Itália

Sem direção

A Itália empatou por 1 a 1 com a Suíça, no último sábado, em Genebra. Foi o mesmo resultado obtido pela Azzurra em encontros com os helvéticos antes das duas últimas conquistas de Copas do Mundo, em 1982 e 2006. Quem gosta de superstições pode se agarrar a este fato para acreditar na conquista do quinto título na África do Sul, porque há poucas evidências concretas para apoiar a confiança.

O futebol apresentado pela equipe de Marcello Lippi nos dois amistosos de preparação é preocupante – e, ao mesmo tempo, consequência das escolhas ruins do treinador. Antes do empate na Suíça, a Itália havia perdido por 2 a 1 para o México, revés inédito em dez confrontos anteriores com o mesmo adversário. Defesa insegura, meio-campo incapaz de criar, ataque perdido.

A Azzurra não jogava tão mal desde o humilhante 3 a 0 imposto pelo Brasil na Copa das Confederações, em junho do ano passado. O México só não construiu vantagem semelhante porque desperdiçou ótimas oportunidades diante de Buffon, além de obviamente não ser tão forte quanto a equipe canarinho.

A defesa, que historicamente deveria ser o ponto forte de qualquer seleção italiana, esteve irreconhecível. Cannavaro é sempre batido em velocidade, enquanto o recém-chegado Bonucci, apesar de ter feito o gol de honra no final, mostrou certo nervosismo e vacilou no primeiro tento mexicano, marcado por Vela.

O teste de Marchisio como “trequartista”, meia de criação no esquema 4-2-3-1, durou apenas alguns minutos. Lippi mudou a formação da equipe por duas vezes ao longo da partida, experimentando o 4-4-2 e o 4-1-4-1, colocando o juventino na esquerda e depois no centro. Em nenhuma das condições ele entrou na partida. A função de protagonista que o treinador gostaria de vê-lo deve ser reconsiderada.

No 4-2-3-1 inicial, Iaquinta foi escalado pela direita. Pouco produtivo na parte ofensiva, inexistente na cobertura. O lateral mexicano Salcido fez festa por aquele setor, com liberdade para apoiar. Se ele não pode jogar por ali, o mesmo discurso vale para Di Natale, artilheiro da Serie A, mas escalado como homem aberto pela esquerda por Lippi. Gilardino ficou isolado na área, preso entre os dois centrais mexicanos, obrigado a jogar mais de costas do que voltado para o gol.

O fato de o México estar mais adiantado na preparação – vinha de jogos com Inglaterra e Holanda – e a Itália ter iniciado um duro período de treinamentos na altitude de 2 mil metros em Sestriere não pode, sozinho, servir como desculpa ou justificativa para uma atuação tão fraca.

Para o jogo diante dos suíços, Lippi optou por misturar as cartas e dar uma olhada nos reservas. Sem Pirlo, dúvida para o início do Mundial com uma lesão muscular, o treinador decidiu escalar Cossu, que não faz parte do elenco de 23, mas viajará para a África do Sul. Além de Pirlo, há dúvidas sobre o estado físico de Camoranesi, que também se contundiu durante a preparação.

Em campo, nova tentativa de módulo, desta vez no 4-3-3. Resultado: Cossu aberto na direita, e não escalado como trequartista como está habituado no Cagliari. Montolivo, um dos poucos convocados com pés talentosos, em teoria seria o sucessor de Pirlo no meio-campo. Escalado pela esquerda no trio de meio-campistas ao lado de Gattuso e Palombo, foi ele quem falhou na marcação de Inler no gol suíço que abriu o placar. Compensou ao participar da jogada do gol de empate, marcado por Quagliarella, mas não dissipou por completo as dúvidas.

Ironicamente, coube a dois veteranos decadentes de 2006, Gattuso e Zambrotta (hoje mais defensivo), o papel de melhores em campo, o que não é nada animador. Na zaga, Chiellini voltava de contusão e se mostrou fora de ritmo, mas deve estar melhor no Mundial. Na frente, Pazzini sofreu da mesma inanição que Gilardino no amistoso anterior.

As duas partidas de preparação serviram para deixar mais dúvidas do que certezas. Em 2006, os jogos pré-Copa também não foram excepcionais – empates com Ucrânia e Suíça – mas Lippi tinha ideias mais claras sobre que esquema adotar (4-3-3, com variação para 4-2-3-1) e que homens escalar. Além disso, depois das Eliminatórias a Azzurra havia alcançado vitórias de respeito sobre Holanda (3 a 1) e Alemanha (4 a 1).

Nos cinco jogos desde a conclusão do qualificatório para 2010, a Itália jogou com quatro esquemas diferentes, muitas vezes modificados no decorrer das partidas. Ter opções é importante, mas a falta de uma formação base é prejudicial à equipe, que ainda não sabe como jogará na estreia contra o perigoso Paraguai.

A Eslováquia tem um ótimo Hamsik, e a Nova Zelândia já deu sustos no ano passado, quando vendeu caro uma derrota por 4 a 3 em amistoso pré-Copa das Confederações. Uma eliminação na primeira fase, apesar de improvável, está longe de ser impossível.

São muitos aqueles que, ao avaliar a condição da Itália às vésperas do Mundial, gostam de aludir ao histórico de que a Azzurra “chega mal, mas cresce”. O problema é que as seleções italianas que chegaram longe tinham margem de crescimento, o que a atual parece não ter.

Parece, ainda, não contar com um grupo tão fechado e convencido das ideias do treinador como há quatro anos. Basta lembrar que Iaquinta manifestou publicamente sua insatisfação por ser escalado fora de posição contra o México, dizendo que só não reclamou com Lippi porque seria “mandado embora”. Como se não fosse ainda mais grave externar o inconformismo.

Contribui para isso, evidentemente, o fato de Lippi ter data de validade e já ter substituto confirmado. O fato de Cesare Prandelli assumir a Azzurra depois do Mundial pode fazer com que muitos dos jogadores percam o temor sobre o futuro na seleção em caso de problemas com o atual técnico.

A caminhada italiana começa no dia 14 de junho. E dificilmente chegará a 11 de julho.

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Equipe Trivela

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