Itália

‘Senti um medo que não compreendia’: Buffon revela crise de pânico que quase ameaçou carreira

Ex-goleiro relembrou caso mais extremo antes de uma partida da Juventus em 2004

Gianluigi Buffon entrou para a história como um dos melhores goleiros quando se despediu dos gramados aos 45 anos, em uma trajetória repleta de conquistas desde a Copa do Mundo pela Itália até os títulos nacionais pela Juventus, Parma e Paris Saint-Germain.

Mas para além dos feitos em campo, o ex-goleiro também vivenciou momentos difíceis, que decidiu compartilhar por meio da sua autobiografia, onde revelou enfrentar crises de pânico que quase interromperam a sua carreira.

Entre elas, momentos antes da partida entre Juventus e Reggina, em fevereiro de 2004. Buffon detalhou que o clima de negatividade tomou conta de si e que passou a sentir sintomas “diferentes”.

— Os alto-falantes tocavam uma música que eu só conseguia ouvir como um zumbido irritante. Durante o aquecimento, sentia como se algo estivesse errado com meus músculos. Depois de dois minutos, coloquei as luvas, fiquei no gol e percebi que estava com dificuldade para respirar. Fiquei ali parado, olhando para o campo, e me senti um pouco tonto. O que me assustou, porém, foi a sensação de aperto no diafragma, entre o peito e o estômago, como se tivesse levado um soco — contou.

Gianluigi Buffon em atuação pela Juventus (Foto: IMAGO / HochZwei)
Gianluigi Buffon em atuação pela Juventus (Foto: IMAGO / HochZwei)

Buffon revelou que, na época, não conseguiu caracterizar os sintomas a um possível diagnóstico, já que não tinha conhecimento sobre a síndrome do pânico, mas que se viu paralisado.

— Pânico. Essa palavra não fazia parte do meu vocabulário. Por alguns meses, eu vinha dormindo mal, acordava logo depois de pegar no sono e pensamentos negativos me invadiam a mente: eu decepcionaria meus pais, meus fãs, eu estava prestes a jogar minha carreira fora. Eu tinha medo de sair, de falar com as pessoas que me amavam. Acordava grogue, com um cansaço que afetava meu corpo, minhas pernas estavam sem energia e comecei a perder a segurança nos meus movimentos.

O italiano revelou que Ivano Bordon, o treinador de goleiros na época, “percebeu que algo estava errado”, mas optou por não contar o que estava sentindo já que não queria assustá-lo.

Gianluigi Buffon em atuação pela Juventus (Foto: IMAGO / Plusphoto)
Gianluigi Buffon em atuação pela Juventus (Foto: IMAGO / Plusphoto)

— Tentei não olhar para ele porque não queria assustá-lo, mas eu estava com muita dificuldade para respirar e sentia um medo que não compreendia. Quando você tem um ataque de pânico, você não sabe que está tendo um ataque de pânico, você pensa que vai morrer. Eu não conseguia lidar com aquela situação, nem me concentrar na minha rotina, porque não sabia o que estava acontecendo comigo, então fui até Bordon e pedi que ele chamasse Antonio Chimenti, o goleiro reserva, para aquecer porque eu não estava me sentindo bem — afirmou.

 — Eu era jovem e não entendia exatamente o que era aquela sensação de inquietação. Interpretei como falta de coragem. Era um medo que o Buffon que eu havia criado na minha mente não podia suportar. Em termos de autoestima, de como eu queria viver minha vida, de como eu vivia, eu estava longe de ser fraco.

Apoio e escuta de pessoas próximas ajudaram Buffon

Ao tentar explicar o que estava sentindo, Buffon contou que teve dificuldades para formar as frases, mas que recebeu apoio por parte de Bordon. O profissional acalmou o ex-goleiro e explicou que ele poderia decidir se queria continuar ou não na partida contra Reggina.

— Ele olhou para mim e disse: “Não se preocupe, Gigi, você não precisa jogar”. Ele entendeu que eu estava tendo um ataque de pânico, mas me disse: “Agora fique aí e ande sozinha por dois ou três minutos, e enquanto isso eu digo ao Antonio para se preparar. Em dez minutos você pode me dizer se quer jogar ou não, você não é obrigado” — relembrou.

O campeão mundial confessou que o apoio recebido e o fato de não ter sido pressionado a jogar foi “libertador”, possibilitando que o ex-defensor pudesse retomar a calma.

Gianluigi Buffon em atuação pela Juventus (Foto: IMAGO / PA Images)
Gianluigi Buffon em atuação pela Juventus (Foto: IMAGO / PA Images)

— O fato de ele ter me dito “você não precisa jogar” já me dava a possibilidade de escolha e a chance de lidar com o que quer que estivesse errado comigo. Me libertei da ansiedade de estar no centro de uma controvérsia – “Por que Buffon não jogou?” – e tentei me acalmar — destacou.

No processo de entendimento do que estava sentindo, Buffon passou a conversar com pessoas próximas e com o médico da Juventus, Riccardo Agricola. Durante as sessões com o profissional, que passou a investigar um possível diagnóstico de depressão.

— Conversei sobre isso com meus amigos mais próximos e depois com o médico da Juve, Dr. Riccardo Agricola. Tentei não me levar muito a sério, rir um pouco de mim mesmo e do meu desconforto. Mas não era um tipo saudável de autoironia; eu estava apenas escondendo de mim mesmo aquele sentimento de escuridão. Um dia, durante um dos meus longos monólogos sobre essa doença que eu não conseguia nomear, a fraqueza que eu sentia, o esgotamento, Riccardo disse algo que me marcou: “Gigi, pode ser depressão — revelou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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