Itália

Sacolão que funciona

Vice-artilheiro do Milan no Campeonato Italiano, Nocerino marcou o sétimo gol dele neste fim de semana. Tem o mesmo número que Robinho, Pato, Cassano e El Shaarawy, juntos. Também na última rodada, o laziale Klose fez uma doppietta e chegou aos 11 tentos no torneio, Heinze foi o único a se salvar na defesa da Roma, o juventino Pirlo voltou a namorar a bola e, no Lecce, os recém-contratados Migliónico e Blasi ajudaram a ajeitar uma defesa que conseguiu segurar a Internazionale. O que todos eles têm em comum? Foram apostas de baixo custo para seus times e vingaram rapidamente. O único que realmente custou alguma coisa (além de salários e comissões) para ser contratado foi Nocerino. O Milan pagou por ele meio milhão de euros, o suficiente para comprar 5,6% dos direitos econômicos do holandês Elia, objeto misterioso da Juventus.

É possível montar um time sem gastar aos tubos. O futebol de cada país reflete, de certa forma, as conjunturas social e econômica da nação no qual está inserido. E o futebol italiano custou a aceitar, mas não está tão longe de um colapso, assim como a própria Itália. Mesmo assim, os manda-chuvas são sempre da mesma turma, deixando à mostra estruturas viciadas e poucas ideias capazes de inovar. Soluções de baixo custo, incrivelmente, ainda não estão na moda. Quando o fair play financeiro entrar verdadeiramente em vigor, a partir de 2014, o caos poderá estar instaurado.

No papel, os Berlusconi, Moratti e Agnelli não poderão mais tirar dinheiro do próprio bolso para saldar dívidas dos clubes. É claro que poderão fazer manobras, como aumentar o capital dos seus clubes, manipular contratos de patrocínio… Investimentos decentes em merchandising, estádios, centros de treinamento e categorias de base, porém, continuam sendo as últimas opções, ainda que possam trazer retorno real em longo prazo. É mais fácil fazer algum jogo contábil e ajeitar as contas ano após ano.

E se o fair play financeiro realmente vingar? Em tese, dirigentes esportivos que também são ótimos olheiros e negociadores ganharão espaço, mandando para escanteio uma turma que não parece ter muito know-how na coisa. Gente como o inexperiente Bigon, que pagou 9 milhões num zagueiro como Britos, por exemplo. É possível ir às compras e buscar bons valores, a custo baixo, e os jogadores listados no início do texto poderiam servir de exemplo. Basta saber procurar.

Nocerino tem sido tratado pela grande imprensa italiana como a maior surpresa da temporada. Mas não é bem assim. O Milan contratou um jogador com mais de 200 partidas como profissional, três jogos pela seleção italiana e que só ficou de fora de 27 minutos em todo o último campeonato, jogando pelo Palermo. Marcador incansável, Nocerino conseguiu evoluir o jogo com as bolas no pés e também aprimorou o posicionamento. Os sete gols que já marcou com a camisa do Milan não são um ponto fora do eixo. Mas só Galliani conseguiu perceber que ali encontraria uma boa joia, já em processo final de lapidação.

Atletas veteranos também mostraram que, no projeto certo, ainda conseguem render. Klose já era dado como aposentado, mas, em 19 jogos com a Lazio pelo Campeonato Italiano, fez 12 gols.  Mesma marca atingida em seus últimos 64 jogos pelo Bayern de Munique, no Alemão. O cigano Heinze, que parece não conseguir parar em um time, fechou um contrato de risco com a Roma e se tornou o único titular absoluto da defesa rubro-amarela. A dupla rende mais do que Cissé e Kjaer, colegas de time e de posição contratados por uma boa grana, mas que não conseguiram vingar – o francês, inclusive, foi vendido ao QPR. Adicione à lista dos “bons velhinhos” o meia Pirlo, que vinha em baixa no Milan e voltou a ser o melhor passador da Serie A, com a camisa da Juventus.

É claro que grandes investimentos continuarão existindo, mas a turminha low-cost dá uma boa lição ao futebol italiano. Pode mostrar ao Novara que não adianta perder todo o ataque titular e investir quase tudo o que se tem (2,5 milhões de euros) em alguém como Morimoto. Ensinar ao Parma que não adianta pagar muito (1,5 milhão) por Blasi se ele não jogará como titular sequer uma vez e acabará dispensado. Sugerir ao Palermo uma pesquisa de mercado antes de dar tanto (1,8 milhão) por Pisano, um lateral mediano da segundona. E, quem sabe, esclarecer para a Roma que o Barcelona não liberaria Bojan por 12 milhões se não houvesse angu nesse caroço.

Pallonetto
– A semana será importante na disputa do título italiano. Na quarta-feira (1/fev), o Milan visita a Lazio e, quatro dias depois, recebe o Napoli. No mesmo período, a Juventus terá jogos bem mais abordáveis, contra Parma e Siena. A Velha Senhora tem 44 pontos e os rubro-negros, 43.

– A ótima campanha do Pescara na segundona finalmente tem feito os grandes times abrirem os olhos. O Genoa comprou da Juventus a co-propriedade do atacante Immobile, 21 anos, 13 gols. O Pescara é vice-líder do torneio (48 pontos), atrás apenas do surpreendente Sassuolo (49). Torino (47), Padova (44), Verona (44) e Varese (35) estão na zona de play-offs, que dá mais uma vaga na Serie A.

– Justamente na reta final do mercado de janeiro, Ranieri arrumou confusão na Inter. Disse que o time joga melhor no 4-4-2 e que ele não pode pedir para Sneijder jogar nas posições “disponíveis”. Logo, o holandês pode parar no banco. É o tipo de treinador que faz com que os jogadores se adaptem ao esquema tático, não o contrário. Por essas e outras, não vence nada.

– Este colunista era um dos que repreendia Mazzarri, treinador do Napoli, por não rodar o elenco. Mas, sempre que faz isso, tem se dado mal. Na última rodada, deixou Cavani no banco e levou 3×0. Quando o uruguaio entrou, bastou dois minutos para que ele e Lavezzi descontassem para 3×2. Mas por que raios poupar agora, se a Liga dos Campeões está tão distante? Adeus, campeonato.

– Continua o redimensionamento da Fiorentina. O time violeta comprou e deu três anos de contrato ao uruguaio a Olivera, que já fracassou na Juventus, no Atlético de Madri, na Sampdoria, no Genoa e nem era titular incontestável do rebaixável Lecce. Para quem pagou caro por Rômulo, ex-Cruzeiro e Atlético-PR, não chega a surpreender.

– Seleção Trivela da 20ª rodada: Benassi (Lecce); Barzagli  (Juventus), André Dias (Lazio), Tomovic (Lecce); Biondini (Genoa), Nocerino (Milan), Pirlo (Juventus), Jovetic (Fiorentina); Ibrahimovic (Milan), Klose (Lazio) e Matri (Juventus).

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Equipe Trivela

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