95. O jovem atacante pertencia na época à Sampdoria, mas não tinha muito espaço e acumulava empréstimos. Havia se destacado na Serie B anterior com o Modena, com as portas abertas nos grigiorossi para virar titular na Serie A. Correspondeu bem. Foram 14 gols de Chiesa na campanha da liga, 13 deles anotados já no primeiro semestre de 1995. Tornou-se vital para evitar o rebaixamento da Cremonese, garantindo vitórias importantes na reta final. Depois disso, voltou para a Samp e seria apontado como um dos melhores jogadores da Serie A 1995/96. Ainda viveria grandes momentos com Parma, Fiorentina e Siena.

John Aloisi

Enquanto a Serie A ampliava o número de estrangeiros por equipe nos anos 1990, a Cremonese seguia pelo caminho contrário. Nas três temporadas consecutivas na elite de 1993/94 a 1995/96, os grigiorossi só tiveram quatro atletas nascidos fora da Itália. Um deles era o australiano John Aloisi, que vinha do Royal Antuérpia. Contratado em novembro de 1995, ele estreou de maneira espetacular, com seu primeiro gol logo aos dois minutos contra o Padova. Duas rodadas depois, marcou o seu numa goleada por 7 a 1 sobre o Bari. E foi só. O atacante não fez mais gols e a Cremonese terminou rebaixada. Aloisi ainda ficou para a Serie B em 1996/97. Sem o acesso, mudou-se para o Portsmouth, onde realmente emplacou. Teria boas passagens também por Coventry City, Osasuna e Alavés, além de seu protagonismo na seleção da Austrália rumo à Copa de 2006.

Emiliano Mondonico

Nos tempos de jogador, Emiliano Mondonico foi um dos grandes ídolos da Cremonese. Disputou apenas a segunda e a terceira divisão, mas permanece até hoje como o maior artilheiro da história do clube. O filho ilustre da província de Cremona virou técnico da base ao se aposentar em 1979 e assumiu o time principal em 1982. Seria ele o técnico responsável pelo retorno à elite depois de 54 anos, enquanto também teve grande parte no surgimento de Gianluca Vialli. Seriam quatro anos no comando dos grigiorossi, permanecendo uma temporada após o rebaixamento em 1984/85. Depois disso, tornou-se um treinador histórico especialmente por seus trabalhos à frente da Atalanta e do Torino, com o qual conquistou a Copa da Itália e foi vice-campeão da Copa da Uefa.

Luigi Simoni

Luigi Simoni seria o principal comandante da Cremonese na década de 1990. Com passagens por clubes importantes nos tempos de jogador, aposentou-se no Genoa e virou um salvador do Grifone, com dois acessos em momentos distintos à frente dos rossoblù. Também subiu duas vezes na Serie B com o Pisa. Tal fama o levou para a Cremonese em 1992/93 e ele repetiu o feito na segundona, com mais uma promoção para a Serie A. Durante aquela mesma temporada, conquistou um título em Wembley, a Copa Anglo-Italiana, que reunia times da segundona dos dois países. O treinador ficou nas três campanhas seguintes da Cremonese na elite, tendo como grande mérito fugir duas vezes do descenso. Em 1995/96, o destino seria fatal e ele se despediu dos grigiorossi. Assumiu o Napoli e depois teria uma passagem marcante pela Inter, com a qual conquistou a Copa da Uefa em 1997/98. Entre 2013 e 2016, Simoni retornou à Cremonese nos cargos de diretor e presidente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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