Itália

Senhora com problemas

Até o último domingo, era preciso buscar imagens em preto e branco para assistir a uma derrota em casa da Juventus contra o Palermo. Foi em 1962, quando os ‘rosanero’ venceram por 4 a 2. Agora, a torcida palermitana já tem direito a uma lembrança colorida: os 2 a 1 aplicados pelo time de Davide Ballardini em pleno Olímpico de Turim.

Ballardini, que tem quatro vitórias em cinco jogos à frente do Palermo, merece os aplausos pela vitória e pela reviravolta que conseguiu dar no time com a temporada já iniciada (assumiu o lugar de Stefano Colantuono após a primeira rodada). No entanto, o resultado chama mais atenção por expor o momento difícil que atravessa a Juve.

Nos últimos três jogos pela Série A, a Vecchia Signora somou apenas dois pontos, com empates diante de Catania (em casa) e Sampdoria (fora). Antes de perder para o Palermo, os comandados de Claudio Ranieri ainda empataram por 2 a 2 com o BATE Borisov, pela Liga dos Campeões, em uma partida que estiveram perdendo por 2 a 0.

Para piorar, o time só balançou as redes cinco vezes em seis partidas de campeonato – desempenho para lá de preocupante, que justifica a 11ª posição na tabela. É muito pouco para quem começou a temporada se propondo a lutar pelo título, mas faz certo sentido se pensarmos nos erros cometidos na preparação e na dificuldade para lidar com questões internas.

Em dois anos, a Juventus saiu do purgatório da Série B para o paraíso da Liga dos Campeões. Era o máximo que se poderia esperar dentro de uma perspectiva realista, depois de tamanho prejuízo esportivo e financeiro. Sacrifícios foram feitos de todas as partes, desde a diretoria até os jogadores – em especial os mais consagrados. Se gente como Buffon, Trezeguet, Camoranesi, Nedved e Del Piero continua no grupo, por que o time não consegue render como na última temporada?

Antes de mais nada, alguns dos citados não são mais garotos. Na temporada passada, quando a Juve terminou em terceiro lugar e teve o melhor ataque (ao lado da Roma), o time se dava ao luxo de jogar uma vez por semana, enquanto os rivais se empenhavam nas competições européias. Desta vez, o time precisou antecipar seu início de preparação, pensando na fase preliminar da LC, e ainda tem de lidar com os meios de semana ao longo da temporada. Aumenta não apenas o cansaço, mas a propensão a lesões, algo que tem se manifestado nas últimas semanas.

Assim, dificilmente haverá condição para que Camoranesi e seus 32 anos, Del Piero e seus 33, Nedved e seus 36 estejam em campo sempre. O problema é que a Juventus baseou neles seu caminho de volta ao topo, e estes jogadores não querem ficar fora do melhor da festa depois de roer o osso. Eles se sentem traídos de alguma forma quando se clama por espaço aos jovens – o que justifica, por exemplo, a relutância de Ranieri em dar mais espaço ao talentoso Giovinco. O treinador juventino não é um homem de grande diálogo, e isso parece reforçar o abismo entre a velha guarda e os jovens.

Ranieri carrega certa culpa quando se nota que o problema também é tático. Seja no 4-4-2 utilizado até então ou no 4-3-1-2 adotado contra o Palermo, a Juve foi uma equipe fraca em idéias. Dificilmente um dos atacantes conseguia aparecer desmarcado (Amauri foi presa fácil contra os defensores de seu ex-time), a movimentação do meio-campo era deficiente e os laterais não apareciam para colaborar com o jogo ofensivo. É um time de muita força física, mas com sérias dificuldades para a criação. Não foi por acaso que o gol no último domingo tenha saído em uma falta cobrada por Del Piero, com razoável contribuição do goleiro Amelia.

Atuando por todo o segundo tempo com um jogador a menos, após a ingênua expulsão de Sissoko ainda na primeira parte, a Juventus jogou a cautela para o alto e se expôs muito mais do que deveria. O gol do jovem georgiano Mchedlidze chegou como um castigo justo para a Juve e uma recompensa merecida para os visitantes.

As contratações de Poulsen e Sissoko já apontavam para um meio-campo com essas características, mas a diretoria pode se lamentar por não ter buscado Xabi Alonso e Stankovic – especialmente este último, por ter as características de armação de que o time tanto sente falta. Vale lembrar que a contratação de Stankovic esteve praticamente acertada, mas não se concretizou depois dos fortes protestos da torcida, por causa das declarações do sérvio na época do escândalo que tirou dois títulos da Juve e deu um para a Inter. Pois teria sido melhor engolir.

O presidente Giovanni Cobolli Gigli admitiu que a Juventus atravessa sua maior crise técnica desde o Calciocaos, mas descartou mexer no comando da equipe. De qualquer forma, Ranieri dificilmente fará parte do projeto para 2009/10, dada a força de nomes como Spalletti e Prandelli entre os dirigentes.

Para que a reviravolta seja imediata, evitando uma crise mais séria, a Juve terá uma seqüência complicada – a começar pela visita ao Napoli, depois da pausa para os jogos de seleções. São duas semanas de recesso, mas Ranieri não contará com doze de seus jogadores até três dias antes do jogo no estádio San Paolo. Depois, há o desafio do Real Madrid pela LC, e logo em seguida o dérbi com o Torino. É uma faca de dois gumes – se os resultados forem satisfatórios, este momento negativo será facilmente esquecido.

A Roma sofre

Toda a esperança que se criou em torno da Roma após a vitória por 3 a 1 sobre o Bordeaux desmoronou em Siena, onde os ‘giallorossi’ perderam por 1 a 0. Repetiram-se os mesmos defeitos já vistos antes neste início de temporada, e a saída para os torcedores é a mesma de tantas e tantas outras vezes: esperar pelo retorno de Totti.

A escalação de Júlio Baptista como centroavante mostrou que Spalletti segue com opções limitadas. Totti tem entendimento suficiente com a linha de três meias para trocar de posição constantemente, sobretudo com Perrotta, que atua pelo meio. Com o brasileiro, não é assim tão simples. Além disso, Menez não é nem de longe um substituto para Mancini, que tinha maior versatilidade para alternar subidas à linha de fundo e investidas em diagonal. Por isso, a direção romanista já trabalha com alternativas para o mercado de janeiro: Ferreira Pinto (Atalanta), Obinna (Inter) ou Semioli (Fiorentina).

Outro fator citado normalmente para justificar o mau começo da Roma (7 pontos em seis jogos) é o planejamento equivocado de pré-temporada. O time só se apresentou para treinar no dia 21 de julho. O ritmo de preparação teve de ser rapidamente acelerado, e as lesões que se acumularam no começo da temporada não podem ser vistas como mera coincidência.

Por fim, há a relação entre Spalletti e o elenco. Apesar de a presidente Rosella Sensi manifestar confiança total e irrestrita no treinador, o mesmo não pode se dizer dos jogadores. A mal explicada reunião com dirigentes do Chelsea em Paris não foi bem digerida pelo grupo. Desnecessário dizer que as rédeas do time vão sendo perdidas aos poucos. As duas expulsões em Siena são sintomáticas.

Udinese de ponta

Di Natale, Quagliarella e agora Pepe. Se quiser, Pasquale Marino pode montar o ataque da Udinese com três jogadores da seleção italiana atual ou recente. É algo impressionante para um clube de médio porte, mas o fato por si só não bastaria para explicar porque o time divide com Inter e Lazio a liderança do campeonato, com 13 pontos. Algo que não se via desde novembro de 2000.

Pois a Udinese tem também a melhor defesa da Série A, com apenas três gols sofridos em seis jogos, mesmo tendo os desfalques de Zapata e Felipe, zagueiros pretendidos por meia Itália. Prova de que é possível jogar com um tridente ofensivo e um sistema defensivo equilibrado. Algo que faz com que alguns já chamem Marino de “Marinho”, em trocadilho com o técnico português da Inter. Bem mais barato e com a mesma pontuação.

Quatro novidades

Marcello Lippi convocou quatro novatos para a seleção italiana que enfrenta a Bulgária, neste sábado, em Sofia, e Montenegro, quatro dias depois, em Lecce: os atacantes Giuseppe Rossi (Villarreal) e Simone Pepe (Udinese), o zagueiro Fabiano Santacroce (Napoli) e o ala-direita Christian Maggio (Napoli).

A renovação é, de certa forma, forçada pelo grande número de baixas por lesões. Materazzi, Legrottaglie, Grosso, Cassetti, Pirlo, Palombo e Iaquinta estão vetados por problemas físicos. A entrada de Rossi, no entanto, já era aguardada. Ele entra no lugar de Del Piero, que deve ter dificuldades para voltar à Azzurra.

Santacroce, natural de Camaçari-BA, é filho de pai italiano e mãe brasileira. De brasileiro, tem pouco mais que o local de nascimento. Cresceu em Casatenovo, na Lombardia, e deu seus primeiros passos no futebol nas categorias de base do Como. De lá, saiu para o Brescia, onde ganhou projeção nacional. Desde janeiro está no Napoli, confirmando-se como um dos melhores da posição no país. Tem a melhorar apenas um alto índice de expulsões.

Pepe oferece uma alternativa válida de atacante pela direita em um eventual 4-3-3. Resta saber como Lippi pensa em utilizar Maggio, que no Napoli faz o setor direito do meio-campo no esquema 3-5-2 de Edy Reja. Não é descartado que ele seja uma alternativa para a lateral-direita.

Veja os convocados:

Goleiros: Buffon (Juventus), Amelia (Palermo) e De Sanctis (Galatasaray/TUR);

Defensores: Zambrotta (Milan), Cannavaro (Real Madrid/ESP), Chiellini (Juventus), Dossena (Liverpool/ING), Bonera (Milan), Gamberini (Fiorentina) e Santacroce (Napoli);

Meio-campistas: Camoranesi (Juventus), De Rossi (Roma), Gattuso (Milan), Maggio (Napoli), Perrotta (Roma), Aquilani (Roma), Montolivo (Fiorentina) e Nocerino (Palermo).

Atacantes: Gilardino (Fiorentina), Toni (Bayern de Munique/ALE), Di Natale (Udinese), G. Rossi (Villarreal/ESP) e Pepe (Udinese).

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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